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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Surpreendido em Bangkok


“Aquele que já não consegue sentir espanto nem surpresa está, por assim dizer, morto; os seus olhos estão apagados.” Esta frase é de Albert Einstein, o homem que surpreendeu o mundo com suas idéias e sua teoria da relatividade. Meus caros sete leitores, quem é que não gosta de ser surpreendido? Imagine você, minha leitora, recebendo um buque lindo de flores, do gato que te levou pra jantar na noite anterior. E você, meu caro leitor, no motel com sua namorada e ela esta com uma lingerie da Victoria Secrets, dedicada a você. Ou então, tu puxa seu extrato bancário e lá está um depósito de uma dívida que você achou que nunca mais receberia. Tu chega em casa e descobre que tua sogra se mudou pra Bismânia. Enfim, todo mundo aprecia ser surpreendido por notícias boas. Em contrapartida ninguém gosta de ser surpreendido de outra forma, como por exemplo ser flagrado pelo marido de sua amante, na cama dela amarrado pelas gravatas italianas dele. Ou descobrir que depois de uma bela evacuada, não há papel higiênico no banheiro. Entre outras coisas que não são agradáveis a nos surpreender. Porém, esta semana tive uma boa surpresa nos cinemas. Todos sabem que não sou fã de Nicolas Cage. Continuo achando ele um grande canastrão, mas de fato o moço as vezes me surpreende. Foi assim em Despedida em Las Vegas e assim em Senhor das Armas (aliás dois roteiros que sou apaixonado) e desta vez o moço me surpreende no intrigante e sombrio Perigo em Bangkok, onde Nicolas faz um assassino de aluguel em crise existencial que se apaixona por uma surda muda em Bangkok, que evidentemente irá interferir no seu bom desempenho profissional. Ossos do ofício, claro. Apaixonou, se ferrou e claro prepare-se: será surpreendido! Pode ser com uma gravidez indesejada, com um pedido de casamento, com uma belo par de chifres, ou quem sabe com algum membro extra em sua “amada” assim como um certo craque de futebol foi surpreendido logo por três, mas isto é outra história, que já não surpreende mais a ninguém. Voltando ao filme, o roteiro é bem amarrado, a trama envolvente e a maior surpresa: Nicolas ta mandando bem na atuação! Ta certo que não é nenhum personagem complexo de se fazer, mas vindo de Cage, até que é uma atuação digna de prêmio e desta vez não é Açaí de Lata. O final também surpreende, pois não é daqueles óbvios, como de costume em Hollywood. Este desperta atenção e não é nada previsível. Fui surpreendido e recomendo a todos este bom filme. Mas por falar em surpresas, como estamos bem perto das eleições, insisto no tema, porque convenhamos, por mais que você não se importe é isto que decide boa parte do seu futuro por quatro anos, você querendo ou não, então pense em como surpreender certos candidatos. Que tal surpreender aqueles candidatos com os malditos jingles chiclete, de mal gosto e porque não mal educados, que ficam gritando no seu ouvido diariamente? Você pode surpreende-los com a resposta perfeita pra eles: o silêncio! Sim, o silêncio que você tanto clamou ao ouvir estas versões de péssimo gosto dilatando suas orelhas, você responde na urna. Seu dedo em silêncio, se recusando a votar nestes malas sem alça e sem o menor respeito por você. Outra forma de surpreender candidatos é você fazer no dia da eleição, o que aquele candidato que hoje lhe aperta a mão e lhe dá abraço na rua, faz com você fora de eleição, que é ignorá-lo. Então, tu faça igual. No dia da eleição, ignore-o! Ele nem vai ficar sabendo, e mesmo se ficar, quem se importa, afinal você nunca mais vai vê-lo mesmo nos próximos quatro anos, quer ele vença ou não. Mas a melhor forma de surpreender mesmo é fazer com que candidatos que já se considerem vencedores, se coloquem em seu devido lugar, que não seria o das cadeiras almejadas e sim o divã de um analista para refletir as graves consequências de seu egocentrismo. Sabe candidatos que ignoram por completo seu direito à informação e nem sequer comparecem a debates ou nem fazem comício, nem apresentem projetos, nada. Aqueles que já se candidatam vencedores? Então, estes, você tem de surpreendê-los e deixar a humildade dar-lhes a maior lição de suas vidas ao perceberem que nunca em um jogo ou em uma eleição a vitória já existe antes do final. Surpreenda-se sempre e aprenda principalmente a surpreender, meu caro amigo, afinal de surpresas se bota o mundo pra girar, sejam elas boas, sejam elas más, o importante é surpreender sempre mais do que ser surpreendido!



PUBLICADA NO JORNAL GUARULHOS HOJE DIAS 27 E 28 DE SETEMBRO DE 2008

sábado, 20 de setembro de 2008

ESCÁRNIO SOBRE A CEGUEIRA



Imaginem uma Av. Paulista com táxis comuns se misturando a taxis “gringos” e a população inteira falando inglês, quando de repente alguém fica cego e não é você espectador que vê, mas não vê São Paulo na tela, mas sim uma epidemia de cegueira que começa a assolar a tal “cidade imaginária”. A solução é isolar os novos cegos numa espécie de Carandiru, onde você pensa que já viu este filme. Imagine um casal em crise, um negro, um japonês, uma prostituta e uma criança que juntos, tentam salvar o mundo. Você também já viu este filme. É mais um de Spielberg? Não desta vez é nosso Fernando Meirelles, que eu admiro e muito, mas acho que não acertou a mão numa direção meio cabra cega de uma obra brilhante de Saramago: “Ensaio sobre a cegueira”. Aliás, contrariando a vontade do autor, o maior erro de Fernando foi ceder às criticas ferrenhas e tirar a narração de Danny Glover do filme. Pois além de cego o filme ficou mudo e a platéia surda! Saramago aconselhou Meirelles a manter a narração e o diretor optou por não ouvir o criador da história, mas em contrapartida ouviu seu roteirista e ator no filme (o personagem do ladrão) a incluir uma (das muitas) cenas ocas e desnecessárias quando após roubar o carro de um cego, o ladrão, do nada resolve voltar pra ajudar o cego e depois some de novo numa das cenas mais vazias do filme. O trabalho de atores também ficou devendo uma vídeo-aula com o filme Perfume de Mulher e Al Pacino ensinado como interpretar cego, porque o que se vê na tela é aquela encenação piegas de Criança Esperança, sabe? Só faltou a Xuxa com um clássico de Sullivan e Massadas ao fundo. A larga experiência de Fernando com comerciais às vezes ajuda e em outras atrapalha, confunde. A cena dos cegos na chuva é tipicamente C & A. Só faltou o Sebastian surgir na tela e dizer que cego esta o gerente da loja com os preços baixos que anuncia. Em outra cena, Alice Braga (de novo nua), Juliane Moore e uma outra atriz tomam banhos juntas num papo típico de propaganda de absorvente, sem contar o tom do filme todo na linha mortos vivos nonsense da Pespsi, lembra? Dá dá dá! Pra completar o show, ainda há cenas “tributo Zé do Caixão” com cachorros de rua comendo pedaços da carne de um pobre moribundo. O filme se torna um festival de clichês e Fernando por ser um cara inteligente, bacana e absolutamente independente não deveria dar ouvido à críticas e principalmente ao que o público de teste pensa, porque cinema é mosaico. Cada um vê de um jeito e o que tem de prevalescer sempre é visão dele, o diretor! Eu acredito que as mudanças a que ele se rendeu, estragaram o andamento do filme, que no todo, me perdoe a honestidade não é um bom filme, mas poderia ser, pois a idéia de Saramago é apocalipticamente interessante.
Gael Garcia domina os poucos bons momentos do filme, mas nem ele e nem a Juliane ex-ruiva e agora loira e a cara da Madonna Moore salvam o filme. Cansativo, lento, chato, o filme deixa a platéia cega....de sono. Saramago não usa parágrafos, porque fala tanto quanto escreve e o filme peca nisto...é mudo...calado...sem sentimentos. Bem distante do livro. Um filme completamente cego. Assim como é cego nosso comitê Olímpico e nossos empresários que ainda não enxergaram o real valor de um atleta e do que o esporte representa a um país, afinal o vexame das Olimpíadas não é culpa dos atletas e sim da falta de investimentos, menos, claro pro futebol, que ali sim é um bando de cegos que só enxergam a cor verde-dólar e mais nada à sua frente. Porém o time de cegos reais mesmo, fez bonito e trouxe a medalha de ouro das paraolimpíadas, onde aliás o Brasil deu show! Uma salva de palmas aos atletas portadores de deficiência que provam que deficiente mesmo é aquele que não quer ver, que não quer agir. E por falar em cegos que não querem ver, lembrem-se que outubro está chegando e ta na hora de enxergar quem vale seu voto, quem vale a sua confiança. Pense! Não acredite em foto montada, em programa comprado, em jingle idiota e muito menos vá atrás de pesquisa. Enxergue fundo. Se tu é capaz de ver: olhe! Se for capaz de enxergar: observe!



PUBLICADA NO JORNAL GUARULHOS HOJE DIAS 20 E 21 DE SETEMBRO DE 2008

sábado, 13 de setembro de 2008

Frutas de Plástico


Meus caros ilustres sete leitores, que o Brasil é um país geométrico, estamos cansados de saber. Afinal, temos problemas angulares, discutidos em mesas redondas, por um monte de bestas quadradas. Mas como se não bastasse, somos regidos também por uma forma geométrica: a bunda! Aqui tudo não acaba em pizza, como aprendemos, mas sim em bunda. Ou passam a mão na sua bunda, ou você leva um pé na bunda ou então aceitamos tudo hipnotizados por uma bunda. Há uma dinastia perene, que passou já por rainhas Gretchens, imperatrizes Cadilacs, princesas Carlas e Sheilas e agora mais recentemente “lacaias” Melancias. Onde isto tudo vai parar? Onde costumam parar as “coisas” lançadas pela bunda? Então é pra lá que estamos indo, meus caros. E ninguém vai nos salvar desta fossa, pois somos carentes de heróis. No esporte, nosso último herói foi o Senna, na literatura temos o Paulo Coelho, que permanecerá sempre entre nós, pois assim como a bunda, ele também é imortal, mas longe de ser o herói, na música nossos heróis morreram de overdose, na política nosso último grande herói foi...é...huuummm...deixe-me ver....bom, neste caso, eu fico com a bunda. Mas como a coluna fala de cinema, vamos lá então. Nosso herói no cinema é....Não vale Bruce Lee, Stallone, ou pra você minha leitora bonitinha, o Brad Pitt. Falo de herói nacional. Quem é? Alguém? Ninguém, né? Então vou melhorar a pergunta: A nossa musa do cinema foi Sônia Braga e hoje quem é? Quem são? Perceberam? O Brasil continua carente de ídolos, heróis, e o pior, não temos musas, por isto quem carrega o brasão da nossa pátria e se transforma em diva, é quem tem uma bunda dissonante. Apesar de não gostar nada de futebol, achar carro apenas um simples meio de transporte, nunca ter pisado num bordel, não ficar contando vantagem sobre as mulheres que me relaciono e achar a mulher melancia baranga, eu sou homem! Acreditem! Hetero convicto! Mas no Brasil se o cara não tem estes predicados e pior, se não acha a melancia um tesão, então não deve ser macho. Parafraseando o poeta Vinicius, as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental. Sabemos que até existem umas feias potáveis, mas a maioria só serve mesmo para fazer sabão. E no meu tanque o sabão tem cheiro de melancia. É inadmissível transformá-la em musa. Nem minha miopia me trairia. Ela é baranga. Musas, fora nossa eterna Soninha Cravo e Canela (e as eternas divas da pornochanchada), acho que ficamos só com o cinema americano mesmo e suas divas que invadem nossos sonhos até hoje. A vizinha Marilyn Monroe, a dama de vermelho Kelly LeBrock, a mulher nota dez Bo Derek, a pantera Nastassja Kinski e a eterna Barbarella Jane Fonda, que até hoje ronda meus pensamentos. Estas são musas. Ficam tatuadas em nosso cérebro. Mulher não deve ser avaliada por uma bunda e convenhamos, no caso da melancia uma bunda feia. Mulher é o todo. O conjunto da obra. Aliás não haveriam lindas canções se não fosse pelas mulheres. Poesias, obras de arte, gols de placa, viadutos, colunas de jornal....tudo no final das contas é dedicado a uma (ou a várias) mulheres. Elas são a principal causa da beleza deste mundo, porque todo homem que se preze faz algo interessante só pra conseguir levar uma (ou várias) mulher (es) pra cama. O que seria do cinema se não fossem as mulheres? Ou então se o cinema fosse avaliado como aqui, pela bunda, John Stagliano levaria Oscar ano após anus...ops, ano! Então vamos deixar de balela e lembra que frutas de plástico inesquecíveis, só mesmo as que Carmem Miranda usava na cabeça, porque este exército de silicone com nome de frutas não vai invadir o meu erotismo. Fico ainda com as belas da tarde, as meninas do lado, as lolitas, as Sharons, as Julianes, as Nicoles, estas sim fazem uma bela salada de frutas. As mulheres morangos são bonitas, vistosas, mas estragam com facilidade. As mulheres maçãs fáceis de encontrar e dão o ano inteiro. As mulheres goiaba já vêm todas bichadas. As mulheres jaboticabas quando se comem demais dá mal estar. E mulher melancia pra mim é redonda, pesada, cheia de caroço e dá pra mais de 20 comer sossegado. Então, frutas são como havaianas e eu fico só com as legitimas, que dão um bom caldo. Mulher pra mim não é fruta, é arte! E só há três coisas que um homem pode fazer pelas mulheres: amá-las, sofrer por elas ou transformá-las em arte. No caso desta coluna, em literatura, já que a mulher é a poesia de Deus e o homem a simples prosa. Já que elogiei vocês todas então façam o favor de me ligar este final de semana porque deu uma vontade de tomar um suquinho de frutas!



PUBLICADA NO JORNAL GUARULHOS HOJE DIAS 13 E 14 DE SETEMBRO DE 2008

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

MILUJI TE*


Meus caros sete leitores, eu não sou adepto da pirataria, mas o que fazer quando o filme que você tanto amou, não foi relançado em DVD? Caso do excelente The Commitments de Alan Parker, que fui obrigado a baixar pelo e-mule para revê-lo, pois não encontrei em lugar algum. Nem em VHS pelos sebos da cidade. Então estou perdoado!O filme conta a história de uma banda de baile, desde sua formação inicial até o fim da banda (a trilha sonora é fantástica) e o interessante é que ele foi feito por atores desconhecidos e todos eles, músicos. Usei The Commitments como pano de fundo para apresentá-los ao ator Glen Hansard,coadjuvante no filme de Alan Parker e protagonista do filme que motivou a coluna de hoje: ONCE – Apenas uma Vez.
O filme recebeu inúmeros prêmios, entre eles a estatueta do Oscar de Melhor Canção Original, que foi composta por ele mesmo, nosso ator/músico de hoje, Mr. Glen Hansard. O filme foi rodado com um orçamento baixíssimo, quase que nos padrões da turma do Dogma (movimento dinamarquês que apostava no roteiro e na interpretação, ao invés da qualidade técnica), e conta a história de um músico de rua que após ser abandonado pela namorada se apaixona por uma imigrante vendedora de rosas (Marketa Irglova), que também é pianista. Quebrando todas as regras de Hollywood, os personagens não tem nomes, não transam, não ficam numa verborragia desenfreada como a de Ethan Hawke e Julie Delpy no “cabeça” Antes do Amanhecer (um de meus filmes favoritos) e muito menos fecham a cena com o eterno beijo Happy End. Muito melhor que isto tudo, o filme transborda em sentimentos puros. O s atores falam e alto, apenas com os olhares. Já os diálogos são traduzidos em canções, transformadas em elo de ligação entre o casal de músicos, que se encontram naquela idade em que as pessoas têm que deixar os sonhos de adolescência de lado e cair na real para sobreviver num mundo hostil, duro, que não perdoa os românticos, como eu...ou como nós, meus caros sete leitores! Com uma trilha sonora altamente recomendável, que nos remete muito ao trabalho do suicida Nick Drake (recomendo e muito), com sua melodia folk e letras profundas que ferem ou alimentam a alma de pessoas sensíveis como vocês, meus sete leitores...ou como eu...o filme tem um tom de documentário e é belamente fotografado pela câmera digital sem tripé do diretor John Carney, que aliás era baixista da banda onde Glen hoje é guitarrista e vocal, ou seja, claaaaro que o filme é autobiográfico, tanto que o vídeo-clipe que o protagonista assiste com imagens de sua ex, na verdade são vídeos caseiros da real ex do diretor Carney. Simples, direto e emocionante, “Once” conquistou crítica e público e tem tudo pra se tornar um CULT do cinema irlandês (ou seria cinema mundial?). O grande segredo deste sucesso está no uso inteligente da música visceral, completamente orgânica composta pela dupla de protagonistas e claro na ousadia e sensibilidade do diretor. O resultado é uma produção pequena, honesta, o tempo todo realista, mas sem abrir mão do romantismo. Seria uma aforismo à vida??? Uma dose de esperança ao amor em sua magnitude? Um ode ao amor correspondido mas nunca consumido?? Num pais como o nosso que ainda engatinha no cinema e dependemos teoricamente de projetos de lei de incentivo para realizar nossos sonhos em película, talvez o filme nos dê uma cutucada no lema “do it yourself”, lembrando-nos de que uma boa idéia na cabeça e uma câmera na mão, ainda podem e devem fazer a diferença.



* EU TE AMO em tcheco

PUBLICADA NO JORNAL GUARULHOS HOJE DIAS 06 E 07 DE SETEMBRO DE 2008