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sexta-feira, 15 de março de 2013

OVERDOSE DE AMOR

Há dias atrás o rock nacional perdia uma de suas estrelas, o cantor e compositor Chorão. Eu nunca fui fã do Charlie Brown Jr., mas sempre tive respeito, afinal ficava evidente que a atitude e a qualidade musical da banda era (e talvez continue sendo) melhor que 90% do que rola na nossa falida mídia atual. Chorão não era meu ídolo e nem referência para meu trabalho musical, mas é notório sua sensibilidade poética e talento absurdo para aquilo que se propunha fazer: música! Todos sabem que o Brasil canoniza seus artistas mortos imediatamente, mas o processo dura pouco, até começar o deboche e o festival de oportunismo. O rapaz morreu numa época tumultuada, junto com a morte de Hugo Chavez, a pífia e polêmica condenação do goleiro Bruno e o julgamento-show do caso Mércia Nakashima, ficando assim sem muitos holofotes sobre seu túmulo. Graças a este festival de acontecimentos, esqueceram um pouco do caso da morte do músico skatista, o que pode se considerar sorte, ao menos no caso de preservação da imagem de quem se foi. Mas mesmo assim a Oportunismo Barraco S/A produziu e continua na ativa com o festival de bobagens onde pseudos-investigadores e figuras que só a TV brasileira é capaz de fazer florescer soltam suas pérolas. Tem um vídeo na net, de um programa de TV do Maranhão, onde o apresentador lamenta, de forma irônica, a morte de Chorão e afirma que o carnaval da Bahia perdeu muito. Como assim?? Depois grita Bye “xarli brau” ao som de Benito di Paula ao fundo, onde o apresentador grotesco afirma que a canção foi feita em homenagem à morte de Chorão (!!!). Mas no meio de tanta asneira o que mais incomoda é o festival de “juízes divinos” taxando o falecido apenas como um simples maluco viciado que se matou. Vamos por partes. Ninguém sabe o que houve e muito menos se o rapaz suicidou. Segundo lugar, é hipócrita julgar um viciado de tal forma como se ele fosse o único da nação. Quando você enche a cara de cerveja, whisky, ou qualquer outra droga lícita, isto não te faz melhor do que um viciado em cocaína ou qualquer outra droga. A única diferença entre vocês é perante a lei e claro, a quantidade que você usou. Um baseado é nada perante dez latas de cerveja, que causam danos bem maiores ao viciado e à sociedade às vezes. E quero deixar registrado que não uso drogas e sou abstêmio, então não estou levantando bandeira para ninguém, mas apenas sendo coerente. A contribuição que Chorão, Raul Seixas, Elis, Cazuza e tantos outros deixaram para nossa música, vai muito além de suas vidas pessoais que não nos dizem respeito. O artista deve ser visto por sua obra e não por sua vida. Se fosse assim, nenhum jamais seria admirado, pois para ser artista e dos bons é extremamente necessário o conflito interno ou você acha que a poesia, a música, o livro, a obra de arte e até artigos como este surgem como? Se fosse tão simples assim todos seriam artistas. O que de fato ocorreu e poucos captaram é que a droga mais letal que existe é o amor e já arrancou muito mais vidas do que se imagina. Não foram os aviões que mataram King Kong, mas sim o amor pela Bela, a causa mortis da Fera! Quando se ama de verdade e por um motivo A ou B o amor de um acaba, é difícil o outro se reerguer e não há fama, grana, talento que o salve. Quem ama nunca abandona o outro, nem na pior situação. Se um dia acabou, não era amor, então é tarde para lamentar a morte, pois isto não serve para nada se você poderia ter evitado. Só quem AMA de verdade sabe a dor que é a solidão. Solidão esta opcional, pois não faltariam companhias femininas ao Chorão, como não falta a muita gente que vocês conhecem, mas que optou viver um amor que não mais é correspondido. O amor é a arma na cabeça e a cocaína, a bebida, o crack, seja la o que for, é a mão que aperta o gatilho.