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quinta-feira, 28 de abril de 2011

INVEJA: O SINTOMA DA INCOMPETÊNCIA



O ex-titã Arnaldo Antunes teve sorte na carreira, nas escolhas, nas amizades, na família e acima de tudo sorte na vida. Quantos artistas poderiam se dar ao luxo de festejarem seu aniversário de 50 anos,junto de amigos presentes assistindo à sua banda tocando no telhado de sua própria casa para um especial de TV? Claro que com tudo isto, o jovem Arnaldo deve ter uma legião de invejosos e para isto, sabiamente usou como figa a canção “Invejoso” no set list deste show que se tornou um DVD recomendado. Dentre os terríveis pecados capitais, a inveja é tão horrorosa que nem entre os círculos infernais concebidos por Dante Alighieri, no “Inferno” de sua “A Divina Comédia”, não havia sequer um círculo para a inveja. Claro que Dante, para não deixar tamanho pecado fora de discussão, plantou-o no “Purgatório”, afinal nem Deus (Paraíso) e nem o diabo (Inferno) têm estômago para tamanha transgressão. A punição de Dante para estas almas invejosas era nada mais ver, pois suas pálpebras eram costuradas aos olhos por fios de metal. Como invejar agora se toda a consumação desse pecado vem da visão? A inveja vê sempre tudo com lentes de aumento que transformam pequenas coisas em grandiosas; anões em gigantes; latão em ouro, mas o fato é que bem menos pior do que ser digno de inveja, é ser digno de lástima! Como em lugares onde a inveja é semeada, as idéias já nascem mortas, resta ao invejoso um único talento que é o de mentir, pois a calúnia é sua única arma, já que covardia e desonra estão conectadas ao seu DNA desde o nascimento, condenando-o ao eterno destino de ser ninguém. Sendo assim é praticamente natural destruir aquilo que não se pode possuir, negar tudo o que não se compreende, e claro, insultar aquele que se inveja. Geralmente, com raras exceções, o mentiroso é um covarde que teme olhar nos olhos de sua vítima, pois neles sempre acaba enxergando o reflexo de seu eterno fracasso e de sua pobreza moral e espiritual. Ele critica o objeto de seu desejo porque no fundo gostaria de ser ou de estar na posição do mesmo. Shakespeare - grande conhecedor da alma humana - soube explorar muito bem este perfil em duas de suas obras: Ricardo III e Othelo. Na primeira, o protagonista é um homem invejoso, com deficiências de caráter maior que suas deficiências físicas explícitas, mas que com muita eloqüência e habilidade maquiavélica, sobe ao trono, mas sendo derrotado ao final e oferecendo seu reino em troca de um mísero cavalo. Qualquer semelhança com o destino de invejosos atuais, não é mera coincidência. Na peça Othelo, Iago é um invejoso ardiloso e estrategista que com língua ferina e maléfica envenena a mente de Othelo com mentiras sobre Desdémona, sua amada, levando este a assassiná-la. Para os que achem Shakespeare erudito demais (o que não é), há exemplos mais simples como Dick Vigarista, o leão Scar, do premiado Rei Leão da Disney,o compositor pérfido Salieri, que invejava Mozart no brilhante filme Amadeus, e talvez a mais clássica de todas, a Rainha da história da Branca de Neve, que não podendo ser mais bela que a outra, decide matá-la. Será que ao olhares no espelho, caro leitor, você também pergunta se há alguém mais belo, mais rico, mais jovem que você? E o que pensas com relação à resposta a isto? Cuidado, pois lembre-se que mesmo sendo casto como gelo e puro como a neve, ninguém está livre da calúnia, afinal vivemos em um tempo em que pessoas sábias costumam falar sobre idéias; pessoas comuns falam sobre coisas, e somente as pessoas realmente medíocres falam sobre pessoas, e sempre com maledicência. Arnaldo Antunes já lhe perguntou uma vez se você tem fome de algo ou tem sede de algo, mas com este DVD e a canção a que o texto se refere, ele lhe pergunta olhando aos olhos: Você tem inveja de que?

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O BRILHO ETERNO DA TELA DO CINE STAR



A casa da saudade chama-se memória. É uma cabana bem pequenina em um canto do coração e visitando-a estes dias pude ver brilhar no lago transparente de minhas lembranças, a fachada do Cine Star, o verdadeiro templo do cinema em Guarulhos. A escada de mármore com os cartazes das futuras estréias, colados à parede; o cheiro de pipoca, o bilheteiro simpático , que chamaremos aqui de José, figura folclórica na cidade de Guarulhos para os que já tem mais de trinta, porque falando em Cine Star todos trazem este senhor em sua memória: velhinho, calvo, barrigudinho, um doce e sincero sorriso no rosto e aquele uniforme cheirando naftalina, que nos abria as portas para o mundo mágico do cinema. O doce aroma da sala de espera com a doceira no canto direito, onde se consumiam Confetes e Mentex, assim como se consomem Big Macs nos dias de hoje, me fazem sonhar. As portas da sala de projeção se abriam e a turma da sessão anterior saia e pelas expressões, já poderíamos ter um prévia de que o filme seria bom ou não. Eram os melhores críticos. Ao adentrarmos a sala, com suas cadeiras de estofamento vermelho e luzes baixas nas laterais do ambiente, podíamos ver a figura sempre solícita do extinto lanterninha, que além de ajudar-nos a encontrar um lugar, caso a sessão tivesse começado, evitava também aquela cambada de chatos que vão no cinema pra bater papo ou pra bagunçar, não dando a mínima importância a quem pagou para ver o filme. Esta figura extinta nos dá saudades, pois hoje em tempos modernos mas de uma ignorância pré-histórica, alguns elementos até atendem celulares e discutem relação no decorrer da sessão mesmo aos protestos de PSIIUUU. Mas isto fica pra uma outra coluna, então voltando ao Cine Star, antes do filme se iniciar a sala era tomada por trilhas sonoras que variavam de Ray Conniff até o mestre das trilhas de filmes, o senhor Ennio Morricone. Sem sombra de dúvida preparando um clima de cinema bem diferente da rádio Trama, por exemplo, onde você suplica pro filme começar logo e não ter de ouvir aquelas músicas insuportavelmente chatas e pretensiosas. Quando as luzes se apagavam e a sessão começava, vinham evidentemente os trailers, o chatíssimo curta obrigatório e claro o jornal Canal 100, lembram? "Que bonito é....lá lá lá....”, veio a musiquinha de futebol na cabeça e os gols da semana em tela gigante, não? Pra quem curtia futebol era o ápice, as vezes melhor que o próprio filme. Pra quem preferia a companhia das mulheres, graças a deus, meu caso desde garotinho, esta era a hora de pegar na mão e claro dar aquele beijo. Nem que fosse no rosto apenas. A emoção era a mesma e o romantismo ainda existia, já que gostoso era o momento em que você e a garota se envolviam fazendo o amor parecer uma noite estrelada em que até a lua parecia estar também apaixonada. Bons tempos. Mas olha eu fugindo pra outro assunto de novo. Tudo bem. É o amor. Enfim, o filme começava e ai nossa emoção disparava. Clássicos, blockbusters, filmes de terror, nacionais, comédia, o Cine Star era palco pra todo gênero. Não tinha preconceitos culturais. Me recordo das sessões regadas a Mentex e Guaraná Antártica ao lado de minha já ausente vovó, nos divertindo com as confusões de Trinity e Bud Spencer. Lembro-me como se fosse ontem, graças ao recurso do DVD e minha vasta coleção de filmes - o que me ajuda a recordar - quando vi pela primeira vez A Dama de Vermelho e fiquei sem dormir umas quatro noites seguidas, excitado sonhando com a calcinha da Kelly Le Brock.Lembro-me de quando eu e meu atual compadre, saímos da sala na metade do filme Superman IV, hábito este que mantive até hoje quando o filme é ruim, pois valorizo demais meu tempo para desperdiçá-lo assim a toa. Em compensação lembro de ter batido o recorde ao assistir 19 vezes, Máquina Mortífera com Mel Gibson e Danny Glover. Me recordo também do medo que tive ao assistir o rosto de um homem se desfazendo em Poltergeist ou a cabeça de outro rolando após ser decapitada em A Hora do Lobisomem. Ainda bem que tinham momentos de aventura como Caçadores da Arca Perdida, ou então comédias inesquecíveis como Na trilha da Pantera Cor de Rosa, onde o gênio Peter Sellers conseguia fazer a platéia gargalhar. Sem contar ainda a torcida que gritava "Rocky, Rocky, Rocky" em Rocky IV, torcendo contra Drago. Tanta lembrança boa, tanta magia, tanta felicidade e como tudo nesta vida, o Cine Star se acabou, ou não sei o que é pior, se transformou no que hoje chamamos de Câmara dos Vereadores, onde as histórias não são em película, mas sim apresentadas em tempo real e nem sempre belas, interessantes e muito menos engraçadas. Talvez Poltergeist e Hora do Lobisomem dessem menos pânico na população. Mas vamos torcer que uma direção, quem sabe, desta nova etapa do Cine “Câmara” Star mude e que os bons filmes e os momentos felizesnão fiquem apenas em nossas lembranças do passado, pois podemos viver a historia e senti-la com nostalgia, porque a historia é feita de pequenas historias da nossa vida. Nostalgia é saudade do que vivemos e melancolia é saudade do que não vivemos. Então vamos aguardar o inicio da nova sessão. Já entregamos o ingresso pro senhor José. Um bom filme a todos!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

BOM MOCISMO NA MINHA CONTA NADA!



George Harrison e o mestre da cítara e pai de Norah Jones, Ravi Shankar, inauguraram a onda de concertos beneficentes, com o cultuado Concerto para Bangladesh. O evento contou com Dylan,Clapton, Ringo Star e animou 40 mil pessoas, mas a grana arrecadada demorou muito para chegar às mãos da UNICEF, devido às burocracias intermináveis. Na década de 80, o irlandês Bob Geldof, esquecido astro do clássico The Wall de Pink Floyd, para sair do ostracismo, teve uma idéia brilhante e criou o Live Aid, um mega show com o objetivo de arrecadar fundos em prol dos famintos da Etiópia. Inocência ou incompetência a maior parte do valor arrecadado foi desviado por líderes africanos e Bono, compatriota de Bob, o defendeu com o argumento de que o principal problema dos países pobres é a corrupção e não doenças ou a fome, mas que é melhor continuar investindo em prol dos necessitados do que abandoná-los com medo de um provável roubo. O fato é que Bono parece ser o único desta turma que se especializou em ser politicamente correto, e contrariando críticas ácidas de que tira proveito de seu altruísmo, não há acusações graves de desvios e toda reunião que teve com líderes mundiais, não fez feio e mostrou conhcer a fundo mais do problema que o próprio líder. Seria de fato Bono uma exceção à regra? O Live Aid de Geldof , na prática só serviu mesmo para imortalizar o Queen e reunir Ozzy com o Black Sabath, o que para o publico foi um banquete, já para os etíopes, não foi nenhum Mac dia feliz. De volta ao ostracismo, Bob criou em 2005 o Live 8, onde a proposta era convencer os 8 países mais ricos a perdoarem a dívida externa das nações mais pobres. Você consegue imaginar Bush e Tony Blair com camisetas do Bon Jovi, ouvindo Madonna, assinando perdão aos pobres endividados? Novamente o Live só funcionou para reunir mais uma banda brigada, aqui um Pink Floyd a contra-gosto. Outros astros, por altruísmo ou egoísmo, embarcaram nesta onda. Scorpions em parceria com Greenpeace fez um show no Amazonas com o tema “Chega de desmatamento! Sem Amazônia não há futuro". Jack Johnson tem uma organização destinada à iniciativas para programas de alimentação sustentável, preservação do oceano e ações de reflorestamento. Dave Matthews Band compensa as emissões de carbono de sua turnê, utilizando energia limpa e investindo em ações de reflorestamento e ainda estimula fãs a levarem suas garrafas de água, evitando a compra e descarte do plástico. Tem o time dos mais rebeldes, minha tribo, como Rage Against The Machine que com letras de protesto lutam por causas políticas e em prol dos menos afortunados. Em um DVD da banda ao vivo, o vocalista Zack de La Rocha entrevista ninguém menos que o comandante Marcos,principal porta-voz do comando militar do grupo indígena mexicano chamado Exército Zapatista de Libertação Nacional. Censurados e proibidos de realizarem concertos em alguns estados norte-americanos, a banda já subiu ao palco do Lollapalooza III, em protesto contra a censura, com cada membro da banda em pé e nu, durante 15 minutos, com uma fita preta na boca. Eddie Veder do Pearl Jam, outro rebelde, já brigou com empresas pelos preços dos ingressos, já fez campanha anti-Bush, até acompanhando Michael Moore (anti-Bush número 1) em palestras pelo país. Egocentrismo, oportunismo ou ingenuidade, o que importa é que estes astros além de movimentarem a economia, movimentam idéias e direcionam pensamentos, afinal o mundo não é colorido e muito menos romântico e bobo como uma canção breganeja. A devastação do meio ambiente, a fome, a miséria e a violência, estão aí batendo dia a dia na nossa cara e o rock que sempre foi a trilha dos rebeldes, anda desafinado e quase sem voz, então independente da critíca que se faça, eu ainda sou favorável a tais atitudes políticas e humanitárias. Não me importa que Bono é bilionário e faça discurso até perder a voz para que eu ou você, duros, possamos salvar o mundo. Bono não precisa ser espelho, mas pode e tem funcionado bem como farol. Comece em você a mudança que quer para o mundo, este é o meu recado a você amigo, leitor. Já ao Bono meu recado é mais simples: Bono já que és tão solidário, me dê 1% de vosso salário.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A NAVE U2 E SEUS ABDUZIDOS



Uma nave gigante foi vista na noite de sábado pousada dentro do estádio do Morumbi com sua capacidade de lotação quebrando recordes e uma multidão de mortais esperando um contato com os extraterrestes.Ao invés da clássica canção de “Contatos Imediatos do terceiro grau”, eis que “Trem das Onze” ecoa nos poderosos alto falantes do estádio e uma multidão enlouquecida faz um belo coro junto aos Demônios da Garoa. A nave, que uma hora antes havia dado um pequeno sinal de seu poder com o show da banda MUSE, Power trio mais do que competente, descoberto e apadrinhado por Bono Vox, dá seu primeiro sinal de contato com muita fumaça saindo de suas torres ao som de "Space Oddity" de David Bowie. As luzes se apagam e num gigantesco telão em 360 graus, surge a figura dos quatro extraterrestres caminhando junto ao povo. Larry Mullen Jr., Adam Clayton, The Edge e o líder deles Bono Vox,sobem ao palco munidos de seus instrumentos e o contato está estabelecido ao som de Even Better Than The Real Thing pairando sobre as mentes de milhares de pessoas formando uma só voz orquestrada pela regência do carismático ser vestido em couro negro e óculos escuros. Inicia-se assim o mega espetáculo milionário 360º Tour . Bono Vox com um português arrastado dá as boas vindas mostrando que a nave vêm em paz, gritando “Boa noite São Paulo da garoa, São Paulo terra boa!” . Durante duas horas a banda tocou sucessos como Elevation, I Still Haven't Found What I'm Looking For, Beautiful Day, Vertigo,Sunday Bloody Sunday, With or Without You e muito mais, sempre acompanhado pelo maior coral rock and roll que SP já teve notícia. Bono contagia com seu carisma imensurável. Grita, rebola, pula, se pendura em cabos imitando um Tarzan Pop e acima de tudo faz as vezes do roqueiro politizado, dono de uma habilidade diplomática de causar inveja em muitos astros e deixar críticos com nariz virado, afinal é o único Pop Star do mundo que já concorreu a Grammys, Oscars e até ao prêmio Nobel da Paz, por quatro vezes. Durante um dos momentos políticos do show dedicou a canção “Walk On" para Aung San Suu Kyi, Prêmio Nobel da Paz, presa por 20 anos e libertada em 2010 pela força da pressão popular fomentada por Bono e seus amigos da anistia internacional. Em outro momento político do show, o líder africano Desmond Tutu ganha forma no gigantesco telão para falar sobre a África e a Campanha One, também criada pelo U2 em prol da erradicação da pobreza e da Aids no planeta. O discurso emocionante de Tutu é seguido pela bela canção One cantada por Bono em coro com uma multidão emocionada. Claro que com tanta diplomacia assim não poderia esquecer de elogiar a presidente Dilma (sendo vaiado por metade do estádio em único momento) e citar a terrível tragédia em uma escola do RJ, homenageando-as com nomes de todas as vítimas no telão. Fato é que goste ou não goste destes momentos “Bono Salva o Mundo”, se todos roqueiros ou grandes estrelas agissem da mesma maneira, talvez muita coisa poderia ser mudada no planeta. Ele, demagogo ou não, ao menos contribui e convenhamos sabe usar muito melhor seu poder com o microfone ligado do que a maioria de estrelas que sabem apenas berrar “Come on Motherfuckers, let me see your hands and your money”, isto é um fato, além de mostrar domínio absoluto frente câmeras e acima de tudo o domínio sobre sua voz, que fica claro em Miss Saravejo, quando Bono faz a parte de Pavarotti, arrepiando a platéia com sua potência vocal. O espetáculo foi criado pelo sexto membro do U2, o conceituado Willie Williams, responsável pelos palcos de todas turnês da banda em parceira com o quinto membro da banda, o amigo e empresário desde os tempos que Bono e The Edge ainda tocavam em garagens, Paul McGuiness. A nova idéia da dupla é deslumbrante e democrática, já que estando o palco no centro, qualquer lugar que você esteja já não fica tão longe, matematicamente falando. Aliás, de matemática e geométrica esta dupla entende e muito. A turnê é a recordista em ingressos batendo até Bigger Bang dos Rolling Stones. O telão gigante e cilindrico funciona como um home theater descomunal transformando por exemplo a arquibancada numa sala de estar onde você tem imagem e som espetaculares, e dificilmente consegue se focar na propria banda no palco, tamanho caledoscópio de imagens, luzes e cores. Para os felizardos que puderam pagar mil reais para fazerem parte da Red Zone (área vip do show onde toda esta renda é destinada ao Poejto One em prol de vítimas do HIV) além de verem os astros de perto, podem correr o risco de serem escolhidos para o momento Katilce, como uma jovem, ontem resgatada por Bono para subir na nave com ele e declamar a letra da canção “Carinhoso", de João de Barro e Pixinguinha, com direito a um Bono no final repetindo com ela que será “feliz, bem feliz”. Por estas e outras, U2 garante seu lugar na história do Rock como recordistas em turnês e acima de tudo ousadia, transformando todo espetáculo da banda em um evento. E depois de quarta feira (último show) a nave parte para outro destino levando a certeza da mensagem absorvida pelos terraqueos que dificilmente apagarão da memória este contato mais do que imediato com U2 (you too), que tem seu nome surgido da filosofia do grupo, que acredita que a audiência faz parte da música e dos espetáculos. Uma coisa é fato, a nave parte com mais de 250 mil abduzidos de SP.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A CARTOLA MÁGICA DE SLASH




Uma figura tatuada com uma vasta cabeleira adornada por uma cartola preta corre pelo palco, enlouquecido. Nas suas mãos uma clássica guitarra Les Paul dourada cuspindo riffs marcantes e frases melódicas, sob um timbre indelével parece ser uma extensão de seu corpo. Só esta frase crua, já decifraria para qualquer escolado básico em rock ou em cultura pop que se trata de Slash, afinal com exceção de Angus Young do AC/DC, poucos guitarristas conseguiram a proeza de terem uma identidade musical tão forte e marcante quanto à sua identidade visual. Slash é um personagem, uma caricatura, um Carlitos do rock and roll. Filho de uma estilista, ex-namorada de David Bowie, o menino Saul Hudson, aprendeu a tocar num violão com apenas uma corda,mas seguiu a risca as lições dos mestres sagrados do Blues se tornou um dos guitarristas mais conceituados do mundo, hoje com mais de 800 guitarras em sua coleção, após brilhante carreira fomentada pelo sucesso como peça chave da maior banda de Rock – talvez a última – dos anos 90: Guns and Roses. A banda que dispensa apresentações revolucionou o mercado fonográfico na época provando que o rock estava vivo. Lotou diversos estádios pelo mundo inteiro e teve a desforra de no auge lançar um album quadruplo – Use Your Illusion -, pena que a overdose de fama foi tão letal quanto a de drogas, e Guns – o verdadeiro e original – veio a falecer após inúmeros ataques histéricos do piscótico vocalista Axl Rose, que apesar do amigo Slash tê-lo tirado das ruas e contruido um império juntos, o boicotava em shows e gravações de cds. Axl chegou a limar em algumas canções (como em Sympathy for the Devil, cover dos Stones) a guitarra de Slash, que não se deu por vencido, abandonou o barco e provou que nadaria mais longe mesmo contra a corrente e enquanto seu ex-parceiro jaz a deriva, o guitarrista atracou esta semana no Brasil para a turnê de seu primeiro cd solo, que na falta de um vocal, conta com contribuições de Fergie (Black Eyed Peas), Ian Astbury (The Cult), Dave Grohl (Foo Fighters), Chris Cornell (Soundgarden),Lemmy Kilmister (Motorhead), Iggy Pop, Ozzy Osbourne, entre outros, além dos ex-Guns e eternos amigos Steven Adler, Izzy Stradlin e Duff Mckagan. Só um cara cool e querido como Slash para reunir um time destes num álbum de estréia. O guitarrista tem fama de boa gente apesar de algumas confusões geradas a sexo, drogas e rock and roll, basta dizer que um de seus melhores amigos é Charlie Sheen, o rei da confusão, com quem divide alguns gostos pessoais como whisky, atrizes pornôs e prostitutas. Slash já contribuiu como guitarrista em trabalhos de Michael Jackson, Stevie Wonder, Ray Charles, Ron Wood, Lenny Kravitz e uma lista maior que sua cabeleira. O palco do HSBC em SP, nesta quinta, dia 07 ferveu. Em mais de duas horas de show, o guitar hero serpenteou pelo repertório de seu disco solo e de suas bandas Snakepit e Velve Revolver, mas claro, o que levou a platéia ao delírio foram os clássicos do Guns and Roses, como Sweet Child of Mine, Paradise City, My Michelle, Mr. Brownstone e mais outras, provando que ele sempre foi a alma do Guns e Axl não faz a menor falta, aliás, se tivesse a simpatia de Myles Kennedy, o GnR sem dúvida estaria na ativa firme e forte e não motivo de escárnio, a final quinze anos em estúdio para gravar um disco de gosto duvidoso, é de se lamentar. Depois do enfarte que Slash teve em pleno palco e que quase arrancou-lhe a vida num sopro – como conta em sua biografia – aboliu o vício das drogas, largou o cigarro, exibi no palco um preparo físico invejável, mas acabou se viciando em Guitar Hero, e claro, se tornou parte do vídeo game na versão Legends of Rock. Slash também já faz parte do conceituado e concorrido Rock and Roll Hall of Fame e recentemente obteve a indicação para ganhar uma estrela na seleção oficial de 2011 da Hollywood’s iconic Walk of Fame, vulgo Calçada da Fama. Entre alguns solos de blues e outros virtuosos, claro que não podia faltar ao show o tema de Poderoso Chefão – Godfather - de Nino Rota, que já virou assinatura de Slash nos palcos e que talvez retrate bem sua personalidade. Tal qual Dom Corleone, você pouco entende o que fala quando abre a boca, mas é inegável seu talento, sua inteligência e acima de tudo, o seu domínio na arte de construir amizades e manter fortes relações, inclusive com os milhões de fãs pelo mundo. Slash age com o coração, e talvez aí esteja o segredo de toda sua sensibilidade melódica que toca na medula de roqueiros e não roqueiros. O cara que já vendeu mais de cem milhões de discos age como se fosse aquele seu amigo hippie que toca violão na Praça da República em troca de moedas. O bicho fama que picou e corroeu por dentro Axl Rose, Slash usa como palheta e continua com sua pose “fuck off” com a carreira em ascensão, tirando sempre algo novo e bom de dentro de sua surrada cartola.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

ÍDOLO QUEM? ONDE? QUANDO?



Um dos realitys mais interessantes da TV aberta, o Troca de Família, saiu do ar para dar lugar para Ídolos. De acordo com Aurélio, ídolo é um objeto .de grande paixão ou a imagem cultuada de uma falsa divindade. Me admira uma TV que tem por doutrina ignorar e combater ídolos, explorar um programa onde se “criam” ídolos em tese. Que me lembre o último ídolo que passou por lá foi uma imagem de N. S. Aparecida, e fora covardemente chutada por um pastor da Universal, lembram-se? Já pensou tal pastor no júri do programa? Que o Brasil anda capenga de ídolos não é novidade pra ninguém, afinal quem tem Luan Santana, Parangolé e Restart precisa de mais o que? Ídolos – o programa - é um pré-vestibular pra faculdade de cantor de churrascaria. Os aprovados têm boa voz,alguns são até afinados, mas veia de artista mesmo, necrosada. Ídolos é uma extensão do quintal da família para a TV, onde um filho, sobrinha ou até um marido calibrado que anima as festas de casa, passa a ser o bilhete da mega sena para o sucesso. São cópias humildes, monocórdias e nada além de mais do mesmo. Na maioria dos casos o ego até supera o talento limitado, refletido até no apresentador do programa, Rodrigo Faro, que virou uma espécie de Adnet da Record, um faz tudo se perdendo na própria egotrip. Não duvido que ele em breve apresente o “Fala que eu Te Escuto” ou “Jornal da Record”, e não me espantaria vendo-o atuando como o diabo, estrela da madrugada da rede. Aliás, como diria o próprio: vaidade é seu pecado favorito e muita gente tem se afogado nela. Pecado este que torna sem sal e cansativo o programa onde o júri vira coadjuvante e os candidatos meros figurantes. A escolha de jurados insossos, presos a clichês para sustentar uma opinião na maioria das vezes óbvia ou equivocada, é um tiro no pé. Para eles a palavra “personalidade” é maldita, e tem-se como regra clara a eliminação de candidato que sofra deste mal. A dica do sucesso é “seja estúpido”, pois hoje quem tem de brilhar é o produtor e não o artista. Nos EUA, o candidato é julgado por Jennifer Lopez (não faz meu tipo cantando, mas é notório seu sucesso pelo mundo);
Randy Jackson (produtor musical que trabalhou com Whitney Houston, Celine Dion, NSYNC, Madonna, Elton John, entre outros) e finalizando a banca, Steven Tyler, vocalista do Aerosmith, que dispensa apresentações. Na versão patropi temos Luiza Possi, apresentada como um dos ícones da MPB mesmo sem ter uma música consagrada para tal honraria. Filha da Zizi Possi e de um alto executivo da indústria fonográfica, nasceu com o DNA do sucesso nos dias de hoje. Rick Bonadio, produtor de artistas como Rouge, NX Zero, Fresno e Pepe e Nenem, sabe fazer dinheiro, mas bom gosto musical parece nunca ter sido seu forte. Finalizando o trio temos a cereja do bolo que é Marco Camargo, uma figura caricata com pinta de vilão de novela mexicana, filosofando Gibran Khalil Gibran. O ex-cantor sem sucesso da Promoart (empresa do GUGU), nunca conseguiu emplacar sua carreira como cantor, mas conseguiu emplacar músicas suas como compositor, se bem que no Brasil até Carlinhos Brown tem várias gravadas e “Forentina” foi sucesso e elegeu até um deputado. Marco sente prazer em humilhar aquilo que está distante do padrão musical dele, que entende-se PROMOART! Claro que um show de TV, não deve ser levado a sério, até porque estas três pessoas devem se divertir fazendo o programa, e ainda levar uma bela bolada para casa. O que me espanta estar na quarta edição e você conhece algum dos três ídolos anteriores? Será que não é o reflexo de quem julga? Um júri que escolhe um “Ídolo” que mesmo com todas ferramentas de marketing não se torna ídolo.Prova clara de que arte não se julga. Podem até fabricar astros, afinal, Xuxa é a maior vendedora de discos do país e quem vai me dizer que ela cantando passaria em algum teste? Raul Seixas seria taxado como um doente que deveria abandonar a carreira por não ter talento, voz e muito menos perfil de artista. Caetano Veloso, coitado, seria considerado um chato e mandaria o trio à merda. Então fica a pergunta? É deste ventre que nascem nossos ídolos? Neste caso devo confessar que sou 100% favorável ao aborto.