segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Surpreendido em Bangkok


“Aquele que já não consegue sentir espanto nem surpresa está, por assim dizer, morto; os seus olhos estão apagados.” Esta frase é de Albert Einstein, o homem que surpreendeu o mundo com suas idéias e sua teoria da relatividade. Meus caros sete leitores, quem é que não gosta de ser surpreendido? Imagine você, minha leitora, recebendo um buque lindo de flores, do gato que te levou pra jantar na noite anterior. E você, meu caro leitor, no motel com sua namorada e ela esta com uma lingerie da Victoria Secrets, dedicada a você. Ou então, tu puxa seu extrato bancário e lá está um depósito de uma dívida que você achou que nunca mais receberia. Tu chega em casa e descobre que tua sogra se mudou pra Bismânia. Enfim, todo mundo aprecia ser surpreendido por notícias boas. Em contrapartida ninguém gosta de ser surpreendido de outra forma, como por exemplo ser flagrado pelo marido de sua amante, na cama dela amarrado pelas gravatas italianas dele. Ou descobrir que depois de uma bela evacuada, não há papel higiênico no banheiro. Entre outras coisas que não são agradáveis a nos surpreender. Porém, esta semana tive uma boa surpresa nos cinemas. Todos sabem que não sou fã de Nicolas Cage. Continuo achando ele um grande canastrão, mas de fato o moço as vezes me surpreende. Foi assim em Despedida em Las Vegas e assim em Senhor das Armas (aliás dois roteiros que sou apaixonado) e desta vez o moço me surpreende no intrigante e sombrio Perigo em Bangkok, onde Nicolas faz um assassino de aluguel em crise existencial que se apaixona por uma surda muda em Bangkok, que evidentemente irá interferir no seu bom desempenho profissional. Ossos do ofício, claro. Apaixonou, se ferrou e claro prepare-se: será surpreendido! Pode ser com uma gravidez indesejada, com um pedido de casamento, com uma belo par de chifres, ou quem sabe com algum membro extra em sua “amada” assim como um certo craque de futebol foi surpreendido logo por três, mas isto é outra história, que já não surpreende mais a ninguém. Voltando ao filme, o roteiro é bem amarrado, a trama envolvente e a maior surpresa: Nicolas ta mandando bem na atuação! Ta certo que não é nenhum personagem complexo de se fazer, mas vindo de Cage, até que é uma atuação digna de prêmio e desta vez não é Açaí de Lata. O final também surpreende, pois não é daqueles óbvios, como de costume em Hollywood. Este desperta atenção e não é nada previsível. Fui surpreendido e recomendo a todos este bom filme. Mas por falar em surpresas, como estamos bem perto das eleições, insisto no tema, porque convenhamos, por mais que você não se importe é isto que decide boa parte do seu futuro por quatro anos, você querendo ou não, então pense em como surpreender certos candidatos. Que tal surpreender aqueles candidatos com os malditos jingles chiclete, de mal gosto e porque não mal educados, que ficam gritando no seu ouvido diariamente? Você pode surpreende-los com a resposta perfeita pra eles: o silêncio! Sim, o silêncio que você tanto clamou ao ouvir estas versões de péssimo gosto dilatando suas orelhas, você responde na urna. Seu dedo em silêncio, se recusando a votar nestes malas sem alça e sem o menor respeito por você. Outra forma de surpreender candidatos é você fazer no dia da eleição, o que aquele candidato que hoje lhe aperta a mão e lhe dá abraço na rua, faz com você fora de eleição, que é ignorá-lo. Então, tu faça igual. No dia da eleição, ignore-o! Ele nem vai ficar sabendo, e mesmo se ficar, quem se importa, afinal você nunca mais vai vê-lo mesmo nos próximos quatro anos, quer ele vença ou não. Mas a melhor forma de surpreender mesmo é fazer com que candidatos que já se considerem vencedores, se coloquem em seu devido lugar, que não seria o das cadeiras almejadas e sim o divã de um analista para refletir as graves consequências de seu egocentrismo. Sabe candidatos que ignoram por completo seu direito à informação e nem sequer comparecem a debates ou nem fazem comício, nem apresentem projetos, nada. Aqueles que já se candidatam vencedores? Então, estes, você tem de surpreendê-los e deixar a humildade dar-lhes a maior lição de suas vidas ao perceberem que nunca em um jogo ou em uma eleição a vitória já existe antes do final. Surpreenda-se sempre e aprenda principalmente a surpreender, meu caro amigo, afinal de surpresas se bota o mundo pra girar, sejam elas boas, sejam elas más, o importante é surpreender sempre mais do que ser surpreendido!



PUBLICADA NO JORNAL GUARULHOS HOJE DIAS 27 E 28 DE SETEMBRO DE 2008

sábado, 20 de setembro de 2008

ESCÁRNIO SOBRE A CEGUEIRA



Imaginem uma Av. Paulista com táxis comuns se misturando a taxis “gringos” e a população inteira falando inglês, quando de repente alguém fica cego e não é você espectador que vê, mas não vê São Paulo na tela, mas sim uma epidemia de cegueira que começa a assolar a tal “cidade imaginária”. A solução é isolar os novos cegos numa espécie de Carandiru, onde você pensa que já viu este filme. Imagine um casal em crise, um negro, um japonês, uma prostituta e uma criança que juntos, tentam salvar o mundo. Você também já viu este filme. É mais um de Spielberg? Não desta vez é nosso Fernando Meirelles, que eu admiro e muito, mas acho que não acertou a mão numa direção meio cabra cega de uma obra brilhante de Saramago: “Ensaio sobre a cegueira”. Aliás, contrariando a vontade do autor, o maior erro de Fernando foi ceder às criticas ferrenhas e tirar a narração de Danny Glover do filme. Pois além de cego o filme ficou mudo e a platéia surda! Saramago aconselhou Meirelles a manter a narração e o diretor optou por não ouvir o criador da história, mas em contrapartida ouviu seu roteirista e ator no filme (o personagem do ladrão) a incluir uma (das muitas) cenas ocas e desnecessárias quando após roubar o carro de um cego, o ladrão, do nada resolve voltar pra ajudar o cego e depois some de novo numa das cenas mais vazias do filme. O trabalho de atores também ficou devendo uma vídeo-aula com o filme Perfume de Mulher e Al Pacino ensinado como interpretar cego, porque o que se vê na tela é aquela encenação piegas de Criança Esperança, sabe? Só faltou a Xuxa com um clássico de Sullivan e Massadas ao fundo. A larga experiência de Fernando com comerciais às vezes ajuda e em outras atrapalha, confunde. A cena dos cegos na chuva é tipicamente C & A. Só faltou o Sebastian surgir na tela e dizer que cego esta o gerente da loja com os preços baixos que anuncia. Em outra cena, Alice Braga (de novo nua), Juliane Moore e uma outra atriz tomam banhos juntas num papo típico de propaganda de absorvente, sem contar o tom do filme todo na linha mortos vivos nonsense da Pespsi, lembra? Dá dá dá! Pra completar o show, ainda há cenas “tributo Zé do Caixão” com cachorros de rua comendo pedaços da carne de um pobre moribundo. O filme se torna um festival de clichês e Fernando por ser um cara inteligente, bacana e absolutamente independente não deveria dar ouvido à críticas e principalmente ao que o público de teste pensa, porque cinema é mosaico. Cada um vê de um jeito e o que tem de prevalescer sempre é visão dele, o diretor! Eu acredito que as mudanças a que ele se rendeu, estragaram o andamento do filme, que no todo, me perdoe a honestidade não é um bom filme, mas poderia ser, pois a idéia de Saramago é apocalipticamente interessante.
Gael Garcia domina os poucos bons momentos do filme, mas nem ele e nem a Juliane ex-ruiva e agora loira e a cara da Madonna Moore salvam o filme. Cansativo, lento, chato, o filme deixa a platéia cega....de sono. Saramago não usa parágrafos, porque fala tanto quanto escreve e o filme peca nisto...é mudo...calado...sem sentimentos. Bem distante do livro. Um filme completamente cego. Assim como é cego nosso comitê Olímpico e nossos empresários que ainda não enxergaram o real valor de um atleta e do que o esporte representa a um país, afinal o vexame das Olimpíadas não é culpa dos atletas e sim da falta de investimentos, menos, claro pro futebol, que ali sim é um bando de cegos que só enxergam a cor verde-dólar e mais nada à sua frente. Porém o time de cegos reais mesmo, fez bonito e trouxe a medalha de ouro das paraolimpíadas, onde aliás o Brasil deu show! Uma salva de palmas aos atletas portadores de deficiência que provam que deficiente mesmo é aquele que não quer ver, que não quer agir. E por falar em cegos que não querem ver, lembrem-se que outubro está chegando e ta na hora de enxergar quem vale seu voto, quem vale a sua confiança. Pense! Não acredite em foto montada, em programa comprado, em jingle idiota e muito menos vá atrás de pesquisa. Enxergue fundo. Se tu é capaz de ver: olhe! Se for capaz de enxergar: observe!



PUBLICADA NO JORNAL GUARULHOS HOJE DIAS 20 E 21 DE SETEMBRO DE 2008

sábado, 13 de setembro de 2008

Frutas de Plástico


Meus caros ilustres sete leitores, que o Brasil é um país geométrico, estamos cansados de saber. Afinal, temos problemas angulares, discutidos em mesas redondas, por um monte de bestas quadradas. Mas como se não bastasse, somos regidos também por uma forma geométrica: a bunda! Aqui tudo não acaba em pizza, como aprendemos, mas sim em bunda. Ou passam a mão na sua bunda, ou você leva um pé na bunda ou então aceitamos tudo hipnotizados por uma bunda. Há uma dinastia perene, que passou já por rainhas Gretchens, imperatrizes Cadilacs, princesas Carlas e Sheilas e agora mais recentemente “lacaias” Melancias. Onde isto tudo vai parar? Onde costumam parar as “coisas” lançadas pela bunda? Então é pra lá que estamos indo, meus caros. E ninguém vai nos salvar desta fossa, pois somos carentes de heróis. No esporte, nosso último herói foi o Senna, na literatura temos o Paulo Coelho, que permanecerá sempre entre nós, pois assim como a bunda, ele também é imortal, mas longe de ser o herói, na música nossos heróis morreram de overdose, na política nosso último grande herói foi...é...huuummm...deixe-me ver....bom, neste caso, eu fico com a bunda. Mas como a coluna fala de cinema, vamos lá então. Nosso herói no cinema é....Não vale Bruce Lee, Stallone, ou pra você minha leitora bonitinha, o Brad Pitt. Falo de herói nacional. Quem é? Alguém? Ninguém, né? Então vou melhorar a pergunta: A nossa musa do cinema foi Sônia Braga e hoje quem é? Quem são? Perceberam? O Brasil continua carente de ídolos, heróis, e o pior, não temos musas, por isto quem carrega o brasão da nossa pátria e se transforma em diva, é quem tem uma bunda dissonante. Apesar de não gostar nada de futebol, achar carro apenas um simples meio de transporte, nunca ter pisado num bordel, não ficar contando vantagem sobre as mulheres que me relaciono e achar a mulher melancia baranga, eu sou homem! Acreditem! Hetero convicto! Mas no Brasil se o cara não tem estes predicados e pior, se não acha a melancia um tesão, então não deve ser macho. Parafraseando o poeta Vinicius, as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental. Sabemos que até existem umas feias potáveis, mas a maioria só serve mesmo para fazer sabão. E no meu tanque o sabão tem cheiro de melancia. É inadmissível transformá-la em musa. Nem minha miopia me trairia. Ela é baranga. Musas, fora nossa eterna Soninha Cravo e Canela (e as eternas divas da pornochanchada), acho que ficamos só com o cinema americano mesmo e suas divas que invadem nossos sonhos até hoje. A vizinha Marilyn Monroe, a dama de vermelho Kelly LeBrock, a mulher nota dez Bo Derek, a pantera Nastassja Kinski e a eterna Barbarella Jane Fonda, que até hoje ronda meus pensamentos. Estas são musas. Ficam tatuadas em nosso cérebro. Mulher não deve ser avaliada por uma bunda e convenhamos, no caso da melancia uma bunda feia. Mulher é o todo. O conjunto da obra. Aliás não haveriam lindas canções se não fosse pelas mulheres. Poesias, obras de arte, gols de placa, viadutos, colunas de jornal....tudo no final das contas é dedicado a uma (ou a várias) mulheres. Elas são a principal causa da beleza deste mundo, porque todo homem que se preze faz algo interessante só pra conseguir levar uma (ou várias) mulher (es) pra cama. O que seria do cinema se não fossem as mulheres? Ou então se o cinema fosse avaliado como aqui, pela bunda, John Stagliano levaria Oscar ano após anus...ops, ano! Então vamos deixar de balela e lembra que frutas de plástico inesquecíveis, só mesmo as que Carmem Miranda usava na cabeça, porque este exército de silicone com nome de frutas não vai invadir o meu erotismo. Fico ainda com as belas da tarde, as meninas do lado, as lolitas, as Sharons, as Julianes, as Nicoles, estas sim fazem uma bela salada de frutas. As mulheres morangos são bonitas, vistosas, mas estragam com facilidade. As mulheres maçãs fáceis de encontrar e dão o ano inteiro. As mulheres goiaba já vêm todas bichadas. As mulheres jaboticabas quando se comem demais dá mal estar. E mulher melancia pra mim é redonda, pesada, cheia de caroço e dá pra mais de 20 comer sossegado. Então, frutas são como havaianas e eu fico só com as legitimas, que dão um bom caldo. Mulher pra mim não é fruta, é arte! E só há três coisas que um homem pode fazer pelas mulheres: amá-las, sofrer por elas ou transformá-las em arte. No caso desta coluna, em literatura, já que a mulher é a poesia de Deus e o homem a simples prosa. Já que elogiei vocês todas então façam o favor de me ligar este final de semana porque deu uma vontade de tomar um suquinho de frutas!



PUBLICADA NO JORNAL GUARULHOS HOJE DIAS 13 E 14 DE SETEMBRO DE 2008

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

MILUJI TE*


Meus caros sete leitores, eu não sou adepto da pirataria, mas o que fazer quando o filme que você tanto amou, não foi relançado em DVD? Caso do excelente The Commitments de Alan Parker, que fui obrigado a baixar pelo e-mule para revê-lo, pois não encontrei em lugar algum. Nem em VHS pelos sebos da cidade. Então estou perdoado!O filme conta a história de uma banda de baile, desde sua formação inicial até o fim da banda (a trilha sonora é fantástica) e o interessante é que ele foi feito por atores desconhecidos e todos eles, músicos. Usei The Commitments como pano de fundo para apresentá-los ao ator Glen Hansard,coadjuvante no filme de Alan Parker e protagonista do filme que motivou a coluna de hoje: ONCE – Apenas uma Vez.
O filme recebeu inúmeros prêmios, entre eles a estatueta do Oscar de Melhor Canção Original, que foi composta por ele mesmo, nosso ator/músico de hoje, Mr. Glen Hansard. O filme foi rodado com um orçamento baixíssimo, quase que nos padrões da turma do Dogma (movimento dinamarquês que apostava no roteiro e na interpretação, ao invés da qualidade técnica), e conta a história de um músico de rua que após ser abandonado pela namorada se apaixona por uma imigrante vendedora de rosas (Marketa Irglova), que também é pianista. Quebrando todas as regras de Hollywood, os personagens não tem nomes, não transam, não ficam numa verborragia desenfreada como a de Ethan Hawke e Julie Delpy no “cabeça” Antes do Amanhecer (um de meus filmes favoritos) e muito menos fecham a cena com o eterno beijo Happy End. Muito melhor que isto tudo, o filme transborda em sentimentos puros. O s atores falam e alto, apenas com os olhares. Já os diálogos são traduzidos em canções, transformadas em elo de ligação entre o casal de músicos, que se encontram naquela idade em que as pessoas têm que deixar os sonhos de adolescência de lado e cair na real para sobreviver num mundo hostil, duro, que não perdoa os românticos, como eu...ou como nós, meus caros sete leitores! Com uma trilha sonora altamente recomendável, que nos remete muito ao trabalho do suicida Nick Drake (recomendo e muito), com sua melodia folk e letras profundas que ferem ou alimentam a alma de pessoas sensíveis como vocês, meus sete leitores...ou como eu...o filme tem um tom de documentário e é belamente fotografado pela câmera digital sem tripé do diretor John Carney, que aliás era baixista da banda onde Glen hoje é guitarrista e vocal, ou seja, claaaaro que o filme é autobiográfico, tanto que o vídeo-clipe que o protagonista assiste com imagens de sua ex, na verdade são vídeos caseiros da real ex do diretor Carney. Simples, direto e emocionante, “Once” conquistou crítica e público e tem tudo pra se tornar um CULT do cinema irlandês (ou seria cinema mundial?). O grande segredo deste sucesso está no uso inteligente da música visceral, completamente orgânica composta pela dupla de protagonistas e claro na ousadia e sensibilidade do diretor. O resultado é uma produção pequena, honesta, o tempo todo realista, mas sem abrir mão do romantismo. Seria uma aforismo à vida??? Uma dose de esperança ao amor em sua magnitude? Um ode ao amor correspondido mas nunca consumido?? Num pais como o nosso que ainda engatinha no cinema e dependemos teoricamente de projetos de lei de incentivo para realizar nossos sonhos em película, talvez o filme nos dê uma cutucada no lema “do it yourself”, lembrando-nos de que uma boa idéia na cabeça e uma câmera na mão, ainda podem e devem fazer a diferença.



* EU TE AMO em tcheco

PUBLICADA NO JORNAL GUARULHOS HOJE DIAS 06 E 07 DE SETEMBRO DE 2008

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

ÔNIBUS MÁGICO


Antes de mais nada, meus sete leitores devo avisá-los que o título desta coluna não trás nenhuma solução para o caótico transporte da nossa cidade e muito menos a invenção de um meio de transporte coletivo que voe ou se tele-transporte, nada disto. Talvez apenas a idéia de um ônibus que mesmo em estado de inércia absoluta consiga levá-lo para o outro lado da vida, aquele onde somos obrigados a nos encarar. Um símbolo da vida urbana, como o ônibus, serviu de abrigo e igreja (templo) para Christopher McCandless, um jovem americano que abandonou a vida na sociedade para viver em meio à Natureza Selvagem (nome do filme) em sua vasta solidão. Com toques de Homem Urso de Herzog, o filme segue em tom quase documental e emociona pelo roteiro, bela fotografia, uma trilha sonora fantástica de Eddie Veder (Pearl Jam) e acima de tudo pelas atuações emocionantes, orquestradas por um mestre da atuação, o ator (aqui diretor) Sean Penn. Eu que já havia me prometido que só assistiria a filmes que meu saco suportasse ou meu coração agüentasse, confesso que tremi e amoleci as pernas com este, pois em inúmeros momentos me identifiquei com o protagonista desta história. Afinal quem aqui ao perder um bom emprego, ao ter um amor assassinado e ser obrigado a ver o morto vivo do parceiro (a) vagando pelas ruas e supermercados, ou então ao ser obrigado a seguir “os rumos” da família, quando te levam a um caminho oposto ao seu, enfim, quem aqui ao sofrer desilusões com este nosso “way of life” imposto pela sociedade atual, nunca imaginou fugir sem rumo, a procura da essência do ser humano, que já esta perdida há um bom tempo? No mundo em que vivemos hoje é díficil não ir pro inferno, afinal com tantas distrações, tentações e influências cotidianas, por mais que tente andar na linha sempre alguém ou algo vai tentar te arrastar pra fora dela, daí a eterna vocação de solidão daqueles que ainda apostam em sua sensibilidade e no amor ao invés do sucesso social, do “ser sociável”, do seguir o trem mesmo que não faça a menor idéia de pra onde ele vai, mas já que todos estão nele, deve ser um bom caminho. Eu como todo esteta e extremista, ainda guardo o grande desejo de ter um dia a estrada como meu lar, abandonando de uma vez por todas este código moral rigoroso que nossos padrões sociais ostentam, porém com uma sutil diferença do protagonista eu não sou o que digamos assim, possa se dizer um naturalista, aliás sou muito urbano pra viver na floresta, mas a solidão da estrada e o prazer de ter a cada dia um rosto novo à sua frente e uma cultura nova a ser absorvida, creio que me levam à mesma catarse. A eterna busca pela felicidade, esteja ela onde estiver, é inerente ao ser humano. Uns a encontram numa roda de pagode, outros entre as pernas de uma bela mulher, outros no lindo sorriso de uma criança, mas o fato é que a felicidade é uma isca pendurada a frente de nossos olhos e tentar alcança-la é o que nos faz seguir em frente. Chris foi buscá-la na solidão do Alasca entre animais selvagens e mesmo entre momentos de extrema felicidade e emoção beirando atingir o nirvana, ele descobre tardeamente que a tal felicidade não tem significado nenhum quando não pode ser compartilhada. Que o risco de se chegar ao nível máximo da tal felicidade que projetamos é se dar conta de que talvez o bom seja ruim e o ruim seja bom. Contrariando assim uma verdade imposta por ele, numa das cenas mais belas do cinema, onde um senhor que já havia abandonado a alegria de viver, ao encontrar o jovem se encanta e pede para adotá-lo e Chris não aceitando o irrecusável convite, fala que vai sentir saudade e diz que a alegria de viver não depende apenas das relações humanas, porém como mencionado no parágrafo acima, é traído por sua falsa convicção. No final tudo se resume a uma única palavra: o amor! Ninguém vive sem. Assim como ar que respiramos, ele é fundamental à nossa existência, portanto a menos que você seja o Serguei e se apaixone e até faça sexo com árvores, esquilos e taturanas, não se isole numa floresta, pois pode se dar mal, prefira o isolamento de um quarto de hotel ou de uma cabana ao luar, ao menos assim tu pode uma vez ou outra receber uma visita desejável. O amor é uma droga criada pela felicidade e você pode encontra-la na porta de um colégio, na tela de seu computador, no apartamento ao lado do seu, entre outros tantos locais. Sua vista fica ruim, pois o feio lhe parece belo, seu coração tem palpitações, você fica com o hábito de ouvir discos que jamais ouviria em sã consciência, mas ao menos alivia a fome. Não a fome que sentiria na floresta, mas a fome urbana. A FOME DE AMOR. O único erro de Chris e que lhe foi fatal, foi não saber separar as frutas lindas e vermelhas, assim como as mulheres...parecem todas iguais, porem umas causam-nos sensações piores do que os mais terríveis venenos. E assim morreu Alexander Supertramp, um homem “livre”!


PUBLICADA NO JORNAL GUARULHOS HOJE DIAS 29 E 30 DE AGOSTO DE 2008

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Diga não à pirataria! Nome, só o original!




Meus 7 leitores favoritos, vocês já pensaram na hipótese de serem chamados de um nome que nada tem a ver com o que seus lindos pais lhe deram? Isto não serve pro senhor, seu Robiscrayson e nem pro seu irmão Gerusandré, ok? Enfim, você recebe um nome lindo e alguém vai lá e muda por um pior, sem sequer lhe pedir autorização. Isto é o que os tradutores brasileiros fazem com os títulos originais de filmes.Quem são os caras que inventam estes títulos? Devem ser os mesmos responsáveis por pérolas da MPB como “Nega do cabelo duro”, “Créu créu créu” e “Pererê” da IVETE. Fico imaginando os caras numa sala dizendo: “Gente, olha só, que rima, que métrica. Escutem: pe perere pe pe pe pe...e aí? É o bicho, não. A cara do Brasil, não é? Olhem só esta rima “ ÔÔÔÔÔ que terror...ÔÔÔÔÔ é a dança do vampiro...” Fantástico. Hit na certa...Yuhuuuu...nós somos gênios.” E o povão consome e paga até dois mil reais pra pular feito macaco fedendo a xixi no meio da multidão, atrás de um caminhão de gás repleto de butijões com vida e esbeltas rebolando. Enfim, estes caras devem também escrever as piadas do Zorra Total, os programas de humor de algumas rádios, as novelas, livros de auto ajuda, entre outras coisas de extrema importância na vida de quem nasceu acéfalo. Estes nossos gênios também emprestam sua áurea imaculada pra criarem títulos ou subtítulos pra filmes estrangeiros. Algumas pérolas são fantásticas como por exemplo o clássico de terror, o Massacre da Serra Elétrica. Alguém pode me dizer onde aparece uma serra elétrica no filme todo????? Aquilo é uma moto serra, gente! Serra elétrica é a de marceneiro e o Leather Face (o vilão, que deu sorte por não ser traduzido) teria de ter uma extensão gigante pra correr atrás daquela mulherada em trajes sumários. Aliás, deve ser algum distúrbio sexual, né? Porque todo psicopata adora matar mulheres gostosas em trajes sumários? Dificilmente eles matam uma baranga. O filme My Girl também é um ótimo exemplo, afinal o filme se chamou aqui “Meu primeiro amor”, porém teve o 2 e aí??? “Meu primeiro amor 2” , aí não seria o MEU SEGUNDO AMOR? De nada adiantou também produtores americanos bolarem um filme interessante de terror, com o assassino usando uma máscara que lembrava o quadro “O GRITO”, de Edvald Munch, numa explícita homenagem ao artista expressionista, porque aqui virou apenas Pânico... Já pensou se a moda pega e eles resolvem mudar o nome de grandes obras, não respeitando seus autores? A Monalisa podia virar a “O sorriso da buscate feia”, o auto retrato de Van Gogh, poderia ser “O quadro do véio ruivo”, e por aí afora. Mas é no cinema que eles, nossos tradutores, dão seu verdadeiro show...de estupidez! Memento é um bom exemplo, já que puseram o título aqui como AMNÉSIA e o filme inteiro o cara diz que não sofre de amnésia, mas acho que os tais “tradutores” sofriam deste mal ou nem viram o filme. Você já assistiu A morte do demônio? E uma noite alucinante? E Evil Dead? Pois é, este filme teve a honra de ser lançado com 3 títulos no Brasil... Náufrago, o título original era Cast Way. Me corrijam se eu estiver errado, mas que naufrágio teve no filme?
Meu ídolo Woody Allen também sofre com estas traduções, mas sofre mais ainda seus fãs, que além de esperarem em média quase dois anos de atraso pra verem seus filmes, ainda somos obrigados a agüentar estas traduções, substimando até um público mais seleto, que convenhamos não é atraído ao cinema por causa do “nome” do filme e sim pelo seu contexto, ou apreço pelo diretor ou atores. Por exemplo: Annie Hall, que é um nome próprio e verdadeiro, aliás nome da atriz, Diane Keaton, foi explicitamente uma homenagem à musa de Woody naquela época, que protagonizava o filme ao lado dele, porém aqui se tornou “Noivo neurótico, noiva nervosa”, numa tradução ridícula que nada tinha a ver com o filme. Tem mais ainda! Hollywood Ending virou “Dirigindo no escuro”, que parece uma típica comédia sessão da tarde, onde um cego tenta tirar carteira de habilitação, não é? Pois nada tem com o filme. Sweet and Lowdon virou Poucas e Boas (???), e Small Time Crooks virou simplesmente Os Trapaceiros. Sem contar o divertido pesudo-documentário Take the money and run, que virou um Assaltante bem trapalhão, talvez pela simples comparação entre Woody Allen e Didi? Mas ainda vem o pior. Estão preparados? Vamos lá: O filme Teen Wolf virou “Garoto do Futuro”. Como assim??? No futuro todos seremos lobisomens??? Onze homens e um segredo...alguém sabe qual era o tal segredo??? Ou melhor, havia um segredo? Esta é em homenagem ao teatro: o clássico UM BONDE CHAMADO DESEJO, peça de Tenesse Willians (uma das mais famosas do mundo), levada ao cinema com o mesmo NOME, aqui virou UMA RUA CHAMADA PECADO. Como assim? Hamlet ia virar o que??? O MIMADINHO? Rei Lear seria “O véio doido que se ferrou?” Calma que tem mais. Alien - oitavo passageiro, até que é um título interessante, né? Só esqueceram de contar o gato da tripulação, pois o Alien seria O NONO passageiro. E GIANT que virou “Assim caminha a Humanidade”. E olha que a trilha sonora nem era do Lulu Santos, para sorte da platéia. Mas o melhor de todos na minha opinião é a tradução do filme Down by law, que aqui se chamou: DAUNBAILÓ....olha isto??? Ahahahahahahahah...desculpem a gargalhada, mas só rindo, gente! Não merecia ser emoldurado um título destes? Pra piorar, quando não vem uma idéia genial pro título, botam o subtítulo. Os subtítulos são ótimos.
Monster's Ball - A Última Ceia (só se o prato da casa for a Halle Berry);
Space Balls - Tem um louco solto no espaço (era melhor um sucrilhos no espaço);
Hurricane-O furacão (pergunta pra mim se o tradutor viu o filme);
Taxi Driver - Motorista de Táxi (ápice da redundância?);
Pretty Woman – Uma linda mulher (Aulinha básica de inglês?);
Moulin Rouge - Amor Em Vermelho (Fafá de Belém traduziu?);
Forrest Gump - O Contador de Histórias (porque não, o corredor?)
Já que é pra ser redundante assim porque não:
Titanic-O navio que afunda
Sexto Sentido-O psicólogo fantasma.
Psicose-O filho que era a mãe!
A vida de David Gale-O cara que se mata pra provar que a pena de morte é falha;
Os suspeitos – O manquinho assassino
Pra ajudar o serviço destes caras de criar títulos e subtítulos extremamente comerciais visando grandes bilheterias, fica a dica de colocar subtítulos regionais, já que as novelas com sotaque nordestino sempre são sucesso. Olha ai nossas dicas: Uma Linda Mulher-A Cabrita Aprumada;
O Poderoso Chefão-O Coroné Arretado;
Os Sete Samurais -
Os Jagunço di Zóio Rasgado;
Godzila - O Calangão;
Os Brutos Também Amam - Os Vaquero Baitola;
Sansão e Dalila - O Cabiludo e a Quenga;
Perfume de Mulher- Cherim di Cabocla;
Guerra nas Estrelas - Arranca-rabo nu Céu;
Um Peixe Chamado Wanda - O Lambarí Cum Nomi di Muié;
Noviça Rebelde - Beata Increnquera;
O Corcunda de Notre Dame - O Monstrim da Igreja Grandi;
A Pantera Cor-de-rosa - A Onça Viada.

A propósito, caros tradutores: legend em Inglês não quer dizer legenda!

domingo, 17 de agosto de 2008

O PODEROSO PADRINHO



Cidadão Kane é um grande filme, mas que me perdoem os críticos, para mim o maior filme de todos os tempos chama-se Poderoso Chefão e claro, sua trilogia incontestável. Uma verdadeira obra prima que quase não aconteceu, se não fosse a coragem e ousadia de um diretor ainda jovem, porém genial: Francis Ford Copolla.
Como sempre em todas as esferas do showbusiness, os executivos com suas mentes embaçadas pela cor do dinheiro e seu QI semelhante ao de uma Sagüi excitado, botaram empecilhos no filme inteiro, fazendo que com Copolla vivesse o inferno na terra, a ponto de trabalhar vigiado por um segundo diretor, esperando para assumir seu cargo. Mas não foi só ele que sofreu nas mãos dos “executivos gênios”, afinal Marlon Brando foi negado pelos mesmos que achavam que ele só resmungava o filme todo e era canastrão, Al Pacino, além de ser um ator inexperiente, na opinião destes gênios, era sem graça e não tinha brilho algum na tela, a música de Nino Rota enfadonha e sem emoção, entre outras barbaridades que só podem sair mesmo da cabeça de executivos “das artes”, com toda sua genialidade para erguer e destruir coisas belas. Mas graças ao verdadeiro Padrinho (título original do filme, pois sempre achei nossa tradução PODEROSO CHEFÃO cafona demais) da obra, Sr. Copolla e seu fiel escudeiro nesta jornada, Sr. Mario Puzo (autor do romance), o mundo pôde ser presenteado com a maior obra prima do cinema, onde a fotografia de Gordon Willis (diretor de fotografia de inúmeros filmes, dentre eles a maioria de Woody Allen), a música perfeita de Nino Rota, a atuação visceral de Al Pacino, um elenco mais que perfeito, direção soberba de Copolla (que ainda escreveu com Puzo um roteiro espetacular) e como se não bastasse tudo isto, ainda trazer o brilho inigualável de outro gênio: Marlon Brando, no papel do eterno Padrinho Don Vito Corleone, que apesar de mafioso e cruel com inimigos, numa dicotomia, parecia não ter maldade no coração, pois era bom marido, excelente pai, um avô carinhoso, tratava como filhos os seus afilhados e ajudava muita gente sem condições. Ele apenas usou de sua inteligência e psicologia de manipulação (ou pq acham que o titulo godfather é retratado como uma marionete?) para ter poder e driblar todo um sistema cruel criado pelo mundo e do qual ele fora obrigado a sobreviver, após ter sua família inteira praticamente dizimada por homens gananciosos. Porém mesmo com uma vida regada a dor e sofrimento, Don Vito Corleone se transforma num grande homem, a ponto de arrancar lágrimas da platéia na cena de sua morte, mesmo sendo um criminoso. Isto é tocar na grandeza do ser humano! E Copolla conseguiu isto com esta brilhante trilogia sobre estrutura familiar e comportamento humano, numa metáfora ao capitalismo moderno com toques de poesia, transformando-se num verdadeiro I-Ching em celulóide, afinal basta escolher uma cena aleatória e lá terás uma frase que servirá de lição para o dia presente. A vida de um Rei (Brando) e seus três filhos contadas por Puzo, como que se fora contado por Shakespeare, remete o espectador a uma saga inesquecível sobre amor, família, poder e filosofia. Al Pacino, a grande estrela da trilogia cria um Michael Corleone que pulsa na tela a cada cena. Forte e extremamente frio e calculista consegue sempre tomar as melhores decisões e levar a família ao topo do poder, após a morte do pai, porém com uma diferença grande entre ambos “chefões”: seu pai ouvia o coração e Michael parece ter sido traído por este músculo, já que com todo seu poder e toda sua glória, é um homem amargurado, infeliz que tenta se redimir de seus pecados, mas parece ser atraído sempre para cometer novos em nome do poder. Quantos Michaels e quantos Padrinhos você conhece? O Brasil parece ser regido por um número ilimitado de Michaels que com sua fúria e seu talento para engrandecer, se tornam pessoas amargas, solitárias, tristes, que sacrificaram suas vidas em nome do dinheiro e do poder. Eu prefiro seguir a filosofia do Padrinho, claro, sem envolvimento no crime, mas sua forma de agir com o coração, pondo sempre sua família como base e como farol de seu caminho. Assumindo compromissos com pessoas e cumprindo-os sempre. GodFather (Padrinho) é o pai aos olhos de Deus, e creio ter assumido esta função, ao menos com meu amado afilhado. Já que eu nunca tive um padrinho na vida pessoal e muito menos na profissional, e sei a falta e a dor que isto me traz, pretendo cumprir meu papel de GodFather, para que meu (s) afilhado (s) nunca se sinta desprotegido. Aliás, adoraria conhecer um Vito Corleone e poder chamá-lo de Padrinho! Que está obra perdure por séculos e séculos e que sirva de exemplo ao mundo para que possamos ter cada vez menos Poderosos Chefões e mais e mais Padrinhos!



PUBLICADA NO JORNAL GUARULHOS HOJE DIAS 16 E 17 DE AGOSTO DE 2008