quinta-feira, 23 de julho de 2009

A MINHA MULHER INVISÍVEL



A nova promessa de bilheteria do cinema brasileiro é o filme “A Mulher Invisível” dirigido por Claudio Torres da excelente Conspiração Filmes e que trás no elenco Selton Mello e a estonteante e desejada Luana Piovani - no papel-título – que infelizmente, já adianto, tem a sua nudez completa invisível aos nossos olhos. A história é universal, bem contada e romântica. Selton (engraçadíssimo) interpreta Pedro, uma cara comum e sensível, que acredita no amor, mas sofreu uma decepção – leia-se chifre - as vésperas do seu casamento. Depressivo, se isola do mundo e depois de meses, só volta à vida quando escuta baterem em sua porta. É a mulher mais linda do mundo – correção: a segunda mais linda (Luana Piovani), já que a primeira é a minha namorada evidentemente - pedindo uma xícara de açúcar. Pedro se apaixona por aquela mulher perfeita, que tem apenas um único defeito: ela não existe! Ou será que existe? Afinal quem define a existência de algo ou de alguém para uma pessoa além dela mesma? Filósofos e pensadores já disseram que tudo aquilo em que se acredita, existe, portanto a mulher imaginária (ou homem, claro) pode estar respirando ao seu lado enquanto lê esta coluna. O filósofo Jean-Paul Sartre era um adepto deste pensamento imaginário - se bem que há provas mais do que concretas de que Simone de Beauvoir de fato existiu – pois afirmava que “Cada homem deve inventar o seu caminho, afinal o homem não é nada mais do que aquilo que faz e cria a si próprio. É livre, escolhe, ou seja: inventa.” Seu colega de profissão de séculos passados, o grande Descartes, resumiria isto numa única frase: Se você pensa, logo ela existe! O problema do final de uma relação entre seres absolutamente visíveis e não imaginários (será?) é que quando o outro vai embora, além de deixar saudades leva tudo que a gente tinha de melhor: nosso sorriso, nossa emoção, nosso lado criança, nossa sexualidade e claro o pior de tudo, nossa auto-estima. Mas eis que surge nossa mulher invisível e trás em sua bagagem tudo de volta para que possamos voltar a sermos quem de fato éramos, ou melhores ainda. A mulher invisível não apenas alimenta nossa imaginação, mas dá vida aos nossos sonhos. Ela nos faz crer que o mundo se torna muito mais fácil sob a sombra do sorriso dela. O beijo da mulher invisível tem o gosto da sedução e sua boca é fonte de mel inesgotável para adoçar nossos dias e lambuzar as nossas noites. Ela vasculha sua biblioteca e se encanta com seus livros. Ela troca o cd da Enya que você pôs no aparelho para dar um clima romântico e coloca Aerosmith, pois a excita. Na madrugada, você sem sono vai pra sala e ela chega ali, apenas de camisola transparente e pede para você por um filme do Woody Allen porque ela também acha ele o máximo e depois ainda quer discuti-lo com você ao som de Duke Ellington ao fundo e um bom vinho chileno que da taça vai pra boca dela e de lá vai pra sua por onde o vinho escorrega e a alma agradece embriagada. Ela diz que tua boca tem formato de coração, que teu sexo é o maior e mais viril do planeta, a ponto de causar inveja ao Rocco Siffredi, e claro, depois disto, vocês fazem amor madrugada afora. Pela manhã ela lhe trás suco de laranja, frutas e pães na cama e diz que prefere seu cabelo cumprido e despenteado, pois assim você lembra o Mick Jagger, que aliás, ela acha lindo e sexy e isto novamente a excita e vocês começam o dia fazendo amor (novamente) e o sol sorri mais belo para o mundo. Claro que a mulher invisível também pode lhe ser infiel em sua imaginação com homens visíveis, mas também imaginários como Brad Pitt, Jude Law e até mesmo o asqueroso Axl Rose. Mas não se importe com isto, afinal em sua vasta imaginação você também deve ter sido infiel inúmeras vezes com deusas também visíveis, mas inacessíveis até o presente momento, como Angelina Jolie e Mônica Bellucci. O problema é quando a traição extravasa bem além da sua imaginação e outros utilizam também sua mulher invisível, e aí você terá depois de apagar isto de sua imaginação ou da realidade, afinal ambas se confundem quando se ama e cria-se a mulher ideal. Mas que importa? Ou você crê numa mulher criada por você ou você não crê nem em você mesmo. Das duas maneiras você pode ter razão ou não, “caetaneando” aqui este seu colunista.
A mulher invisível te satisfaz e permite satisfazer-se com você. Ela tem interesse nos seus assuntos e até dá palpites quando tem de dar. Acredita nos seus projetos e junto com você ela investe neles e te empresta força necessária para realizá-los e conquistar o que almeja com eles. Mas como nem tudo é um mar de rosas, nossa mulher imaginária pode apresentar também alguns defeitos de fábrica, visíveis aos olhos de todos, mas que devem permanecer sempre invisíveis para nós, para que possamos seguir felizes nesta jornada levemente imaginária, ou não. O segredo, meus amigos (as) é ser feliz e acreditar sempre em você, nela e em tudo que lhe faça bem, imaginário ou não. Claro que as más línguas masculinas irão tentar te provar que mulher ideal não existe, porém se estas línguas não fossem más e soubessem fazer a lição de casa (ou de cama), mudariam de postura, se é que me entendem. As moças (invisíveis ou não) me entenderam. Talvez o dia que os homens ao invés de tentarem achar o invisível Ponto G entre as pernas de uma mulher, descobrissem o visível Ponto G no tímpano delas, a mulher ideal ou imaginária ou invisível como queiram chamar, estaria bem mais próxima da realidade. Eu encontrei a minha e estou satisfeito, portanto meus nobres sete leitores, se me flagrarem por ai de braços dados com o nada ou beijando o vento sem parar, não me incomodem, por favor, e nem tirem meu belo sorriso dos lábios, pois creio estar ao lado da mulher mais linda e mais interessante que já sonhei em ter: a minha mulher invisível! Que a magia do amor nos torne mais do que visíveis um ao outro e que a chance de perdermos aquilo que encontramos e que nos faz tão bem não seja apenas invisível, mas sim inexistente para que nossa felicidade, esta sim, seja invisível aos olhos dos invejosos e eternamente perceptível aos nossos corações apaixonados.

domingo, 12 de julho de 2009

CONFISSÕES DE UM MACHO



Recentemente li “O astro sombrio de Hollywood” - a biografia de Heath Ledger lançada no Brasil há alguns meses - e conclui o óbvio: num mundo de artes tão repleto de pessoas sem talento algum, é lamentável perder um astro com todos opcionais. Ledger era brilhante em seus trabalhos e prova maior disto fora sua versão do Coringa em Cavaleiro das Trevas - já descrito nesta coluna e agraciada com Oscar - e o divisor de águas de sua carreira: o lacônico personagem Ennis Del Mar do polêmico “Segredo de Brokeback Mountain”. É triste saber que o cinema perde um ator deste calibre com esta coragem e vontade suprema de enfrentar personagens difíceis e introspectivos. Para quem recusou milhões de dólares para ser o Homem Aranha, porque não se sentiria bem pulando prédios vestido num collant justíssimo, aceitar interpretar o fardo de um cowboy macho apaixonado por outro cowboy macho é no mínimo de uma opinião contestadora e bravamente admirável. Sem ser pejorativo, digo cowboy macho no sentido mais explícito da palavra: homem de atitude e coragem. Há uma diferença enorme entre o machão e o macho. O primeiro fala alto, grita, vive em bandos, ofende a esposa, só fala de futebol e jamais demonstraria sentimentos porque isto não é coisa de machão, enquanto que o segundo tem coragem de enfrentar as situações mais adversas; tem espírito de menino, bravura de guerreiro, mas acima de tudo não tem vergonha de chorar quando preciso for e de amar acima de sua limitação de compreensão herdada do homem de Neandertal. A comovente história de amor entre Ennis Del Mar e seu colega Jack Twist (o competente ator Jake Gyllenhaal) nos toma de assalto e nos prova de que o amor - sentimento muito mais indomável do que qualquer cavalo bravo de rodeio - quando chega não nos dá a opção de escolha. É o sentimento mais democrático e ao mesmo tempo mais ditador que existe. Este tal de amor, nos coloca à prova quando menos esperamos e tem a força e o poder absoluto de fazer com que um judeu se apaixone por uma palestina, que um corintiano ame uma são paulina, que padre morra de amores por uma prostituta, que um líder da ku klux klan se derreta no colo de uma negra e porque não, um amor que faça com que dois homens ou duas mulheres não consigam controlar este sentimento desenfreado e se entreguem a total paixão, mesmo que proibida aos olhos de uma sociedade falida, mas pragmática, que coloca o dedo na ferida que ela mesma causa com sua lança afiada de intolerância, dogmas e preconceitos. Falando em preconceito, muito homem se recusou a ver o filme por ser um filme de gays, mas não nada de gay nesta história, no sentido alegre, ou paródico do termo e muito menos se levanta bandeira – sem piadinha de duplo sentido - ou tenta influenciar alguém a mudar de opção sexual. Ninguém ali curte uma perversão ou uma sacanagem. Transcende um pouco isto e vai muito além de onde a imaginação do machão consiga chegar, pois é um filme dominado por um violento e poderoso amor. Amor de “macho” que talvez assuste “machões” influenciáveis, daqueles que seguem o rumo da conversa dos amigos, aqueles que espancam um torcedor adversário porque os “amigos” de torcida acham que é o correto, aqueles que mentem sobre suas aventuras sexuais com mulheres apenas para impressionar os amigos na roda e serem aceitos por eles, estas pessoas sim tem de temer verem um filme e serem influenciadas, afinal se dois cowboys, símbolos de macheza pura sucumbiram a este prazer involuntário e animalesco, quando um desejo milenar explodiu entre eles, imagine você meu caro amigo “macho pero no mucho” como seria mais fácil se entregar a tal sentimento “influenciável”. Portanto, aqueles que assim como eu, estão resolvidos sexualmente, amam suas namoradas, esposas e amantes heterossexuais e não se sentem constrangidos em se emocionarem por uma bela história de amor, recomendo o filme, que é uma reflexão sobre a ânsia de desejo que nos move para os outros, sobre a vontade animalesca e irrefreável da busca pelo prazer absoluto, contido no amor ente dois seres apaixonados, sejam eles heteros ou homos, não importa, pois o amor não se define; sente-se. Você curte pagode e ela é fã de Miles Davis. Você ama os filmes do Van Damme e ela viu e reviu a trilogia das cores de Kieslowski. Você curte revista pornô e ela estuda sexo tântrico. Você curte uma balada e ela um jantar na casa de amigos. Você é gordo e está ficando calvo e ela linda e com um corpo de deusa. Meu caro, graças a Deus o amor de fato é inexplicável, pois só isto explicaria você ter alguém assim do teu lado. É um sentimento humano por outra pessoa elevado ao grau máximo de admiração, onde geralmente não se escolhe, se é escolhido. E não tente compreende-lo pois qualquer pergunta permanecerá retórica. Quem somos nós para julgar um ato de amor, se aquilo que se faz em nome dele estará sempre além do bem e do mal. Brokeback Moutain pode ser apenas uma metáfora para as colinas de dúvidas e incompreensões que habitam o vale montanhoso de nossa solidão, onde o amor em horas irradia de sol, em outras ilumina como lua cheia, em outras ataca com fortes tempestades, nos dá flores, transforma-nos em desertos, não importa, o fato é que ninguém está livre deste sentimento. Nietzsche, um dos maiores filósofos que o mundo conheceu - que chorou e morreu de amor também - afirmou que até Deus tem um inferno: é o seu amor pelos homens.


segunda-feira, 6 de julho de 2009

JEANS CHARLES FOI NOSSO 11 DE SETEMBRO



Bem amigos da Lavoura Arcaica, mas o que é isto companheiro? Começa o jogo e já tem Caramuru no céu. E lá vai o caricato Chicó que dá um drible em Lisbela e lança a bola pra Leléu, o prisioneiro, que mesmo desafinado e cheirando ralo passa a bola para Johnny Estrela, o camisa dez que dá um chapéu na mulher invisível e manda um Feliz Natal de bandeja pra Jean Charles que chuta contra o goleiro inglês e é gooooooool. Mais um gol do time de fominhas do cinema: Selton Mello Futebol Clube. Pois é, meus queridos sete leitores e aqui ouvintes deste jooooogo espetaculaaaar...Mais uma vitória nas mãos (ou pés) do grande ator Selton Mello em mais uma produção nacional do cinema que leva o nome do jovem como protagonista. Aliás, são tantos filmes com Selton que se forem filmar no Brasil a vida e morte de Michael Jackson, não se admirem se ele for o Michael. Mas nos atendo ao mais recente trabalho do ator, esta coluna hoje divaga sobre Jean Charles, do estreante (na ficção, já que seus trabalhos anteriores são documentários) diretor Henrique Goldman sobre a vida e morte (estúpida) do brasileiro executado em Londres. O filme, que havia sido encomendado pela rede estatal britânica BBC, foi cancelado por questões legais e divergências artísticas com o diretor, pois ele queria privilegiar o ponto de vista brasileiro da história (e o fez), enquanto a BBC queria algo com a visão inglesa do caso.
Independente de qual hemisfério venha esta visão, a verdade é uma só: Jean foi executado covardemente por policiais incompetentes. Fato este já indiscutível para o mundo, incluindo a Inglaterra que apesar de não condenar os assassinos – o que mostra que impunidade não é produto nosso apenas – tem a sua opinião pública favorável a família de Jean. Apesar do filme ter evidentemente seu enfoque no assassinato do jovem, o filme também é um retrato do cotidiano de brasileiros que tentam uma vida mais digna, fora de seu país. Um Brasil que já foi feito por imigrantes e hoje, infelizmente, produz um número infinito de emigrantes devido sua condição pouco favorável no mercado de trabalho. Um país injusto onde o corporativismo e a corrupção ainda imperam em todas as esferas prevalecendo a incompetência em diversas áreas e ocasionando uma fuga desesperada daqueles que com um diploma (as vezes dois ou três) nas mãos se vêem obrigados a lavar pratos num país distante para ter uma dignidade maior e poder assim sustentar os custos de uma vida menos ordinária. Poucos filmes mostram a visão do brasileiro fora de seu habitat e Jean (o filme) cumpre bem o seu papel com atenção especial ao ator Luis Miranda que com seu personagem não só rouba a cena - levaria facilmente um Oscar de coadjuvante, caso um dia nossas produções tivessem o mesmo respeito e admiração da Academia quanto às de outros países – como nos revela o retrato fiel do brasileiro humilde, com uma cultura pobre, simples, jogado mundo afora pra dar uma vida melhor a sua família aqui. Suas tiradas no filme são geniais demonstrando a sabedoria popular dentro de tamanha humildade. É o que temos de melhor sendo exportado para ser uma espécie de escravo do novo milênio. Lá fora as comunidades estrangeiras funcionam como verdadeiros consulados e às vezes até muito mais precisos e funcionais com os que lá estão do que o oficial. Fora de nossa pátria nos sentimos mais carentes e portanto nos abraçamos mais, uns ajudando os outros, como verdadeiros irmãos filhos de uma mãe não muito gentil que insiste em descansar num berço explendido enquanto a casa rui. Mas nestas comunidades nem todos são confiáveis e muito menos lutam por uma vida melhor lá e cá. A estirpe do mal caráter rompe fronteiras e infelizmente tem o passaporte carimbado em qualquer alfândega, pois ainda não criaram o raio X de alma. Portanto é difícil saber num mundo globalizado e quase que homogêneo quem de fato é bom, quem de fato é mal desde que a onda terrorista pós-onze de setembro assim como um Tsunami inundou a razão e a inteligência de órgãos governamentais criados para conter tal atividade ilícita e hedionda e não equiparar-se a tal como foi feito pela polícia da Inglaterra, quando o assunto é crueldade, preconceito e intolerância. Jean foi covardemente derrubado na mesma proporção que as torres gêmeas e os milhares de vítimas nos EUA com esta tragédia se equivalem aos milhares (ou milhões) de estrangeiros pelo mundo afora que se sentiram derrubados com tamanha tragédia e covardia. Se a intenção era conter o terrorismo, a polícia da Inglaterra conseguiu o inverso causando ela mesma um terror na mente de seus estrangeiros que viverão com a eterna dúvida mortal de serem fuzilados por engano, afinal qualquer um pode ser confundido com um terrorista, ainda mais quando este terror não tem rosto e muito menos pátria definida. Nosso povo pode até ser um pouco malandro, como Jean era na Inglaterra, mas um malandro do bem. Bom coração, boa pessoa, que perdido no meio de tanta injustiça social tenta se virar e sobreviver, mas não temos nem de longe fama de assassinos psicopatas e muito menos terroristas. Não temos vocação para este tipo de coisa e nem uma causa “justa” para lutarmos com tamanha ferocidade. Deus é brasileiro, mas abençoa o mundo todo. Nosso Cristo recebe todos os povos de braços abertos, sejam franceses, ingleses, iraquianos, não importa. A maior prova para o mundo de que não temos vocação para terroristas é ver nosso Congresso Nacional intacto. A única bomba que insistimos em detonar, caros amigos ingleses, em atos suicidas, ainda se chama URNA e seu detonador é o VOTO. Até quando seremos eternos terroristas de nós mesmos?

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O Rei está morto?



O Pop - que já andava mal das pernas literalmente falando - se cala de vez com a morte de seu rei: Michael Jackson. Pra quem que, assim como eu, foi súdito de tão nobre astro desde a década de 80 - quando este menino magrelo, ainda negro na época, revolucionou a música no mundo e inventou o mercado do vídeo-clipe com a maior obra prima do segmento, insuperável até hoje, Thriller - sabe o que este texto escrito as lágrimas e de última hora (faltando menos de meia hora pra fechar a coluna, soube da notícia) possa representar.
Confesso aos meus sete leitores que em 82, quando Thriller - que até hoje é o álbum mais vendido do planeta e agora com a morte do astro as vendas no mínimo triplicarão – era sucesso absoluto, este pobre colunista ganhava seus primeiros aplausos imitando mr. Jackson em festinhas e até na TV no extinto programa “Barros de Alencar”.
Confesso ter recebido a notícia como quem recebe um soco do Mike Tyson, pois sou fã e grande admirador deste artista mais do que completo. Michael foi a figura mais controversa do show business, sem dúvida alguma, mas todos seus escândalos – que não foram poucos – jamais superarão a sua qualidade artística e legado que deixará para a eternidade. Jackson foi um artista único, ímpar, absurdamente original e que deixou uma influência inestimável para a música mundial.
Quando o assunto for talento performático e musical, ninguém chegará aos pés de Michael, mesmo estes ágeis pés insistindo em irem para trás como se fossem para frente assim como a carreira e a vida transtornada deste ser iluminado por holofotes, flashs, olhares, mas, acima de tudo, por uma luz própria que só os gênios possuem, criando o estilo Jackson que já está cravado na história da arte e, por que não, na história do mundo, afinal Michael se tornou um ícone imortal como Beethoven, Mozart e Elvis Presley.
O ídolo deixa órfãos milhões de fãs e admiradores que, assim como eu, vão rever todos seus clipes, ouvir seus discos - desde os tempos da Motown, passando pelo mágico “Off The Wall” e claro Thriller -, imitar suas coreografias e trejeitos e chegar a conclusão que talvez já estivéssemos órfãos deste Michael desde a turnê do disco "Dangerous", quando Michael já branco e absolutamente transtornado já começa a se tornar tão repulsivo visualmente quanto seu personagem em Thriller e com uma vocação bizarra para criar escândalos maior do que seu talento para criar coreografias.
A cada nova plástica parece que Michael perdia não só um pedaço de seu corpo, mas sim um pedaço de sua alma. A cada mudança de cor era como se o talento musical se dissolvesse transformando em cinzas o que um dia foi preto e se tornou branco. Seria toda esta confusão mental resíduos de uma infância roubada? Seria Michael ainda um menino de sete anos de idade mega dotado e que foi impedido de crescer? Não seria Michael o verdadeiro retrato da síndrome de Peter Pan em estágio avançado? Todas acusações contra ele, que nunca foram comprovadas, não seriam de fato prova maior de sua ingenuidade infantil? O Deus do Pop não seria um mortal idiota na vida real? O dono de tantos bens não seria na verdade apenas um único bem na mão de tantos donos?
Afinal Jackson era meu, era seu, era do vizinho, era de seus advogados, era dos seus agentes, companheiros de palco, era de sua família, era de todo mundo menos de si mesmo. O entertainer insuperável, o excelente cantor, o exímio bailarino criativo, o talentoso compositor que mesclava ritmo, melodia e imagem para criar e promover sua obra e o disco mais bem vendido de todos os tempos e ainda mudar a história da música não passava de uma luva branca coberta de lantejoulas que passava de mão em mão.
Michael deixou uma lacuna irrecuperável no show business mundial, mas nunca deixará esta mesma lacuna na mídia porque, mesmo morto artisticamente há alguns anos, ainda vinha alimentando jornais e revistas com fofocas bizarras e agora, quando se preparava para a ressurreição artística do bom e velho Michael, ironicamente o destino lhe prega uma peça e Michael real morre deixando o retorno do ícone à sombra de um passado distante, mas que ainda suprirá por longos anos a triste e vazia indústria da fofoca que criará novas teorias conspiratórias sobre o artista que, assim como Elvis, mesmo morto jamais poderá ter o descanso eterno, pois aos deuses não pertence este luxo. É o preço de tamanha divindade.
Triste mês de junho para o mundo, mas excelente mês para a mídia que já anunciará em breve que em mês de festas juninas Mr. Jackson morre engasgado com um pé de moleque ou que os anjinhos barrocos no céu terão suas auréolas corrompidas e por aí afora. Inúmeras Billie Jeans vestidas de negro aparecerão se proclamando legítimas viúvas enquanto os paparazzis farão campana na porta da casa de Macaulay Culkin, que seria a verdadeira viúva de Michael para a indústria da fofoca. É, Culkin, acredite que desta vez não vão “esquecer você”.
Entre tantas piadas e conspirações sobre a verdade sobre Michael Jackson nós, pobres mortais fiéis de sua obra, só torceríamos para que Michael revolucionasse não só a indústria do entretenimento, mas sim a vida na forma que conhecemos e nos surpreendesse com seu funeral quando os irmãos Jackson - ao carregarem o seu caixão -seguissem o cortejo fazendo o passo MoonWalker, nos enganando que iam para a cova quando na verdade o trariam de volta ao palco mais próximo, de onde Jackson sairia de seu ataúde, daria a tradicional voltinha em torno de si mesmo, seguida por seu grito e sairia dançando até se dissolver no ar como pó de estrelas e só ouvíssemos ao fundo a risada de Vincent Price nos provando de que tudo não passa de uma grande brincadeira e ele, Michael, uma eterna criança perdida, permanecerá viva para sempre nos palcos de nossa eterna mente brilhante como a luva de um astro que se recusa a dizer adeus.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O pecado mora em Marilyn Monroe



Desde que o homem é homem, o esporte mais popular e mais praticado do mundo é o sexo. Mas, assim como o segundo maior esporte do mundo, que é o futebol, dificilmente você vê um jogo “fair play”, já que se cometem tantas faltas durante a partida do jogo e no sexo, onde neste caso, a falta grave com direito a pênalti sem goleiro é a traição.
Como sempre, o cinema - o pano de fundo destas crônicas - trabalhou bem este assunto que só não é preferência mundial pro traído, mas que traz uma satisfação de poder e glória ao traidor. Filmes como Atração Fatal e Dama de Vermelho, entre inúmeros outros exemplos, abordaram o assunto de uma forma complexa. De um lado o risco físico e o perigo real de brincar com sentimentos alheios e, de outro, o prazer do segredo e do desejo em trair sem consumar o fato, tornando o sórdido numa fantasia, por que não, romântica de um desejo platônico.
Fora das telas, na nossa vida real (ou surreal?) o ato que mais denuncia nossa traição é o sexo oral. Será que é chamado assim exatamente pelo que fala e pelo que grita? Bill Clinton quase destruiu o mundo por causa de um blowjobzinho, Hugh Grant acabou com um casamento bacana e quase destrói a carreira em cima de papéis de bom moço também por uma simples felaçãozinha e quantos casamentos, romances, elos de confiança mútua que se quebram, entre outras tristezas, se perdem num simples boquetezinho discreto escondido dentro de um carro em movimento. Será que alguém vai ver? Não, ninguém vai saber, mas aí o oral ora e ora alto e o mundo descobre e mais uma relação de confiança é destruída “oralmente”.
Mas de volta ao cinema (com ou sem sexo oral na sala) que é o nosso tema, um filme clássico sobre o tema traição é O PECADO MORA AO LADO, que tem o nome original em inglês de “coceira dos sete anos”, baseada numa tese psicanalítica que, após sete anos juntos, o homem (hoje em dia a mulher se inclui e talvez em até menos de sete anos) sente um desejo incontrolável em trair. Como o próprio filme do gênio Billy Wilder retrata na primeira cena: somos apenas 100 índios xucros indo atrás de uma indiazinha gostosa. Mais animalesco nossos desejos ainda são se esta indiazinha séculos depois se transformar na loira mais provocante do mundo, a estonteante Marilyn Monroe.
No filme, o caricato ator Tom Ewell vive um típico novaiorquino pai de família que, após ficar livre em casa com sua mulher e filho numa viagem longe dali, sente a tal coceira dos sete anos e um desejo desenfreado de ter uma aventura extraconjugal, até tenta se conter, quando ninguém menos que Marilyn Monroe bate à sua porta como a nova vizinha. O filme é inocente, claro, pela época em questão e tem bons momentos cômicos. Uma história bacana que revelou a imagem mais emblemática da loira: a cena do metrô onde sua saia levanta revelando suas lindas pernas.
Diga-se de passagem numa época bem mais sedutora, onde melancias e bailarinas axé/funk não existiam; portanto, isto era o auge do erotismo. Mas a questão filosófica de tudo isto é: será que quem trai no fundo sai menos ferido de quem foi traído? Onde de fato se encontra este desejo incontido nosso em enganar e mentir apenas por prazer? Sexo é para mim uma das coisas mais maravilhosas desta vida, depois do palco, claro, se bem que sexo no palco ou nas coxias é melhor ainda, mas isto é outra história. O fato é que sexo pode ser a cura, mas também a doença. Prova maior disto são os casamentos e relações destruídas por um ato impensado de sexo. Indo mais além ainda, a vida do desejado pode se afundar em cima deste forte desejo.
O mundo não conheceu duas pessoas tão desejadas sexualmente como Elvis Presley e Marilyn Monroe e, o que para muitos seria a vida perfeita, provou-se o contrário, pois ambos tiveram suas vidas interrompidas precocemente pela tragédia. Elvis, com todas as mulheres do mundo, morreu só, depressivo e loucamente apaixonado por uma pessoa. Marilyn seria personagem digna de uma novela mexicana. O pai, a pobre loira nunca conheceu. Sua avó morreu louca. Sua mãe era esquizofrênica e passou a vida inteira trancafiada num sanatório. Sendo assim a jovem Marilyn foi criada em orfanatos sendo estuprada na infância. Quando já adulta não conseguia emprego, passou fome e aceitou posar nua por apenas 50 dólares, para pelo menos bancar um supermercado. Seus irmãos (Robert, que morreu precocemente e Berniece, que se tornou uma de suas melhores amigas) foram raptados na infância pelo pai.
Casou e estava feliz. Havia encontrado o amor, porém o brilho das luzes e a vontade em ser centro das atenções a chamou de volta ao inferno. Largou o marido, ficou famosa e, com o sucesso, se casou com o astro do beisebol Joe DiMaggio, relação que não durou mais de um ano. Ela nunca conseguiu ser mãe e passou por dois abortos, além de nunca estar satisfeita com sua carreira. Já cansada de ser a ‘loira burra’ nos filmes, foi estudar com o mestre da atuação Mr. Strasberg e se casou com um intelectual, Arthur Miller. Claro, também não deu certo. Marilyn se afundou mais e mais em bebida e remédios. Por fim, se envolveu com o homem mais poderoso do mundo, o presidente dos EUA, John F. Kennedy, que não correspondia ao amor da loira e só a tratava como um mero objeto de desejo. Seu irmão Bobby usou o mesmo artifício e a loira ficou mais maluca ainda. É a prova de que todo mundo sangra. Mesmo os deuses e as musas. Todos têm problemas afetivos e sexuais, e até um ícone sexual como Monroe sofreu as consequências de escolhas mal resolvidas. Por isto, em matéria de amor, a fidelidade ainda é a solução para se manter feliz. A diversidade deve estar entre duas e não mais pessoas. Já no sexo com traição, meus caros, as aparências sempre enganam, porque o maior prazer – repito – ainda é amar e ser amado. Mas já que ninguém é de ferro, então em caso de traição inevitável por desejos irrefreáveis, o segredo é agir com cautela. Afinal, ser fiel é ser discreto! E Marilyn, assim como suas irmãs de sedução ao longo dos tempos, foi traída pela vida por não ser nada discreta consigo mesma.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Anjos ou demônios na arte de contar uma bela história



Assim como seu antecessor, O Código Da Vinci, o filme Anjos & Demônios teve novamente como força motriz de divulgação a tentativa de criar mais uma polêmica contra a Igreja Católica, que desta vez não deu a mínima atenção ao fato, até mesmo porque sinceramente não há polêmica alguma a não ser a que eu levanto agora sem a benção do Papa e nem do padre Marcelo: um bom livro se torna um bom filme?
Que literatura e cinema são formas de arte distintas e que possuem uma linguagem própria já sabemos. Basta analisarmos o fato de que nos livros a dimensão da história é outra e a percepção da mesma pela nossa ótica de leitor se renova sempre a cada leitura e a cada momento de vida em que estamos passando.Você pode ler e reler, até no mesmo dia, que os mesmos parágrafos podem ser compreendidos de outra maneira e a imagem na sua mente é completamente modificada como num caleidoscópio.
O leque de cenários, de tipos físicos, de cores e de emoções é muito mais brando do que no cinema onde alguém - geralmente o roteirista e depois o diretor - apresenta o formato que fora absorvido por ele (s) em cima de tal obra e o leitor - agora espectador - assiste a tudo por outros olhos que não mais os seus e, sim, o olhar da câmera que o levará para onde o diretor quiser levá-lo e construir toda sua emoção em cima desta nova visão.
Você não está mais apto a contribuir à história, pois a sua imaginação foi simplesmente freada e substituída pela imaginação de quem fez o filme. Seria como você ver um quadro, porém nele as nuvens se movem, as luzes acendem e apagam, tem música na tela, as figuras andam, gritam, choram, morrem, matam, e o que antes era estático e tomava forma apenas em sua imaginação hoje em movimento lhe vem como fast food para seu entretenimento. Muitas vezes um alimento nutritivo, de fato, mas em outras, puro e simplesmente um chiclete para os seus olhos.
Os símbolos utilizados no cinema numa adaptação literária dão crédito ao mito de que uma imagem vale mais que mil palavras. Talvez a afirmação até seja real quando o assunto é paisagem, cenários ou a ideia de se vender ou desejo de se consumir algo. Mas quando o assunto é a psique humana e sua gama rica de sentimentos, nada mais elucidativo que a narrativa do autor da obra (livro) que nos guia para uma viagem aos labirintos significativos dentro da alma de suas personagens.
Claro que a obra de Dan Brown, em questão, não tem esta envergadura e não deixa de ser puro entretenimento, porém o livro diverte e elucida muito mais do que o filme que se tornou confuso, extremamente verborrágico e claro, como resultado disto, enfadonho. Não subestimando Tom Hanks que é um grande ator, eu não o vejo como Robert Langdon – protagonista da trama - em hipótese alguma e talvez por isto o descrédito do filme. Interessante que o próprio autor quando dá características físicas ao seu personagem, o compara com Harrison Ford, que evidentemente não deve ter topado a empreitada.
Uma pena, pois faria bem melhor que Hanks e um blockbuster deste porte poderia salvar a carreira pós o vexame de Indiana 4. Aliás, quanto a esta questão de phisic de role (perfil físico) de personagens, na obra de Puzzo - o livro “Poderoso Chefão” - Michael Corleone é loiro, alto e forte e Pacino mesmo sem nenhuma destas qualidades conseguiu convencer os leitores de que o autor poderia ter se equivocado nas características, pois não se imagina um Michael Corleone sem ser Pacino, o que é uma exceção da regra, que transcende até a imaginação do autor.
Claro que para imaginarmos cenas e personagens, tanto o autor ou nós, leitores, temos de pensar e muita gente acha isto um tanto quanto cansativo. Absorvem arte apenas se ela vier por uma tela. Isso encoraja à preguiça. Preguiça que eu confesso ter tido - mesmo sendo um leitor assíduo viciado em livros e rato de biblioteca assumido – e ter escolhido o cinema para conhecer grandes obras como Guerra e Paz, o Conde de Monte Cristo, Madame Bovary, o Homem que Ri, entre outros clássicos que ainda lerei, mas que num momento preferi assisti-los, já ciente de toda carga diminuta que traria à obra. Foi mais matemático que preguiçoso, pois o tempo que levaria para ler a obra de Tolstoi, eu li a obra completa de John Fante, por exemplo. A leitura de um bom livro é um diálogo incessante: o livro fala e a nossa alma responde.
Sinceramente meus caros sete leitores torço para que consigam assistir grandes obras no cinema e lerem no mínimo um clássico por mês, pois além de enriquecer sua cultura e vocabulário, a leitura engrandece a alma e ainda é um ótimo passatempo e inimiga do tédio que vem ao mundo pelo caminho que a preguiça abre. O livro nos traz sempre a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado. Que as pessoas em seu caminho não tenham preguiça para desbravá-lo ou descobri-lo em sua essência, assim como a um bom livro.
Você pode ser uma obra complexa, rica, infestada de manifestações e acima de tudo repleta de emoções. Talvez o mundo queira condensá-lo a uma visão mais rápida e simples do que você realmente seja, para que você possa vir a ser absorvido por muitos, assim como transformam uma obra literária e complexa num filme simples e rápido.
Cuidado para não se deixar ser adaptado para um universo que não seja o seu e regido por uma visão que também não seja a sua. Seja macro como um grande clássico e não permita que uma simples adaptação reduzida e editada do que você de fato é o transforme para o mundo num anjo ou em um demônio.