quarta-feira, 23 de março de 2011

QUEM TEM MEDO DE ELIZABETH TAYLOR?



Hollywood amanheceu triste com a notícia da morte de uma de suas maiores divas, Elizabeth Taylor. O que falar sobre esta mulher de valor incalculável para a história do cinema? Uma atriz com seis décadas de carreira já é quase extra-terrestre nestes dias onde tudo é tão instantâneo e descartável. Liz começou sua carreira ainda criança, com apenas dez anos de idade e nunca mais parou. Conviveu com holofotes e imprensa assim como convivemos com vizinhos e aquela tia solteirona e chata que insiste em nos visitar, com o diferencial de que Liz Taylor sabia driblar a situação com categoria. Por suas atuações foi indicada cinco vezes ao Oscar e levou duas delas, uma por Disque Butterfield 8 e outra por Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, onde atuou ao lado de seu marido Richard Burton e que muitos diziam que o filme era praticamente a vida particular do casal, já que brigavam na mesma intensidade e proporção tal qual na trama adaptada da peça de Edward Albee. Liz e Burton foram praticamente as primeiras iscas do que viria a se tornar a indústria da fofoca. Era o casal mais famoso do mundo e mais vigiado por lentes e jornalistas do que Britney Spears, Lindsay Lohan e Amy Winehouse juntas fazendo uma orgia. Para se ter uma idéia, quando Burton fazia Hamlet na Broadway a Times Square ficava congestionada de pessoas, só para ver o casal, já que Taylor sempre o acompanhava da platéia. Burton foi o marido de número cinco e de número seis (pois casaram-se, divorciaram-se e se casaram de novo) dos oito casamentos da estrela e se conheceram durante as filmagens de Cleópatra. Como Burton era casado e Liz também, a atriz levou a fama de destruidora de lares, mas o fato é que a paixão entre ambos foi avassaladora e Liz até o fim de sua vida afirmava que Burton - escorpiano nascido no mesmo dia que eu
- foi o homem de sua vida. Casamentos e confusões à parte, a atriz sempre rebateu com muita inteligência suas críticas. Quando lhe perguntaram porque tantos casamentos ela respondia que só havia ido para a cama com homens com quem foi casada. Quantas mulheres poderiam dizer isso? Ou melhor quantas podem dizer isto hoje? Liz tinha uma força vital invejável, pois durante sua vida foi acometida por um número infinito de problemas de saúde e chegou a desafiar a morte em vários deles, e vencê-la. Sua vontade de viver sempre foi mais forte do que a força de qualquer um de seus personagens. Ela afirmava que não importavam as circunstâncias nas quais somos colocados, mas sim o espírito com o qual as enfrentavamos. Prova clara disto foi o apoio da atriz à causas humanitárias, em especial às vitimas do HIV, onde bem antes de efeitos e métodos de prevenção se tornarem públicos, ela já apoiava o amigo Rock Hudson – umas das primeiras vítimas famosas – sem sequer se preocupar com o contágio – pois ninguém tinha informação plena do assunto – , dando calor humano e segurança ao eterno amigo. Montou uma fundação em prol das vítimas e aceitou até participar de filmes, de gosto duvidoso, como por exemplo, Os Flinstones, apenas para ajudar a causa, já que a bilheteria da estréia iria pra fundação. Além de fazer fortuna com suas atuações, também se mostrou grande empresária ao criar uma linha de perfumes, sendo um deles um dos cinco mais vendidos no mundo e foi a primeira atriz a ganhar um cachê milionário – um milhão de dólares por Cleópatra - dando margem para o que hoje os atores usam e abusam, vide Charlie Sheen e seus ataques egocêntricos. Mas apesar de todo sucesso e toda riqueza, os problemas constantes de saúde e a morte de pessoas importantes como Burton, Hudson e de seus pais, fez com que a atriz se viciasse em analgésicos, levando a se internar-se numa rehab, onde conheceu um carpinteiro alcólatra que viria a ser o seu sétimo e último marido, provando que a bela não tinha de fato preconceito algum com nenhuma espécie de ser humano. Uma rara personalidade que tinha humildade e acima de tudo sabia usar sua gigantesca fama em prol da humanidade, sabendo jogar com a imprensa em favor de quem precisa, como quando negociou fotos de seu casamento doando toda renda para fundação no combate à aids. Melhor amiga do astro Michael Jackson a polêmica atriz se recusou a participar do velório-show do artista alegando não ter vocação para participar de um circo daqueles. Foi-se em paz aos 79 anos a dona do olhar mais emblemático da história do cinema. Choram as câmeras, suas eternas viúvas, pois nunca outra atriz teve tão forte relação com as lentes do que Liz Taylor, atriz que assim como seu amigo Michael, viveu e morreu com alma de criança.


quinta-feira, 17 de março de 2011

Não fumava, não bebia, não cheirava e mentia só um pouquinho. Saudade de Tim Maia, nosso síndico!



Penúltimo filho de uma família de 19 irmãos, Sebastião Rodrigues Maia, nosso saudoso Tim Maia, desde a infância já dava traços de que viria pra confundir e não para explicar. Ainda menino, saia para vender as marmitas feitas pela mãe para sustentar a gigantesca família, mas as comia no caminho e depois ainda ia jogar futebol, de onde talvez tenha saído a idéia de um de seus clássicos, a canção “Sossego”, que aliás foi executada pela
banda Guns and Roses em visita pelo Brasil, para homenageá-lo. Dono de uma voz grave e com um swing inconfundível fundou sua primeira banda com ninguém menos que o Rei Roberto Carlos, que na época ainda era plebeu. Amigo de infância também de Erasmo Carlos e de Jorge Ben Jor, arriscou-se indo pros EUA tentar a vida como músico, mas foi deportado por envolvimento com roubo e posse de drogas, iniciando assim a formação acadêmica do polêmico Tim Maia, que apesar de colecionar sucessos, tinha uma galeria enorme também de confusões, processos judiciais e desafetos. Tim bateu de frente com astros da MPB, se desentendeu com a maioria dos músicos que lhe acompanharam, comprou briga com a Rede Globo, acarretando sua proibição em qualquer programa da emissora, se envolveu com drogas novamente, propagou uma religião psicodélica absurda que depois se arrependeu, faltou a inúmeros compromissos, criando assim até um plus em seus shows, que era a surpresa de sua presença, já que nem ele e nem ninguém mais sabia quando ele apareceria no show. Enfim, nosso Tim tem uma biografia de fazer inveja a qualquer astro polêmico do rock, que aliás Nelson Mota registrou muito bem na divertida biografia do cantor, que em breve salta para as telonas. Tim lançou seu primeiro album na década de 70, e já trazia na bagagem "Azul da cor do mar" e "Primavera", duas pérolas. Daí por diante o rei do swing e do soul no Brasil colecionou sucessos e claro, como consequência, diversas regravações de suas músicas por estrelas da MPB. Foi também um dos primeiros artistas independentes no país, afinal como ele mesmo dizia, agora só teria que brigar com ele mesmo e mais ninguém. Difícil saber quem venceria esta disputa acirrada. Uma pena que de certa forma sua vida regada a som e fúria, criou uma cortina de fumaça sobre sua arte. Tim foi um dos maiores gênios da MPB. Produtor, compositor, excelente cantor, mas acima de tudo um contestador, uma figura polêmica e convenhamos divertida, que faz muita falta neste cenário atual tão pobre de música quanto de personalidade. Tudo é calmo e sereno e todos se amam nesta época chata e hipócrita do politicamente correto. Vivemos numa tela de descanso do Windows esperando apenas os Teletubbies descerem do morro ensolarado gritando de felicidade. Aliás, creio que estou vendo-os! Ah não, é apenas a banda Restart! Enfim, há 13 anos atrás, como que numa ironia do destino, o homem que faltava aos shows, por pouco não morre no palco, tal qual Cacilda Becker. Durante a gravação de um espetáculo para a TV no Teatro Municipal de Niterói, Tim compareceu, mesmo sabendo de sua má condição de saúde. Passou mal e teve de se retirar logo no início, sendo levado para o hospital numa ambulância, vindo a falecer dias depois aos 55 anos. A voz grave e rouca se calava. Suas frases polêmicas e divertidas se apagavam, mas sua essência permanece no coração de quem aprendeu a respeitar música e acima de tudo personalidade, qualidade (ou defeito) que anda em extinção neste triste país. Ah! Se o mundo inteiro lhe pudesse ouvir, Tim. Tudo o que nos contou e o que aprendeu, afinal na vida a gente só têm que entender que um nasceu pra sofrer enquanto o outro nasceu para rir, não é? Que falta faz um sindico para por ordem (ou desordem) na casa!

quarta-feira, 16 de março de 2011

99 NÃO É 100



O planeta vive um momento delicado em função da inversão térmica causada por um péssimo inquilino da Terra: nós, seres humanos. Por outro lado também sofremos em função de outra inversão tão grave quanto: a inversão de valores. Ruy Barbosa já dizia que de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o homem chega a rir-se da honra, desanimar-se de justiça e ter vergonha de ser honesto. E eu acho que o nosso Águia de Haia infelizmente estava com a razão, pois num mundo onde banqueiros destroem populações com uma ferocidade maior que a de um tsunami e são tratados como deuses, algo está errado. Num certo país então, bandidos corruptos, com sua “ficha limpa” comprada, se dizem mais limpos e íntegros que qualquer cidadão honesto e trabalhador; um deputado semi analfabeto preside a comissão de educação e o chefe nefasto da quadrilha do mensalão, preside a comissão de justiça. O que se esperar de uma terra assim? Até a cantora delicada, simpática e de índole casta, resolveu virar devassa só para não se sentir diferente e fazer parte do grupo de “elite”. Seria o “efeito Ruy” da vergonha de ser, digamos, normal? O cinema brasileiro que não podia ficar de fora desta inversão também levou milhões de pessoas a ver um filme (aliás péssimo) sobre uma prostituta consumista e viciada (na época do diário como a mesma descreve) enquanto de outro lado um filme que fala de valores morais e acima de tudo dignidade humana é desprezado. Detalhe: concorreu ao Oscar este ano e sequer 99% da população soube de sua existência. O filme a que me refiro é “Lixo Extraordinário”, um documentário fabuloso sobre um projeto do nosso artista plástico Vik Muniz (respeitado no mundo inteiro, mas aqui...quem é ele mesmo?) junto aos catadores de matérias recicláveis do Jardim Gramacho, um dos lugares mais miseráveis do Brasil. Neste lixão horroroso onde grande parte do lixo do RJ desemboca, estas pessoas fazem o trabalho (ecológico e econômico) de separar o lixo do material reciclável. Uma metáfora interessante esta, já que o próprio Vik escolheu trabalhar com gente reciclável, que só precisa de uma chance para se transformar, ao invés de investir em lixo, como muito tem se feito em nosso país ao retratarem vida de traficantes, políticos e outras peças que não se reciclam e só visam poder. Neste belo e emocionante filme o artista em conjunto com alguns catadores selecionados por ele elabora fotos que se transformam em arte feita de lixo numa proporção inversa à da nossa TV que costuma nos empurrar qualquer forma de lixo como se arte fosse. A vida destes moradores se transforma e o emocionante é você testemunhar nos depoimentos os reais valores ali gritantes onde por exemplo, uma das moças catadoras de lixo se orgulha de tal profissão digna ao invés de se prostituir, vender seu corpo a troco de vil metal. O líder do grupo, Tião, é outro exemplo, pois divaga Maquiavel, Nietzsche, e até a obra Marat Sade de Peter Weiss, conhecimento adquirido de livros que resgata do lixão, enquanto estudantes de classe média alta, mal sabem escrever uma carta e pensam que Rimbaud é um dos personagens criados por Stallone. As histórias destas pessoas demonstram afeto, amor, fraternidade entre si e tornam o filme em uma lição de amor e de altruísmo, palavra tão rara nos dias de hoje, onde o Ter prevalece sobre o Ser. Será que o verdadeiro lixo não está dentro das mansões fechadas com muros e portões altos? Será que o lixo que mais fede, mais contamina, não é o lixo oriundo da pobreza moral e cultural que assola nosso país? Ainda creio que ser um homem de valor ainda valha mais que ser um homem de sucesso, pois nem todos nos dias de hoje podem ter um curso superior e um bom emprego, mas podem ter respeito, alta escala de valores e um espírito justo que são a verdadeira riqueza de qualquer pessoa. Deus está se tornando imunidade diplomática. A pessoa mente, mas crê em Deus, trai, mas é temente a Deus, engana, mas lê a palavra de Deus, sem saber que Deus pouco se importa para o que você lê sobre Ele e sim para o que você OUVE Dele. O que você faz de bom deve ser um segredo entre Ele e você, então pare e pense se de fato vocês tem mantido bons segredos? Você tem dividido tanto quanto tem mutiplicado? Quantas vezes tem ajudado alguém? Se importado com alguém? Estendido sua mão para levantar alguém? Devíamos amar as pessoas e usar as coisas, mas estamos amando as coisas e usando as pessoas. Nesta inversão, nos tornamos lixo e nem um pouco extraordinário, não é mesmo?

quinta-feira, 10 de março de 2011

E NESTE CARNAVAL QUEM DIRIA, O AMOR VENCEU!




Não sou adepto da folia de carnaval e nem tão pouco alucinado pelos desfiles. Confesso que tiro estes dias para por minha leitura em dia ou para aumentar a cultura cinematográfica, alimentando meu vício por cinema, minha eterna igreja. Porém, como todo jornalista, não me alieno, e claro me informo e para minha surpresa creio ter perdido um dos maiores e melhores episódios desta festa já que RJ e SP provaram que diferente da Bahia (quem assiste aos trios sabe do que estou falando), a música finalmente venceu. A Beija Flor do RJ homenageou o Rei Roberto Carlos e em SP, a Vai-Vai do saudoso Itamar Assumpção, fez um desfile para ilustrar a bela biografia do maestro João Carlos Martins. Ambas levaram o título de campeãs provando que o povo (já que a festa insiste em se dizer popular) também aprova coisa boa e não se aliena atrás apenas de batuques repetidos regidos por letras feitas apenas com vogais vociferadas por acéfalos marombados em trajes ridículos que visam uma única coisa: seu dinheiro. Para nossa sorte, o país que promete mudanças, de fato começou bem demonstrando que o povo quer sim comida, diversão e porque não ballet? Os sambódromos transformaram a vida de dois ícones da nossa cultura em um espetáculo de poesia e arte. Roberto que dispensa apresentações, leva merecidamente o título de rei bem longe de ser substituído, já que nossa linha de produção está em alta com bobos da corte. Não há vestígio de compositor tão grandioso como o rei quando o assunto é amor. Em contrapartida, o maestro João Carlos Martins fez de sua vida uma verdadeira história de amor, pondo em prática as sábias palavras de Erasmo de Rotterdam que profetizava que o amor ensina música. O gênio surrealista Salvador Dali ao assistir uma apresentação do maestro nos anos 60 recomendou ao mesmo: “Diga a todos que você é o maior intérprete de Bach, algum dia vão acreditar. Faz muitos anos que digo ser o maior pintor do mundo e já há gente que acredita.” E ele o fez e hoje o mundo não só acredita como concorda que ele é o maior. Como se não bastasse, este homem-mito nos dá uma lição de vida com uma dedicação tão intensa e meritória sobre seu amor à música, atravessando desafios tão difíceis que fariam com que muitos jogassem a toalha no primeiro round, mas o maestro é feito
do material que são criados os heróis e sua força está acima da lógica e da razão, pois é um ato de fé, e esta nem mesmo os cientistas conseguiram desvendar o seu poder. Há tempos atrás, em uma partida de futebol, João teve um nervo rompido e perdeu o movimento da mão direita, adquirindo uma doença rara que causa o estressamento de nervos e em função disto ficara impossibilitado de tocar. Vendeu todos pianos que tinha em casa e foi ser treinador de boxe, mas com sua inigualável humildade aprendeu com os lutadores do ringue a lutar na vida e com coragem e uma devoção musical surreal criou um estilo único de tocar apenas com a mão esquerda e obteve extremo sucesso com tal atitude. Mas a vida não deu mole a João
e o golpeou novamente, desta vez num concerto na Bulgária, onde agredido, vítima de um assalto, perde parte do movimento de mãos novamente, em especial a esquerda. Qualquer um desistiria, mas como quem desiste não existe e João não só existe como brilha, depois de anos de tratamento conseguiu novamente criar uma técnica que com os poucos dedos que podia em cada mão, tocava peças de Bach com estilo e maestria, mesmo com toda dificuldade. Em um sonho, o finado maestro Eleazar de Carvalho ensinou-lhe a reger e a partir daí João decidiu se tornar maestro, e mesmo incapaz de segurar a batuta ou virar as páginas das partituras dos concertos, exímio lutador que sempre foi, faz um trabalho minucioso de memorizar nota por nota, demonstrando ainda mais seu perfeccionismo e dedicação ao mundo da música. Este patrimônio nacional e maior prova de força, coragem, talento e acima de tudo humildade (palavra tão escassa em nosso mundinho de artes) representa nosso país mundo afora em turnês lotadas onde sempre é ovacionado. Há tempos atrás conseguiu fazer Jô Soares chorar em seu programa, completamente emocionado ao ouvir o maestro tocar Eu Sei Que Vou Te Amar, como se declamasse nota por nota de seu piano as frases do poeta Vinicius à sua amante, a música. O maestro já mencionou publicamente o privilégio que sente em poder tocar com seu polegar, valorizando cada nota. João, privilégio tem cada nota, de ser tocada por você! Privilégio temos nós em saber que entre tantos canalhas na política, estrelas sem talento mas repletos de arrogância, o vazio
de mulheres frutas e a tristeza de gente escanadalosa e fútil berrando sua pobreza moral na TV, temos você para com o som puro de seu piano nos acalentar a alma e com a grandeza do seu coração nos fazer crer que o Brasil tem jeito, pois com amor e fé se vence todas dificuldades impostas pela vida. Maestro João Carlos Martins, parabéns. A música de fato, venceu, mas o senhor sempre será o maior vencedor!

quarta-feira, 2 de março de 2011

O DOCE VENENO DO MARKETING


Confesso que rato de livraria que sou me senti na obrigação de ler “O Doce Veneno do Escorpião”, de Raquel Pacheco – Bruna Surfistinha - assim que fora lançado, tamanho barulho feito na imprensa.
Que me perdoe Raquel, mas não consegui ler mais do que 20 páginas. Achei vazio, pobre de prosa e acima de tudo sem graça. Gostei muito mais do “Diário de Marise” – livro também escrito por uma prostituta, porém mais abrangente e interessante. Reconheço que em matéria de marketing, Raquel e seus editores dariam baile até em nosso ex-presidente que já se consolidou como um gênio nesta arte. O fato é que como roteirista no Brasil é uma profissão pouco valorizada, acabam não se abrindo portas para a criatividade, para a aposta no o novo e então se o livro é sucesso, ótimo, vamos transformá-lo em filme,
porque já é meio caminho andado. Na teoria até seria, mas na prática não é bem assim, pois o filme “Bruna Surfistinha” lançado semana passada, conseguiu ser mais monótono e cansativo do que o livro em si, salvo Deborah Secco, como a protagonista, que está sexy, lindíssima e fazendo o que pode para segurar a bronca. A atriz, que reina no Olimpo da fama e que já se consolidou como diva das telenovelas, mostra que é competente atriz e daquelas de tirar o chapéu e neste caso até as calças. Deborah desfila nua, atua com devoção, faz caras e bocas e se entrega nas fortes cenas de sexo com uma voracidade que intimidaria a própria Surfistinha. Deborah e seus coadjuvantes Cássio Gabus Mendes
e Drica Moraes são o que há de melhor no filme, o resto, infelizmente é perfumaria. Como sempre tudo não passa de muito barulho por nada. O filme é vago, inverossímil e absolutamente cansativo. A mesma historia seria contada em 80 minutos e ainda sobrava tempo. O maratonista e diretor estreante no cinema, Marcus Baldini, acostumado a correr longas distâncias, poderia ter dirigido este ao estilo de uma “São Silvestre” com um percurso bem menor e uma dinâmica maior. Talvez pela experiência em publicidade tenha errado a mão, pois a textura do filme, sua fotografia e até grande parte das tomadas é nitidamente oriunda da publicidade. Não
tem cara de cinema, apesar de alguns críticos – poucos – terem aderido ao padrão Surfistinha, pois já vi criticas dizendo que o filme tecnicamente é bárbaro. Como assim? Eu li direito? Quanto custou este programinha? Mas vamos deixar a polêmica com Raquel, afinal ela é o centro da atenção e não este colunista. A trilha sonora impecável, acaba se tornando cansativa também pelo exagero de imagens que geram quase que diversos vídeo-clips durante a projeção. Como já é do conhecimento geral de todos, a não ser daqueles que estiveram em Marte por alguns anos, o filme é “baseado” no livro que foi “baseado” no blog que foi “baseado” na vida profissional de Raquel Pacheco, vulgo Bruna Surfistinha. Claro que o filme segue mais a linha Disney Cinderella do que a do diretor Aronofsky. Raquel é uma menina de família classe média, que se revolta com o nada e foge de casa junto de seu bichinho de pelúcia (!!!) encontrando abrigo em um bordel, onde faz fama e grana. Daí em diante inicia sua trajetória ao sucesso no mercado do sexo, ganhando uma boa grana, morando em flat de luxo, frequentando festas Vips, consumindo drogas caras e tudo que vem no pacote. O filme ocultou a passagem da moça pela industria pornô e claro alguns problemas enfrentados pela profissão, que nem de longe me parece ser um mar de rosas e uma maneira fácil de se ganhar grana, como o filme por diversas vezes sugere. O que me deixa constrangido e confesso, preocupado, apesar de ser um libertino confesso, é a apologia que o filme faz à prostituição, já que Raquel é uma prova viva de que é possível ficar rica e famosa com isto. Não precisaria ser otimista como “Uma Linda Mulher” e nem tão pouco depressivo como “Despedida em Las Vegas”, mas algo que trafegasse ao meio, já daria uma boa margem do que de fato é a prostituição. Bons documentários já mostraram que apesar do dinheiro “fácil” quase nenhuma tem muito orgulho disto. Mas Raquel pode
ter, pois esta no Brasil e aqui as prostitutas tem muitos filhos no poder como conta a velha piada. Também não me admira ela entrar para a Academia Brasileira de Letras , pois se Paulo Coelho e Sarney ocupam cadeiras lá, porque não a moça? Convenhamos que o chá da tarde ia ser bem mais divertido, pois quem viu o filme sabe do que estou falando. Aos amigos que leram o livro, por favor, caso tenha a informação, me passem o endereço daquele bordel que cobra 20 reais e tem uma Bruna com o porte da Deborah Secco, pois pretendo passar lá o carnaval e talvez só sair de lá no Natal.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

MONSTROS & HERÓIS RENOVADOS



Foi-se o tempo em que o herói usava um uniforme que mais lembrava um pijama, isto quando não se usava cueca por cima da calça. Másculo, dentes perfeitos e cabelo penteado, voava por sobre a cidade, salvando gatinhos presos em árvores e no final ganhando um beijo da mocinha.
O romantismo de outrora se foi tão rápido quanto as passadas do velho “The Flash”. Os tempos mudaram e a nossa percepção para atos de heroísmo tiveram de se adaptar. Desde a cultuada série Watchmen, vencedora de prêmios de literatura e citada como um dos 100 melhores livros de todos os tempos, o perfil do herói se modificou e demonstrou-se muito mais próximo da realidade e acima de tudo dos defeitos que qualquer ser humano, mesmo super, já trás de fábrica. Com o fim também dos vilões românticos, que só queriam dominar o mundo, surgiu uma espécie mais cruel de vilão. Daqueles que as vezes se utilizam de terno e gravata,
carregam uma valise repleta de dinheiro sujo, possuem imunidade parlamentar, mas destroem muito mais vidas que qualquer Lex Luthor sonharia em apenas dominar. Há também vilões que agem com uma frieza que faria até o Dr. Freeze do Batman se arrepiar, afinal, no tempo destes heróis e vilões não se via assassinos de crianças, não é mesmo? Em virtude desta nova leva de vilões, eis que surge o novo tipo de herói, ou anti-herói. Aquele coberto de defeitos, violento, austero, mas que você sonharia em tê-lo como amigo e jamais cruzar em seu caminho, caso sua ficha criminal não fosse digna de exemplo. No Brasil o expoente máximo deste novo tipo de herói se consolidou na figura do Capitão Nascimento, protagonista
dos filmes Tropa de Elite 1 e 2, magistralmente interpretado por Wagner Moura. Nascimento é violento, machão, impertinente, mas de boa índole e preceitos básicos (seguindo sua cartilha) honestos. Não é capaz de extorquir um centavo de alguém, mas em compensação não se intimida a cometer atos ilicitos de tortura física e mental, no melhor estilo “o fim justifica os meios”. Não demorou muito para que num país impune como o Brasil, o personagem se tornasse mito. Afinal, ninguém aguenta mais tanta hipocrisia e acima de tudo penas frouxas para criminosos da pior espécie. Assassinos, traficantes, estupradores, políticos corruptos e por aí afora, toda leva que envergonharia até os irmãos metralha, passeia livremente pelas ruas abençoado pelo habeas corpus patrocinado
pelo que se chama de justiça. Desta impunidade surge a necessidade dos vigilantes, dos heróis reais, que de alguma forma tentam limpar o planeta desta escória. Do outro lado do mundo, seguindo a mesma vibe de anti herói, surge Dexter Morgan, um serial killer, que trabalha como investigador forense da polícia de Miami e nas horas vagas usa todo seu instinto e conhecimento de assassino em série para acabar com outros serial killers, seguindo-os com pistas meticulosamente assustadoras guiado por sua mente assassina e seu “passageiro das trevas”, como consciência, que seria uma espécie de grilo falante com ares de Mr. Hyde de Louis Stevenson. A série de TV exibida pela ShowTime foi baseada na série de livros (aliás, recomendo) de Jeff Lindsay, onde Dexter é o protagonista. Claro que a riqueza de detalhes do livro sempre se supera, mas optando por seguir uma evolução distinta da literatura, o seriado não faz feio e entretem e vicia milhões de espectadores por todo o mundo. O ponto alto da série é sem dúvida o ator Michael C. Hall, premiado pela sua interpretação como o serial killer mais amado do mundo. Parece as vezes que Lindsay escreveu Dexter de encomenda para C. Hall, tamanho desempenho do jovem ator. Impossível imaginar outro na pele do psicopata. O talento dos roteiristas somado à versatilidade de Michael, dá o tempero extra às temporadas, que neste momento tem sua sexta sendo gravada. Para se ter uma idéia da desenvoltura do personagem, que aliás deu ao ator inúmeras indicações a prêmios importantes da TV, tendo conquistado grande parte deles, é raro numa série de sucesso que gira em torno de um personagem chave, este mesmo sofrer mudanças de comportamento drásticas durante as temporadas, pois é bem mais prático aos produtores, seguir com o personagem em piloto automático de emoções e garantir a audiência, mas aqui o risco é a cereja do bolo. Na primeira temporada, o espectador é apresentado ao personagem Dexter, que seguindo o “Código de Harry” – policial que o adotou aos três anos de idade e que tem seu espírito o perseguindo como um mentor -, mantém acesa a sua chama de assassino, porém eliminando apenas criminosos da pior espécie, sem dó nem piedade e ainda tendo o prazer de mostrar a face de suas vítimas antes de mandar o infeliz acertar contas no inferno. Por incrível que pareça, mesmo com esta premissa violenta e malévola é impossível não só gostar do psicopata (esta aí o Jason e Hannibal que não nos deixa mentir), mas compreendê-lo e torcer por ele, para que de fato aniquile suas vítimas. E pior, você chega até a vibrar com isto. Quer dizer, será que seu passageiro das trevas está se revelando? Na segunda temporada, Dexter, elemento frio, que como um andróide tenta se passar por humano, usando como disfarce uma namorada com dois filhos pequenos, alguns amigos no D. P. e um carinho acolhedor pela irmã policial e ninfomaníaca. Mas talvez vestindo demais a carapuça de humano, pega gosto pela coisa e arruma uma amante, ao mesmo tempo em que está na berlinda para ser descoberto e claro, com o risco de ser condenado à pena de morte pelo estado, que ele mesmo atua em favor. Na terceira temporada, descobre um parceiro de crimes e que de certa forma o ajuda a entender um pouco o processo de leis que invariavelmente acabam facilitando a vida de criminosos. Já na quarta, Dexter tem um filho, além dos dois enteados, e a vida do psicopata parece se complicar mais, pois além do amor cada vez mais penetrando em sua medula, agora vêm a falta de tempo para seus passeios noturnos. Para completar, Dexter encontra com seu pior antagonista (excepcional e premiada atuação de John Lithgow) e a temporada ferve, aliás, eleita por fãs e crítica como a melhor de todas. Já na quinta, o psicopata tenta cada vez mais se redimir e se tornar, digamos assim, humano, mas será que ele de fato conseguirá? E nós, espectadores e cúmplices, gritamos juntos a favor de Dexters, Nascimentos e tantos outros heróis vigilantes, para que nos salvem, mesmo que metaforicamente do inferno de Dante que aspira sobre as nossas cabeças agraciado pela legislatura de homens, que estão mais preocupados em aumentar os próprios salários e viajarem às nossas custas do que de fato construírem um mundo melhor e mais justo. Talvez estes sim sejam os piores psicopatas da humanidade. Bem que Dexter poderia dar passar umas férias em Brasília, não acham?