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quarta-feira, 22 de abril de 2009

A ambição de ser o ter



Ninguém descreveu melhor as tragédias familiares regidas por grana, sexo e poder do que o genial Shakespeare e o anjo pornográfico Nelson Rodrigues. O fato é que mesmo existindo um abismo de séculos entre um e outro o que se vê é que a condição humana permanece a mesma, infelizmente, e esta tríade (grana, sexo e poder) ainda corrompe e destroi tudo aquilo que, pela teoria, deveria ser indestrutível.
A família ainda é o elo forte entre você e o mundo. Sua família pode não ser você, mas sempre está junto de você porque compõe parte de todo o universo onde se cria a sua identidade pessoal. Toda a doutrina social ou antissocial que visa destruir a família é ruim e absolutamente degenerativa, pois ao se decompor uma sociedade o que se acha como resíduo final não é o indivíduo em si, mas sim a família. Assim como o sangue que une os membros desta, os sentimentos e emoções também estão ligados e interligados eternamente como uma teia e tudo o que você faz a esta teia, de uma certa maneira, está fazendo a si mesmo e, geralmente, as consequências são fatais.
Uma prova recente disto é o angustiante filme “Antes que o diabo saiba que você está morto” do diretor Sidney Lumet. A trama gira em torno de dois irmãos que planejam e cometem um assalto frustrado e desastroso contra a joalheria da própria família e, como num castelo de cartas, as vidas que compõem a família dos mesmos vão caindo uma a uma após um sopro equivocado do destino, se é que o dito cujo se engana. As brilhantes atuações de Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei (sempre sedutora) e o veterano Albert Finney dão vida a esta tragédia agonizante que deixa a plateia a cada segundo mais perplexa com a proporção que um acidente gerado pela ambição possa causar.
Infelizmente o vinho barato da ambição (que deve ser embalado em caixa Longa Vida) embriaga muito mais que o bom vinho da glória e a ressaca pode durar uma vida inteira. Nicolau Maquiavel dizia que a ambição do homem é tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela. Woody Allen (lá vai eu falando do Woody de novo) já havia explorado o tema com “Sonho de Cassandra”, numa trama quase que semelhante a esta de Lumet, onde dois irmãos endividados (Ewan McGregor e Colin Farrell) resolvem pedir ajuda financeira a um tio rico que lhes faz uma exigência que mudaria a vida de ambos para sempre: cometerem um crime. Apesar do forte tema, Woody consegue criar uma verdadeira tragicomédia, diferente do filme de Lumet que não extrai sequer um simples sorriso do público e muito menos almeja isto, pois o roteiro é tenso e frio assim como o espírito do ambicioso.
Antes que algum ambicioso me processe por difamar tanto assim este adjetivo, salvaguardo aqui que a intenção do texto não é depreciar a ambição de ninguém, até porque acredito que toda pessoa deve ter em si a garra e a vontade em querer ser grande, porém a ressalva: trocar o amor à ambição pela ambição ao amor. Jamais passar por cima, prejudicar ou se transformar em algo frio e calculista em nome de um desejo fútil e vazio de acumular algo que quase nunca necessariamente precisamos. Mas deixando a filosofia em stand by, fica a dica do filme de hoje, somados a textos de Shakespeare e de Nelson Rodrigues e de tudo aquilo que você possa consumir e digerir de sua maneira para compreender melhor (ou não) a condição humana, pois assim como sua família estes sentimentos podem e devem representar seu passado, seu presente e seu futuro.
A sociedade é só um plug conectado a você e sua família e, enquanto ele não entra em curto, eu apenas desejo que dome sua ambição para que esta não te cegue e nem te carregue para o paraíso que você almejou com ela, mas se meu desejo falhar, espero que você se divirta por meia hora neste paraíso, antes que o diabo saiba que você já está morto.


segunda-feira, 20 de abril de 2009

BOLA NA TELA É GOL DE PLACA




Todos sabem que não sou um entusiasta futebolístico, mas como tenho pelo cinema uma paixão muito maior do que pelo futebol, então mesmo sendo são-paulino de berço e completamente realizado e feliz (se bem que um são paulino feliz é pleonasmo) com minha escolha, tive o prazer de assistir ao filme Fiel, pois não tenho o menor preconceito contra outros times. O documentário sobre o Corinthians e sua fiel torcida, na verdade segue uma direção oposta aos tradicionais e deixa a narração no banco de reservas e coloca como titulares: testemunhais de torcedores, jogadores e do técnico atual do time, Mano Menezes. Claro que em termos de cinema, o filme dá uns chutes pra fora, mas o alvo, que é o coração do corintiano, o filme acerta com um belo gol de placa. Diferente do que se imagina, o filme não é sobre a história do clube paulista, e muito menos sobre a sua torcida, mas sim sobre uma bela história da paixão e amor de uma torcida pelo seu clube num momento difícil: o rebaixamento para a segunda divisão. Assim como um marido traído, mas apaixonado, o torcedor corintiano emociona pelo amor incontestável e incondicional por sua paixão: o Corinthians! Assim como retrata muito bem um torcedor num dos depoimentos do filmes: “Torcer pelo Corinthians é sofrer...e muito.” E talvez aí esteja o grande segredo desta torcida que contrariando estatísticas (nunca acreditei nelas) é a maior torcida do mundo em minha modesta e polêmica opinião. Não levando aqui a questão da violência, já que infelizmente todas as torcidas brasileiras possuem este triste episódio em sua história, me atenho apenas à paixão e dedicação do torcedor pelo seu clube e nisto o Corinthians dá uma lição de amor. Num outro depoimento há uma frase que retrata bem isto, quando o torcedor diz:
“Todos os times têm uma torcida. O Corinthians é uma torcida que tem um time.” Eu não sou fã ardoroso de futebol já mencionei acima, e concordo com Millôr Fernandes quando diz que “O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia”, mas como sou fã incondicional de emoções, é inegável o poder emotivo que um time tem sobre seus torcedores e isto faz do futebol uma arte onde a inteligência e o talento desçam aos pés e a cada lance perfeito, a cada gol de placa, um quadro é pintado, uma música é composta e um livro é escrito na memória do torcedor. Na tela de cinema. isto é exibido (tendenciosamente ou não, o que não vem ao caso) com depoimentos emocionantes de idolatria ao time e os benefícios psicossomáticos desta euforia, como o caso da torcedora diagnosticada com uma doença grave e que se recupera e bem, nos estádios em dia de jogo. Há depoimentos emocionantes de pais, de filhos, de amigos e até de casais formados pelo Orkut graças ao amor em comum pelo Corinthians.
O amor, aliás, que em diversos aspectos é muito semelhante ao futebol, pois quanto mais você perde mais você quer jogar e o Corinthians demonstrou isto muito bem em sua estadia sombria na série B do futebol com depoimentos comoventes de jogadores e torcedores que sentiram na pele a derrota e o deboche, mas como que num filme de Tom Cruise, o time da fiel dá a volta por cima com o apoio de uma torcida que deveria servir de exemplo e que merece a alcunha que a acompanha: Fiel! E como o preço da fidelidade é a eterna vigilância, o time pode jogar na China, que vai ter uma torcida considerável lá para observar e porque não vigiar os passos dentro e fora do gramado. Finalizo o segundo tempo desta coluna com um gol de calcanhar de Sócrates, que era doutor fora e mestre dentro do campo, mas que também filosofava assim como seu xará grego: “O Corinthians não é só um time e uma torcida. É um estado de espírito.”

segunda-feira, 13 de abril de 2009

NÓS ESTAMOS AFIM DE VOCÊS



Definitivamente as mulheres tomaram conta das telonas. Chega de machões suados salvando o mundo, policiais violentos, políticos corruptos, psicopatas mascarados, super heróis de collant, ditadores egocêntricos, pois quem dá as cartas agora são as mulheres. E jogam hoje abertamente, expondo seus sentimentos, desejos e vontades provando assim com esta fragilidade à mostra, terem mais força que homens de ferro e king kongs e serem muito mais corajosas que Bruce Willis e Stallones, quando o assunto é tentar ser feliz. E uma prova clara disto e de que o amor ainda está em alta no mercado - contrariando de certa forma a tendência mundial da mídia em retratar a mulher como consumista e ao mesmo tempo apenas objeto de desejo masculino - é o sucesso do filme “Ele não está tão afim de você”, que desbancou sua antítese, o superestimado e fracasso de bilheteria, “Sex and the City”, pois a resposta do público na bilheteria demonstrou que os executivos estão na contra mão da história e que para um número infinitamente maior de mulheres ainda é preferível um Prada falsificado nos pés do que um amor falsificado no coração. Buscam um amor legitimo e que não solte as tiras na primeira curva feminina que aparecer no meio do caminho. O elenco do filme conta com mulheres lindas como Jennifer Aniston, Jennifer Connelly, Drew Barrymore e Scarlett Johansson e mostra que por baixo de toda beleza, toda força, inteligência e sensualidade, ainda há uma camada fina de sentimento pronta a se quebrar se for mal manuseada e para homens atentos e interessados, fica a dica de seguirem a cartilha do filme, que de certa forma entrega o mapa da mina para atingir o coração destes seres tão fascinantes e tão carentes, a quem devemos no mínimo reverenciar.
No mundo atual há inúmeras mulheres dignas que não buscam apenas posição social e nem tão pouco uma disputa olímpica sexual, mas sim compreensão, carinho e afeto, elementos que não se encontram à venda na Daslu e em outras butiques. Com a liberdade sexual - de certa forma ainda vigiada por fantasmas como HIV e outras DSTs - a mulher se tornou também mais sedutora, complexa e muito mais ativa quando o assunto é libido, fazendo com que os machões se assustem mais com estas atitudes e palavras, do que com tiros e ataques terroristas de filmes de ação. Caso específico do ótimo filme Divã, baseado no livro da maior representante das mulheres em termos de inteligência, humor e sensibilidade: senhora Martha Medeiros. No filme, a simpática Lilian Cabral vive Mercedes, uma dona de casa, que resolve mudar sua vida do dia para noite arriscando um casamento sólido por aventuras sexuais e acima de tudo emocionais. Sentir-se viva, foi a escolha dela ao se deparar com uma vida engessada por um casamento já sem ação e praticamente sufocado pela rotina. Foi-se o tempo de homens fazerem serão ou irem bater aquela bolinha - desculpas clássicas para um único termo: adultério - enquanto suas patroas ficavam chorando na frente da TV vivenciando a história da novela. Hoje, elas fazem a história de suas próprias novelas que para o horário da TV seria impróprio. Portanto meus caros amigos, está na hora de começar a entender melhor estes seres de pele macia e cheirosa que trabalham duro, jogam futebol, dirigem ônibus, decretam sentenças, quebram recordes, comandam empresas, mas ainda assim, são feitas de um material sensível e admirável que num momento oportuno, colocam tudo em cheque em troca de um grande e verdadeiro amor, portanto nisto ainda nos batem e feio. E que esta vontade e este desejo delas de vencerem nas carreiras não nos assuste nunca, porque a mulher atual não busca fiador/provedor e sim um grande amor. E nós, homens de verdade só podemos dizer uma coisa para acabar com a eterna insegurança contida em vocês, mulheres: Nós nunca estivemos TÃO afim de vocês, como nos dias de hoje.