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sexta-feira, 8 de abril de 2011

A CARTOLA MÁGICA DE SLASH




Uma figura tatuada com uma vasta cabeleira adornada por uma cartola preta corre pelo palco, enlouquecido. Nas suas mãos uma clássica guitarra Les Paul dourada cuspindo riffs marcantes e frases melódicas, sob um timbre indelével parece ser uma extensão de seu corpo. Só esta frase crua, já decifraria para qualquer escolado básico em rock ou em cultura pop que se trata de Slash, afinal com exceção de Angus Young do AC/DC, poucos guitarristas conseguiram a proeza de terem uma identidade musical tão forte e marcante quanto à sua identidade visual. Slash é um personagem, uma caricatura, um Carlitos do rock and roll. Filho de uma estilista, ex-namorada de David Bowie, o menino Saul Hudson, aprendeu a tocar num violão com apenas uma corda,mas seguiu a risca as lições dos mestres sagrados do Blues se tornou um dos guitarristas mais conceituados do mundo, hoje com mais de 800 guitarras em sua coleção, após brilhante carreira fomentada pelo sucesso como peça chave da maior banda de Rock – talvez a última – dos anos 90: Guns and Roses. A banda que dispensa apresentações revolucionou o mercado fonográfico na época provando que o rock estava vivo. Lotou diversos estádios pelo mundo inteiro e teve a desforra de no auge lançar um album quadruplo – Use Your Illusion -, pena que a overdose de fama foi tão letal quanto a de drogas, e Guns – o verdadeiro e original – veio a falecer após inúmeros ataques histéricos do piscótico vocalista Axl Rose, que apesar do amigo Slash tê-lo tirado das ruas e contruido um império juntos, o boicotava em shows e gravações de cds. Axl chegou a limar em algumas canções (como em Sympathy for the Devil, cover dos Stones) a guitarra de Slash, que não se deu por vencido, abandonou o barco e provou que nadaria mais longe mesmo contra a corrente e enquanto seu ex-parceiro jaz a deriva, o guitarrista atracou esta semana no Brasil para a turnê de seu primeiro cd solo, que na falta de um vocal, conta com contribuições de Fergie (Black Eyed Peas), Ian Astbury (The Cult), Dave Grohl (Foo Fighters), Chris Cornell (Soundgarden),Lemmy Kilmister (Motorhead), Iggy Pop, Ozzy Osbourne, entre outros, além dos ex-Guns e eternos amigos Steven Adler, Izzy Stradlin e Duff Mckagan. Só um cara cool e querido como Slash para reunir um time destes num álbum de estréia. O guitarrista tem fama de boa gente apesar de algumas confusões geradas a sexo, drogas e rock and roll, basta dizer que um de seus melhores amigos é Charlie Sheen, o rei da confusão, com quem divide alguns gostos pessoais como whisky, atrizes pornôs e prostitutas. Slash já contribuiu como guitarrista em trabalhos de Michael Jackson, Stevie Wonder, Ray Charles, Ron Wood, Lenny Kravitz e uma lista maior que sua cabeleira. O palco do HSBC em SP, nesta quinta, dia 07 ferveu. Em mais de duas horas de show, o guitar hero serpenteou pelo repertório de seu disco solo e de suas bandas Snakepit e Velve Revolver, mas claro, o que levou a platéia ao delírio foram os clássicos do Guns and Roses, como Sweet Child of Mine, Paradise City, My Michelle, Mr. Brownstone e mais outras, provando que ele sempre foi a alma do Guns e Axl não faz a menor falta, aliás, se tivesse a simpatia de Myles Kennedy, o GnR sem dúvida estaria na ativa firme e forte e não motivo de escárnio, a final quinze anos em estúdio para gravar um disco de gosto duvidoso, é de se lamentar. Depois do enfarte que Slash teve em pleno palco e que quase arrancou-lhe a vida num sopro – como conta em sua biografia – aboliu o vício das drogas, largou o cigarro, exibi no palco um preparo físico invejável, mas acabou se viciando em Guitar Hero, e claro, se tornou parte do vídeo game na versão Legends of Rock. Slash também já faz parte do conceituado e concorrido Rock and Roll Hall of Fame e recentemente obteve a indicação para ganhar uma estrela na seleção oficial de 2011 da Hollywood’s iconic Walk of Fame, vulgo Calçada da Fama. Entre alguns solos de blues e outros virtuosos, claro que não podia faltar ao show o tema de Poderoso Chefão – Godfather - de Nino Rota, que já virou assinatura de Slash nos palcos e que talvez retrate bem sua personalidade. Tal qual Dom Corleone, você pouco entende o que fala quando abre a boca, mas é inegável seu talento, sua inteligência e acima de tudo, o seu domínio na arte de construir amizades e manter fortes relações, inclusive com os milhões de fãs pelo mundo. Slash age com o coração, e talvez aí esteja o segredo de toda sua sensibilidade melódica que toca na medula de roqueiros e não roqueiros. O cara que já vendeu mais de cem milhões de discos age como se fosse aquele seu amigo hippie que toca violão na Praça da República em troca de moedas. O bicho fama que picou e corroeu por dentro Axl Rose, Slash usa como palheta e continua com sua pose “fuck off” com a carreira em ascensão, tirando sempre algo novo e bom de dentro de sua surrada cartola.

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