sexta-feira, 26 de junho de 2009

O Rei está morto?



O Pop - que já andava mal das pernas literalmente falando - se cala de vez com a morte de seu rei: Michael Jackson. Pra quem que, assim como eu, foi súdito de tão nobre astro desde a década de 80 - quando este menino magrelo, ainda negro na época, revolucionou a música no mundo e inventou o mercado do vídeo-clipe com a maior obra prima do segmento, insuperável até hoje, Thriller - sabe o que este texto escrito as lágrimas e de última hora (faltando menos de meia hora pra fechar a coluna, soube da notícia) possa representar.
Confesso aos meus sete leitores que em 82, quando Thriller - que até hoje é o álbum mais vendido do planeta e agora com a morte do astro as vendas no mínimo triplicarão – era sucesso absoluto, este pobre colunista ganhava seus primeiros aplausos imitando mr. Jackson em festinhas e até na TV no extinto programa “Barros de Alencar”.
Confesso ter recebido a notícia como quem recebe um soco do Mike Tyson, pois sou fã e grande admirador deste artista mais do que completo. Michael foi a figura mais controversa do show business, sem dúvida alguma, mas todos seus escândalos – que não foram poucos – jamais superarão a sua qualidade artística e legado que deixará para a eternidade. Jackson foi um artista único, ímpar, absurdamente original e que deixou uma influência inestimável para a música mundial.
Quando o assunto for talento performático e musical, ninguém chegará aos pés de Michael, mesmo estes ágeis pés insistindo em irem para trás como se fossem para frente assim como a carreira e a vida transtornada deste ser iluminado por holofotes, flashs, olhares, mas, acima de tudo, por uma luz própria que só os gênios possuem, criando o estilo Jackson que já está cravado na história da arte e, por que não, na história do mundo, afinal Michael se tornou um ícone imortal como Beethoven, Mozart e Elvis Presley.
O ídolo deixa órfãos milhões de fãs e admiradores que, assim como eu, vão rever todos seus clipes, ouvir seus discos - desde os tempos da Motown, passando pelo mágico “Off The Wall” e claro Thriller -, imitar suas coreografias e trejeitos e chegar a conclusão que talvez já estivéssemos órfãos deste Michael desde a turnê do disco "Dangerous", quando Michael já branco e absolutamente transtornado já começa a se tornar tão repulsivo visualmente quanto seu personagem em Thriller e com uma vocação bizarra para criar escândalos maior do que seu talento para criar coreografias.
A cada nova plástica parece que Michael perdia não só um pedaço de seu corpo, mas sim um pedaço de sua alma. A cada mudança de cor era como se o talento musical se dissolvesse transformando em cinzas o que um dia foi preto e se tornou branco. Seria toda esta confusão mental resíduos de uma infância roubada? Seria Michael ainda um menino de sete anos de idade mega dotado e que foi impedido de crescer? Não seria Michael o verdadeiro retrato da síndrome de Peter Pan em estágio avançado? Todas acusações contra ele, que nunca foram comprovadas, não seriam de fato prova maior de sua ingenuidade infantil? O Deus do Pop não seria um mortal idiota na vida real? O dono de tantos bens não seria na verdade apenas um único bem na mão de tantos donos?
Afinal Jackson era meu, era seu, era do vizinho, era de seus advogados, era dos seus agentes, companheiros de palco, era de sua família, era de todo mundo menos de si mesmo. O entertainer insuperável, o excelente cantor, o exímio bailarino criativo, o talentoso compositor que mesclava ritmo, melodia e imagem para criar e promover sua obra e o disco mais bem vendido de todos os tempos e ainda mudar a história da música não passava de uma luva branca coberta de lantejoulas que passava de mão em mão.
Michael deixou uma lacuna irrecuperável no show business mundial, mas nunca deixará esta mesma lacuna na mídia porque, mesmo morto artisticamente há alguns anos, ainda vinha alimentando jornais e revistas com fofocas bizarras e agora, quando se preparava para a ressurreição artística do bom e velho Michael, ironicamente o destino lhe prega uma peça e Michael real morre deixando o retorno do ícone à sombra de um passado distante, mas que ainda suprirá por longos anos a triste e vazia indústria da fofoca que criará novas teorias conspiratórias sobre o artista que, assim como Elvis, mesmo morto jamais poderá ter o descanso eterno, pois aos deuses não pertence este luxo. É o preço de tamanha divindade.
Triste mês de junho para o mundo, mas excelente mês para a mídia que já anunciará em breve que em mês de festas juninas Mr. Jackson morre engasgado com um pé de moleque ou que os anjinhos barrocos no céu terão suas auréolas corrompidas e por aí afora. Inúmeras Billie Jeans vestidas de negro aparecerão se proclamando legítimas viúvas enquanto os paparazzis farão campana na porta da casa de Macaulay Culkin, que seria a verdadeira viúva de Michael para a indústria da fofoca. É, Culkin, acredite que desta vez não vão “esquecer você”.
Entre tantas piadas e conspirações sobre a verdade sobre Michael Jackson nós, pobres mortais fiéis de sua obra, só torceríamos para que Michael revolucionasse não só a indústria do entretenimento, mas sim a vida na forma que conhecemos e nos surpreendesse com seu funeral quando os irmãos Jackson - ao carregarem o seu caixão -seguissem o cortejo fazendo o passo MoonWalker, nos enganando que iam para a cova quando na verdade o trariam de volta ao palco mais próximo, de onde Jackson sairia de seu ataúde, daria a tradicional voltinha em torno de si mesmo, seguida por seu grito e sairia dançando até se dissolver no ar como pó de estrelas e só ouvíssemos ao fundo a risada de Vincent Price nos provando de que tudo não passa de uma grande brincadeira e ele, Michael, uma eterna criança perdida, permanecerá viva para sempre nos palcos de nossa eterna mente brilhante como a luva de um astro que se recusa a dizer adeus.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O pecado mora em Marilyn Monroe



Desde que o homem é homem, o esporte mais popular e mais praticado do mundo é o sexo. Mas, assim como o segundo maior esporte do mundo, que é o futebol, dificilmente você vê um jogo “fair play”, já que se cometem tantas faltas durante a partida do jogo e no sexo, onde neste caso, a falta grave com direito a pênalti sem goleiro é a traição.
Como sempre, o cinema - o pano de fundo destas crônicas - trabalhou bem este assunto que só não é preferência mundial pro traído, mas que traz uma satisfação de poder e glória ao traidor. Filmes como Atração Fatal e Dama de Vermelho, entre inúmeros outros exemplos, abordaram o assunto de uma forma complexa. De um lado o risco físico e o perigo real de brincar com sentimentos alheios e, de outro, o prazer do segredo e do desejo em trair sem consumar o fato, tornando o sórdido numa fantasia, por que não, romântica de um desejo platônico.
Fora das telas, na nossa vida real (ou surreal?) o ato que mais denuncia nossa traição é o sexo oral. Será que é chamado assim exatamente pelo que fala e pelo que grita? Bill Clinton quase destruiu o mundo por causa de um blowjobzinho, Hugh Grant acabou com um casamento bacana e quase destrói a carreira em cima de papéis de bom moço também por uma simples felaçãozinha e quantos casamentos, romances, elos de confiança mútua que se quebram, entre outras tristezas, se perdem num simples boquetezinho discreto escondido dentro de um carro em movimento. Será que alguém vai ver? Não, ninguém vai saber, mas aí o oral ora e ora alto e o mundo descobre e mais uma relação de confiança é destruída “oralmente”.
Mas de volta ao cinema (com ou sem sexo oral na sala) que é o nosso tema, um filme clássico sobre o tema traição é O PECADO MORA AO LADO, que tem o nome original em inglês de “coceira dos sete anos”, baseada numa tese psicanalítica que, após sete anos juntos, o homem (hoje em dia a mulher se inclui e talvez em até menos de sete anos) sente um desejo incontrolável em trair. Como o próprio filme do gênio Billy Wilder retrata na primeira cena: somos apenas 100 índios xucros indo atrás de uma indiazinha gostosa. Mais animalesco nossos desejos ainda são se esta indiazinha séculos depois se transformar na loira mais provocante do mundo, a estonteante Marilyn Monroe.
No filme, o caricato ator Tom Ewell vive um típico novaiorquino pai de família que, após ficar livre em casa com sua mulher e filho numa viagem longe dali, sente a tal coceira dos sete anos e um desejo desenfreado de ter uma aventura extraconjugal, até tenta se conter, quando ninguém menos que Marilyn Monroe bate à sua porta como a nova vizinha. O filme é inocente, claro, pela época em questão e tem bons momentos cômicos. Uma história bacana que revelou a imagem mais emblemática da loira: a cena do metrô onde sua saia levanta revelando suas lindas pernas.
Diga-se de passagem numa época bem mais sedutora, onde melancias e bailarinas axé/funk não existiam; portanto, isto era o auge do erotismo. Mas a questão filosófica de tudo isto é: será que quem trai no fundo sai menos ferido de quem foi traído? Onde de fato se encontra este desejo incontido nosso em enganar e mentir apenas por prazer? Sexo é para mim uma das coisas mais maravilhosas desta vida, depois do palco, claro, se bem que sexo no palco ou nas coxias é melhor ainda, mas isto é outra história. O fato é que sexo pode ser a cura, mas também a doença. Prova maior disto são os casamentos e relações destruídas por um ato impensado de sexo. Indo mais além ainda, a vida do desejado pode se afundar em cima deste forte desejo.
O mundo não conheceu duas pessoas tão desejadas sexualmente como Elvis Presley e Marilyn Monroe e, o que para muitos seria a vida perfeita, provou-se o contrário, pois ambos tiveram suas vidas interrompidas precocemente pela tragédia. Elvis, com todas as mulheres do mundo, morreu só, depressivo e loucamente apaixonado por uma pessoa. Marilyn seria personagem digna de uma novela mexicana. O pai, a pobre loira nunca conheceu. Sua avó morreu louca. Sua mãe era esquizofrênica e passou a vida inteira trancafiada num sanatório. Sendo assim a jovem Marilyn foi criada em orfanatos sendo estuprada na infância. Quando já adulta não conseguia emprego, passou fome e aceitou posar nua por apenas 50 dólares, para pelo menos bancar um supermercado. Seus irmãos (Robert, que morreu precocemente e Berniece, que se tornou uma de suas melhores amigas) foram raptados na infância pelo pai.
Casou e estava feliz. Havia encontrado o amor, porém o brilho das luzes e a vontade em ser centro das atenções a chamou de volta ao inferno. Largou o marido, ficou famosa e, com o sucesso, se casou com o astro do beisebol Joe DiMaggio, relação que não durou mais de um ano. Ela nunca conseguiu ser mãe e passou por dois abortos, além de nunca estar satisfeita com sua carreira. Já cansada de ser a ‘loira burra’ nos filmes, foi estudar com o mestre da atuação Mr. Strasberg e se casou com um intelectual, Arthur Miller. Claro, também não deu certo. Marilyn se afundou mais e mais em bebida e remédios. Por fim, se envolveu com o homem mais poderoso do mundo, o presidente dos EUA, John F. Kennedy, que não correspondia ao amor da loira e só a tratava como um mero objeto de desejo. Seu irmão Bobby usou o mesmo artifício e a loira ficou mais maluca ainda. É a prova de que todo mundo sangra. Mesmo os deuses e as musas. Todos têm problemas afetivos e sexuais, e até um ícone sexual como Monroe sofreu as consequências de escolhas mal resolvidas. Por isto, em matéria de amor, a fidelidade ainda é a solução para se manter feliz. A diversidade deve estar entre duas e não mais pessoas. Já no sexo com traição, meus caros, as aparências sempre enganam, porque o maior prazer – repito – ainda é amar e ser amado. Mas já que ninguém é de ferro, então em caso de traição inevitável por desejos irrefreáveis, o segredo é agir com cautela. Afinal, ser fiel é ser discreto! E Marilyn, assim como suas irmãs de sedução ao longo dos tempos, foi traída pela vida por não ser nada discreta consigo mesma.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Anjos ou demônios na arte de contar uma bela história



Assim como seu antecessor, O Código Da Vinci, o filme Anjos & Demônios teve novamente como força motriz de divulgação a tentativa de criar mais uma polêmica contra a Igreja Católica, que desta vez não deu a mínima atenção ao fato, até mesmo porque sinceramente não há polêmica alguma a não ser a que eu levanto agora sem a benção do Papa e nem do padre Marcelo: um bom livro se torna um bom filme?
Que literatura e cinema são formas de arte distintas e que possuem uma linguagem própria já sabemos. Basta analisarmos o fato de que nos livros a dimensão da história é outra e a percepção da mesma pela nossa ótica de leitor se renova sempre a cada leitura e a cada momento de vida em que estamos passando.Você pode ler e reler, até no mesmo dia, que os mesmos parágrafos podem ser compreendidos de outra maneira e a imagem na sua mente é completamente modificada como num caleidoscópio.
O leque de cenários, de tipos físicos, de cores e de emoções é muito mais brando do que no cinema onde alguém - geralmente o roteirista e depois o diretor - apresenta o formato que fora absorvido por ele (s) em cima de tal obra e o leitor - agora espectador - assiste a tudo por outros olhos que não mais os seus e, sim, o olhar da câmera que o levará para onde o diretor quiser levá-lo e construir toda sua emoção em cima desta nova visão.
Você não está mais apto a contribuir à história, pois a sua imaginação foi simplesmente freada e substituída pela imaginação de quem fez o filme. Seria como você ver um quadro, porém nele as nuvens se movem, as luzes acendem e apagam, tem música na tela, as figuras andam, gritam, choram, morrem, matam, e o que antes era estático e tomava forma apenas em sua imaginação hoje em movimento lhe vem como fast food para seu entretenimento. Muitas vezes um alimento nutritivo, de fato, mas em outras, puro e simplesmente um chiclete para os seus olhos.
Os símbolos utilizados no cinema numa adaptação literária dão crédito ao mito de que uma imagem vale mais que mil palavras. Talvez a afirmação até seja real quando o assunto é paisagem, cenários ou a ideia de se vender ou desejo de se consumir algo. Mas quando o assunto é a psique humana e sua gama rica de sentimentos, nada mais elucidativo que a narrativa do autor da obra (livro) que nos guia para uma viagem aos labirintos significativos dentro da alma de suas personagens.
Claro que a obra de Dan Brown, em questão, não tem esta envergadura e não deixa de ser puro entretenimento, porém o livro diverte e elucida muito mais do que o filme que se tornou confuso, extremamente verborrágico e claro, como resultado disto, enfadonho. Não subestimando Tom Hanks que é um grande ator, eu não o vejo como Robert Langdon – protagonista da trama - em hipótese alguma e talvez por isto o descrédito do filme. Interessante que o próprio autor quando dá características físicas ao seu personagem, o compara com Harrison Ford, que evidentemente não deve ter topado a empreitada.
Uma pena, pois faria bem melhor que Hanks e um blockbuster deste porte poderia salvar a carreira pós o vexame de Indiana 4. Aliás, quanto a esta questão de phisic de role (perfil físico) de personagens, na obra de Puzzo - o livro “Poderoso Chefão” - Michael Corleone é loiro, alto e forte e Pacino mesmo sem nenhuma destas qualidades conseguiu convencer os leitores de que o autor poderia ter se equivocado nas características, pois não se imagina um Michael Corleone sem ser Pacino, o que é uma exceção da regra, que transcende até a imaginação do autor.
Claro que para imaginarmos cenas e personagens, tanto o autor ou nós, leitores, temos de pensar e muita gente acha isto um tanto quanto cansativo. Absorvem arte apenas se ela vier por uma tela. Isso encoraja à preguiça. Preguiça que eu confesso ter tido - mesmo sendo um leitor assíduo viciado em livros e rato de biblioteca assumido – e ter escolhido o cinema para conhecer grandes obras como Guerra e Paz, o Conde de Monte Cristo, Madame Bovary, o Homem que Ri, entre outros clássicos que ainda lerei, mas que num momento preferi assisti-los, já ciente de toda carga diminuta que traria à obra. Foi mais matemático que preguiçoso, pois o tempo que levaria para ler a obra de Tolstoi, eu li a obra completa de John Fante, por exemplo. A leitura de um bom livro é um diálogo incessante: o livro fala e a nossa alma responde.
Sinceramente meus caros sete leitores torço para que consigam assistir grandes obras no cinema e lerem no mínimo um clássico por mês, pois além de enriquecer sua cultura e vocabulário, a leitura engrandece a alma e ainda é um ótimo passatempo e inimiga do tédio que vem ao mundo pelo caminho que a preguiça abre. O livro nos traz sempre a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado. Que as pessoas em seu caminho não tenham preguiça para desbravá-lo ou descobri-lo em sua essência, assim como a um bom livro.
Você pode ser uma obra complexa, rica, infestada de manifestações e acima de tudo repleta de emoções. Talvez o mundo queira condensá-lo a uma visão mais rápida e simples do que você realmente seja, para que você possa vir a ser absorvido por muitos, assim como transformam uma obra literária e complexa num filme simples e rápido.
Cuidado para não se deixar ser adaptado para um universo que não seja o seu e regido por uma visão que também não seja a sua. Seja macro como um grande clássico e não permita que uma simples adaptação reduzida e editada do que você de fato é o transforme para o mundo num anjo ou em um demônio.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

UM SAMBA PARA ED WOOD



Todos sabem que como um bom jazzista, blues man e um autêntico roqueiro de carteirinha, o que menos suporto é dupla sertaneja. Não há nada mais óbvio, mais brega e mais maquinado do que uma dupla sertaneja. Todas são absolutamente idênticas no mal gosto, na cafonice e na falta de estilo próprio. Não há nada de novo no centro oeste? Mas já que graças a Deus o assunto é cinema, vou falar de duplas perfeitas nesta área e claro, a minha favorita delas. Depois de Fellini e Mastroianni e de Scorsese e De Niro, creio que a dupla mais simbiótica do cinema, na relação ator-diretor seja Tim Burton e Johnny Depp.Nesta relação que já perdura por anos e que está em fase de acabamento do sétimo filme juntos - Alice no País das Maravilhas - o versátil ator, sempre camaleônico sob a batuta de Burton, dará vida desta vez ao Chapeleiro Maluco, personagem clássico de Lewis Caroll. Nas três duplas citadas é notório que o diretor encontrou no ator específico seu alter ego, mas no caso do Deep e de Burton isto ultrapassa os limites, pois toda bizarrice de Tim Burton é transportada para a beleza andrógena de Depp que condensa com maestria esta influência em personagens excêntricos, tudo milimetricamente calculado e perfeito aos nossos olhos. Seja ele um jovem Frankenstein com mãos de tesoura, um megalomaníaco e fantasioso chocolateiro, um barbeiro vingativo sanguinolento, um investigador neurótico, um noivo no mundo dos mortos por engano, ou o personagem a quem atenho esta coluna: um diretor de cinema detentor do título de pior diretor de todos os tempos. Senhoras e senhores, lhes apresento, mr. Edward Wood Jr, vulgo Ed Wood. Revendo o filme pela sexta vez (por se tratar de um de meus favoritos), é notório que depois de Edward Mãos de Tesoura (personagem favorito de Depp, pelo qual ele e Burton se identificam assumidamente), este que fora o segundo trabalho da dupla, já beira a perfeição. Faturando Oscar de melhor maquiagem e de melhor coadjuvante para o exímio Martin “Bela Lugosi” Landau, o filme é uma obra prima para os fãs de cinebiografias. Com um roteiro esperto, uma fotografia perfeita em P & B e um elenco de ponta, o filme convence os fãs de Wood e o apresenta com maestria para novos admiradores. Eu estudei por um bom tempo a carreira de Ed Wood e posso afirmar a vocês que Burton foi fiel e que de fato o personagem se confunde com o criador. Ed Wood deveria ter nascido brasileiro, porque ele não era de todo mal, muito pelo contrário, era um otimista, visionário e guerreiro que com punhados de dólares realizava seus filmes, sejam eles ruins ou não, porque convenhamos que isto é relativo, já que há muito filme pior aqui na nossa terra e ainda feito com dinheiro público apadrinhado pelas leis de incentivo fiscal, além é claro dos terríveis blockbusters americanos com orçamentos que suportariam toda a pequena carreira de Wood e de mais uns 400 diretores estreantes. Já vi grandes diretores cometerem falhas imperdoáveis de continuidade, que inclusive era o quadro preferido de meus oito espectadores - o saudoso “Comédia dos Erros”¬ - do meu programa Cinelândia. A diferença de Ed Wood para nós e que talvez a gente tenha uma autocrítica um pouco mais acirrada que a dele e uma inocência não tão peculiar quanto a do moço que adorava se vestir com roupas femininas, mas era heterossexual convicto, o que nos mostra que Ed era um diretor repleto de contradições, assim como Johnny Depp que faz brilhantemente papéis excêntricos e fora das telas é um dos poucos astros não excêntricos. Um sujeito simples, bacana com os fãs e recluso com sua família em Paris distante do glamour de Hollywood. Seres contraditórios assim como eu, como você, como nós, que habitamos um país mais do que contraditório. Um país onde falta saúde, mas sobram verbas para hospitais desperdiçadas indevidamente em viagens de amigos e parentes de políticos para o exterior. Um país onde falta educação, mas sobra ignorância. Um país onde falta honestidade, mas sobra corrupção. Um país onde falta paz, mas sobra violência pelas ruas. Um país onde falta honra, ética profissional, amor ao próximo, uma distribuição justa de renda, respeito aos idosos, mas que sobra ganância, assaltos a cofres públicos, crianças abandonadas em faróis, pedofilia descarada, mal gosto e por falar nisto, claro sobram duplas e mais duplas sertanejas. O que é pior? Um filme de Ed Wood ou um simples retrato de nosso país? Presume-se de fato que o Brasil é um quintal onde se faz churrasco toda semana com a carne magra que resta no corpo dos miseráveis enquanto os ignóbeis ricos, colunistas sociais e toda a turma de ricos pobres se intoxicam ao som de músicas cafonas cantadas em duas vozes dissonantes. Não seria o Brasil um filme do Ed Wood? Quem sabe nossos governantes não sejam os reais merecedores do título de pior direção de todos os tempos, ao menos quando o assunto é dirigir uma nação. Triste é saber que Ed Wood ao menos era sincero, honesto, nos fazia rir e dirigia ficção e seu terror não chegava nem perto da nossa realidade, como país. Nosso Plan 9 é bem mais verde e amarelo!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

O dia em que Che levou umas palmadas



Recentemente, numa entrevista para promover o filme Che, o ator Benicio del Toro gaguejou, ficou mudo, pagou mico e, claro, virou sensação no You Tube. A jornalista nitidamente hostil já atacou o ator com a primeira pergunta: “por que estrear um filme sobre Che Guevara numa cidade (Miami) onde vivem tantos cubanos vitimados por um sistema que ainda está implantado em Cuba? É uma provocação?” Benicio, se enrosca, gagueja e a moça continua destilando sua fúria desconexa: “O filme traz uma imagem positiva do Che e, imagine que se fosse sobre Hitler, estaria ofendendo aos judeus.”
Ele tenta se sair bem e diz que o Che não criou campos de concentração. Mas a jornalista, ligeira no raciocínio e como uma louva-deus - já arrancando a cabeça de Del Toro - dispara: “Estamos falando sobre assassinos. Não é o mesmo crime assassinar uma pessoa, cem ou cem mil?” E ainda acrescenta: “Você sabia que o Che, quando esteve encarregado da prisão de La Cabaña, mandou fuzilar pessoalmente mais de 400 pessoas?”
Benicio del Toro parece acordar do espancamento e manda um jeb na moça, comentando sobre pena de morte mas a peso pena mais rápida do jornalismo contesta e manda o troco no fígado afirmando que foram execuções sumárias, sem julgamento prévio. Benício no chão, sangrando da surra, clamando para o fantasma do Che salvá-lo, solta uma pérola da inocência: “Todos assassinados eram terroristas ligados ao ex-ditador Batista”.
Ela notando a fraqueza de sua vítima e percebendo que a luta já está ganha, pisa na cabeça do pobre adversário sangrando no chão e executa-o dizendo que todos foram assassinados por suas opiniões contra o governo revolucionário. Foram mortos por suas consciências. E que o filme não mostra os fuzilamentos, os disparos que o próprio Che deu, em execuções, a sangue frio. O ator se cala e joga a toalha. Ela mais fria e mais exterminadora que o próprio Che encerra a entrevista perguntando se Benicio conhece a seguinte declaração de Che Guevara: “A forma mais positiva e mais forte que há, à parte de toda ideologia, é um tiro em quem se deve dar em seu momento”. Benício diz que não se lembra e pede pra ir embora da entrevista. Ela concede, vitoriosa, mas antes lhe presenteia com um livro sobre o Che violento, escrito por um historiador cubano e ex-preso político na ilha.
A jornalista, Marlen Gonzalez, claro, é de origem cubana. Há duas questões importantes neste duelo descrito acima. A primeira dela diz respeito a desmascarar falsos heróis ou manchar a imagem com que os mesmos foram pintados na galeria da história. Há inúmeras controvérsias sobre a vida e claro, a “obra” de heróis endeusados, como Che, Gandhi, Chico Mendes, Zapata, Carlos Lamarca, entre outros. Muitos alegam que alguns pregavam a paz, mas violentavam suas esposas, outros lutavam por uma causa absolutamente particular e não coletiva, e que outros eram apenas comunistas, portanto os vilões da história, enfim, muito blá, blá, blá sobre quem fez história, ainda mais se conseguiu de certa maneira mudar os rumos dela.
O fato é que não existem santos e ninguém neste mundo é absolutamente perfeito. Porém acredito que em alguns casos, a máxima “o fim justifica os meios” cabe como uma luva na mão da história e dos “heróis” em questão, além do fato de que toda e qualquer revolução foi primeiro uma ideia na mente de uma destas pessoas.
Revolução, aliás, que ao meu modo de vista, deveria permanecer revolução sempre, para resistir, pois quando se torna governo, já está falida. Todo país, estado ou qualquer outro lugar que deixaram de ter uma revolução permanente acabaram por recuperar a sua tirania e tudo voltou ao mesmo lugar. Em cima disto, reflitam sobre um pensamento de Bretch: “Miserável país aquele que não tem heróis. Miserável país aquele que precisa de heróis”.
Che Guevara, herói ou não, caiu na contradição da história e virou produto daquilo que combatia. Já a segunda questão (não me esqueci) é a de que as pessoas insistem em confundir ator com criador ou criatura. O ator tem uma única função: representar. Uns estudam mais sobre o assunto a ser retratado e outros menos, mas isto não os faz menores ou maiores. Ator bom é ator que nos convence ali na cena e ponto final.
Já vi atores prolixos, cultos, que sabem de tudo, mas que em cena são canastrões e mal conseguiriam convencerem suas mães, sobre seus papeis. Há atores que se dedicam ao ato de representar a emoção descrita e sugerida pelo roteirista e moldada pelo diretor. E Benicio é fera nesta arte. Seria melhor ainda se ele dominasse o assunto como um historiador? Sim, talvez seria, mas como já mencionei, não há perfeição. Ninguém neste mundo é perfeito.
Mas se tem uma coisa que eu não sou nada fã é entrevista de ator sobre seu personagem. É como pedir para um poeta explicar sua poesia. Pedir a um jogador que divague sobre seu gol. Um músico que tenha de explicar melodia por melodia de sua canção. Emoção não se explica, caros amigos, se sente! Ao Che, ficam minhas saudações e respeito pela coragem e ao Del Toro fica a dica: quando não se domina um assunto em pauta é melhor ficar calado para deixar que os outros pensem que você é um idiota, ao invés de abrir a boca e acabar com esta dúvida.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Um grande filho da mãe



Se há dois filmes estrangeiros (fora do eixo EUA) que sempre me emocionam, independente do número de vezes que eu os tenha assistido, são “O filho da noiva” e “Tudo sobre minha mãe”. O primeiro, de nossos hermanos argentinos, retrata a história de um quarentão, que mediante a crise econômica da Argentina se vê obrigado a vender o restaurante da família.
Além disto, enfrenta problemas de saúde, está perdendo a namorada, não dando o devido carinho e atenção à filha e ainda recebe a visita de um amigo de infância que acabou de perder a esposa e a filha num acidente. Como se já não bastasse tantos elementos tragicômicos, soma-se tudo isto ao fato de seu pai, após mais de 40 anos junto com sua mãe, resolver se casar com ela na igreja, porém a mesma sofre do Mal de Alzheimer e mal pode reconhecer sua família. Junto com seu filho, eles devem apressar-se para realizar a cerimônia antes que a doença avance mais ainda.
Tudo isto seria ideal para um clichê novelístico, mas o diretor Campanella, com muita habilidade, consegue respeitar o limite que divide o sublime do ridículo e, assim, o filme emociona (e muito) a cada segundo com interpretações absolutamente reais e comoventes. Um espetáculo de filme com um elenco soberbo, uma direção segura e um roteiro esplêndido.
Já o segundo faturou Oscar de melhor filme estrangeiro e nele Almodóvar nos mostra até onde o amor de uma mãe pode ir. O diretor espanhol - que é mestre em cores misturadas a sentimentos, emoção e, claro, gargalhadas - desta vez nos prova que sua paleta parece nunca ter fim. Um filme poético, sublime e acima de tudo inspirador, bem ao melhor estilo do espanhol.
Além do fato de serem grandes obras estrangeiras, o que estes dois filmes também têm em comum é o fato de ambos terem como força motriz do enredo as mães! Claro que o próprio cinema poderia até ser considerado a mãe das artes visuais, além do fato de que desde seu surgimento vem enaltecendo estes seres divinos, etéreos, imaginários e especiais que agem como anjos que Deus pôs na terra para nos acompanhar, dos quais carinhosamente chamamos de mãe. Estas mulheres sempre serão a nossa referência de proteção e amor incondicional, mas nunca devemos esquecer que são seres humanos, portanto suscetíveis ao erro e as falhas também.
E o cinema tem demonstrado isto por décadas através de vários exemplos de mães. Uma das mães mais famosas das telas é a senhora Bates. Quem não se lembra da mãe de Norman Bates em Psicose, criada por Hitchcock? O filme serviu para nos lembrar a todo instante que as grandes tragédias da vida de um homem podem estar bordadas também na barra da saia de sua mãe, se bem que a verdade mesmo é que as mães fazem só o layout dos filhos, quem faz a arte final somos nós mesmos. As escolhas sempre caberão a nós. O manche está em nossas mãos, a mãe apenas nos dá uma direção a seguir e, claro, a segurança de sempre termos seu porto seguro em caso de um naufrágio.
A importância de uma mãe é fundamental para o sucesso de seu filho. Ronaldo, o fenômeno, quando sofreu uma grave contusão estava acabado para o mundo e ele recorreu a quem? O homem de milhões de dólares recorreu a mãe e o resto da história o mundo já conhece. É o poder do amor materno. Este amor que é o combustível que capacita um ser humano comum a fazer o impossível.
Mãe: esta palavrinha pequena como um curta metragem, mas de um valor incalculável, superior a renda bruta de qualquer blockbuster de sucesso e mais presente na sua vida do que qualquer Cult Movie que tenha escolhido para espelhar suas emoções. Esta palavra – mãe - tem um significado infinito, acima de qualquer forma de amor incondicional, somado a uma força e sabedoria, digna de qualquer mestre e que ainda possua uma dedicação tão comprometida que às vezes até renúncia a si própria, se anulando como pessoa para serem simplesmente “mães”.
Diferente do belo filme de Campanella, o Alzheimer que mais fere na vida real destas mulheres é o Alzheimer precoce e voluntário de filhos que esquecem de onde vieram e abandonam sua progenitora num asilo, num hospital ou, pior ainda, num sofá da sala estagnada frente a um aparelho de TV esperando quem a morte visitará primeiro: ela ou o Sílvio Santos.
Parafraseando o título do filme de Almodóvar talvez eu tenha descrito aqui quase tudo sobre minha mãe... e a sua também, ou sobre todas as mães do mundo. Não importa. O que realmente importa é que no cinema da minha vida minha mãe sempre terá sessão contínua e nunca sairá de cartaz. Feliz dia das mães, dona Augusta, a eterna mãe dos meus filmes!