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sexta-feira, 29 de agosto de 2008

ÔNIBUS MÁGICO


Antes de mais nada, meus sete leitores devo avisá-los que o título desta coluna não trás nenhuma solução para o caótico transporte da nossa cidade e muito menos a invenção de um meio de transporte coletivo que voe ou se tele-transporte, nada disto. Talvez apenas a idéia de um ônibus que mesmo em estado de inércia absoluta consiga levá-lo para o outro lado da vida, aquele onde somos obrigados a nos encarar. Um símbolo da vida urbana, como o ônibus, serviu de abrigo e igreja (templo) para Christopher McCandless, um jovem americano que abandonou a vida na sociedade para viver em meio à Natureza Selvagem (nome do filme) em sua vasta solidão. Com toques de Homem Urso de Herzog, o filme segue em tom quase documental e emociona pelo roteiro, bela fotografia, uma trilha sonora fantástica de Eddie Veder (Pearl Jam) e acima de tudo pelas atuações emocionantes, orquestradas por um mestre da atuação, o ator (aqui diretor) Sean Penn. Eu que já havia me prometido que só assistiria a filmes que meu saco suportasse ou meu coração agüentasse, confesso que tremi e amoleci as pernas com este, pois em inúmeros momentos me identifiquei com o protagonista desta história. Afinal quem aqui ao perder um bom emprego, ao ter um amor assassinado e ser obrigado a ver o morto vivo do parceiro (a) vagando pelas ruas e supermercados, ou então ao ser obrigado a seguir “os rumos” da família, quando te levam a um caminho oposto ao seu, enfim, quem aqui ao sofrer desilusões com este nosso “way of life” imposto pela sociedade atual, nunca imaginou fugir sem rumo, a procura da essência do ser humano, que já esta perdida há um bom tempo? No mundo em que vivemos hoje é díficil não ir pro inferno, afinal com tantas distrações, tentações e influências cotidianas, por mais que tente andar na linha sempre alguém ou algo vai tentar te arrastar pra fora dela, daí a eterna vocação de solidão daqueles que ainda apostam em sua sensibilidade e no amor ao invés do sucesso social, do “ser sociável”, do seguir o trem mesmo que não faça a menor idéia de pra onde ele vai, mas já que todos estão nele, deve ser um bom caminho. Eu como todo esteta e extremista, ainda guardo o grande desejo de ter um dia a estrada como meu lar, abandonando de uma vez por todas este código moral rigoroso que nossos padrões sociais ostentam, porém com uma sutil diferença do protagonista eu não sou o que digamos assim, possa se dizer um naturalista, aliás sou muito urbano pra viver na floresta, mas a solidão da estrada e o prazer de ter a cada dia um rosto novo à sua frente e uma cultura nova a ser absorvida, creio que me levam à mesma catarse. A eterna busca pela felicidade, esteja ela onde estiver, é inerente ao ser humano. Uns a encontram numa roda de pagode, outros entre as pernas de uma bela mulher, outros no lindo sorriso de uma criança, mas o fato é que a felicidade é uma isca pendurada a frente de nossos olhos e tentar alcança-la é o que nos faz seguir em frente. Chris foi buscá-la na solidão do Alasca entre animais selvagens e mesmo entre momentos de extrema felicidade e emoção beirando atingir o nirvana, ele descobre tardeamente que a tal felicidade não tem significado nenhum quando não pode ser compartilhada. Que o risco de se chegar ao nível máximo da tal felicidade que projetamos é se dar conta de que talvez o bom seja ruim e o ruim seja bom. Contrariando assim uma verdade imposta por ele, numa das cenas mais belas do cinema, onde um senhor que já havia abandonado a alegria de viver, ao encontrar o jovem se encanta e pede para adotá-lo e Chris não aceitando o irrecusável convite, fala que vai sentir saudade e diz que a alegria de viver não depende apenas das relações humanas, porém como mencionado no parágrafo acima, é traído por sua falsa convicção. No final tudo se resume a uma única palavra: o amor! Ninguém vive sem. Assim como ar que respiramos, ele é fundamental à nossa existência, portanto a menos que você seja o Serguei e se apaixone e até faça sexo com árvores, esquilos e taturanas, não se isole numa floresta, pois pode se dar mal, prefira o isolamento de um quarto de hotel ou de uma cabana ao luar, ao menos assim tu pode uma vez ou outra receber uma visita desejável. O amor é uma droga criada pela felicidade e você pode encontra-la na porta de um colégio, na tela de seu computador, no apartamento ao lado do seu, entre outros tantos locais. Sua vista fica ruim, pois o feio lhe parece belo, seu coração tem palpitações, você fica com o hábito de ouvir discos que jamais ouviria em sã consciência, mas ao menos alivia a fome. Não a fome que sentiria na floresta, mas a fome urbana. A FOME DE AMOR. O único erro de Chris e que lhe foi fatal, foi não saber separar as frutas lindas e vermelhas, assim como as mulheres...parecem todas iguais, porem umas causam-nos sensações piores do que os mais terríveis venenos. E assim morreu Alexander Supertramp, um homem “livre”!


PUBLICADA NO JORNAL GUARULHOS HOJE DIAS 29 E 30 DE AGOSTO DE 2008

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Diga não à pirataria! Nome, só o original!




Meus 7 leitores favoritos, vocês já pensaram na hipótese de serem chamados de um nome que nada tem a ver com o que seus lindos pais lhe deram? Isto não serve pro senhor, seu Robiscrayson e nem pro seu irmão Gerusandré, ok? Enfim, você recebe um nome lindo e alguém vai lá e muda por um pior, sem sequer lhe pedir autorização. Isto é o que os tradutores brasileiros fazem com os títulos originais de filmes.Quem são os caras que inventam estes títulos? Devem ser os mesmos responsáveis por pérolas da MPB como “Nega do cabelo duro”, “Créu créu créu” e “Pererê” da IVETE. Fico imaginando os caras numa sala dizendo: “Gente, olha só, que rima, que métrica. Escutem: pe perere pe pe pe pe...e aí? É o bicho, não. A cara do Brasil, não é? Olhem só esta rima “ ÔÔÔÔÔ que terror...ÔÔÔÔÔ é a dança do vampiro...” Fantástico. Hit na certa...Yuhuuuu...nós somos gênios.” E o povão consome e paga até dois mil reais pra pular feito macaco fedendo a xixi no meio da multidão, atrás de um caminhão de gás repleto de butijões com vida e esbeltas rebolando. Enfim, estes caras devem também escrever as piadas do Zorra Total, os programas de humor de algumas rádios, as novelas, livros de auto ajuda, entre outras coisas de extrema importância na vida de quem nasceu acéfalo. Estes nossos gênios também emprestam sua áurea imaculada pra criarem títulos ou subtítulos pra filmes estrangeiros. Algumas pérolas são fantásticas como por exemplo o clássico de terror, o Massacre da Serra Elétrica. Alguém pode me dizer onde aparece uma serra elétrica no filme todo????? Aquilo é uma moto serra, gente! Serra elétrica é a de marceneiro e o Leather Face (o vilão, que deu sorte por não ser traduzido) teria de ter uma extensão gigante pra correr atrás daquela mulherada em trajes sumários. Aliás, deve ser algum distúrbio sexual, né? Porque todo psicopata adora matar mulheres gostosas em trajes sumários? Dificilmente eles matam uma baranga. O filme My Girl também é um ótimo exemplo, afinal o filme se chamou aqui “Meu primeiro amor”, porém teve o 2 e aí??? “Meu primeiro amor 2” , aí não seria o MEU SEGUNDO AMOR? De nada adiantou também produtores americanos bolarem um filme interessante de terror, com o assassino usando uma máscara que lembrava o quadro “O GRITO”, de Edvald Munch, numa explícita homenagem ao artista expressionista, porque aqui virou apenas Pânico... Já pensou se a moda pega e eles resolvem mudar o nome de grandes obras, não respeitando seus autores? A Monalisa podia virar a “O sorriso da buscate feia”, o auto retrato de Van Gogh, poderia ser “O quadro do véio ruivo”, e por aí afora. Mas é no cinema que eles, nossos tradutores, dão seu verdadeiro show...de estupidez! Memento é um bom exemplo, já que puseram o título aqui como AMNÉSIA e o filme inteiro o cara diz que não sofre de amnésia, mas acho que os tais “tradutores” sofriam deste mal ou nem viram o filme. Você já assistiu A morte do demônio? E uma noite alucinante? E Evil Dead? Pois é, este filme teve a honra de ser lançado com 3 títulos no Brasil... Náufrago, o título original era Cast Way. Me corrijam se eu estiver errado, mas que naufrágio teve no filme?
Meu ídolo Woody Allen também sofre com estas traduções, mas sofre mais ainda seus fãs, que além de esperarem em média quase dois anos de atraso pra verem seus filmes, ainda somos obrigados a agüentar estas traduções, substimando até um público mais seleto, que convenhamos não é atraído ao cinema por causa do “nome” do filme e sim pelo seu contexto, ou apreço pelo diretor ou atores. Por exemplo: Annie Hall, que é um nome próprio e verdadeiro, aliás nome da atriz, Diane Keaton, foi explicitamente uma homenagem à musa de Woody naquela época, que protagonizava o filme ao lado dele, porém aqui se tornou “Noivo neurótico, noiva nervosa”, numa tradução ridícula que nada tinha a ver com o filme. Tem mais ainda! Hollywood Ending virou “Dirigindo no escuro”, que parece uma típica comédia sessão da tarde, onde um cego tenta tirar carteira de habilitação, não é? Pois nada tem com o filme. Sweet and Lowdon virou Poucas e Boas (???), e Small Time Crooks virou simplesmente Os Trapaceiros. Sem contar o divertido pesudo-documentário Take the money and run, que virou um Assaltante bem trapalhão, talvez pela simples comparação entre Woody Allen e Didi? Mas ainda vem o pior. Estão preparados? Vamos lá: O filme Teen Wolf virou “Garoto do Futuro”. Como assim??? No futuro todos seremos lobisomens??? Onze homens e um segredo...alguém sabe qual era o tal segredo??? Ou melhor, havia um segredo? Esta é em homenagem ao teatro: o clássico UM BONDE CHAMADO DESEJO, peça de Tenesse Willians (uma das mais famosas do mundo), levada ao cinema com o mesmo NOME, aqui virou UMA RUA CHAMADA PECADO. Como assim? Hamlet ia virar o que??? O MIMADINHO? Rei Lear seria “O véio doido que se ferrou?” Calma que tem mais. Alien - oitavo passageiro, até que é um título interessante, né? Só esqueceram de contar o gato da tripulação, pois o Alien seria O NONO passageiro. E GIANT que virou “Assim caminha a Humanidade”. E olha que a trilha sonora nem era do Lulu Santos, para sorte da platéia. Mas o melhor de todos na minha opinião é a tradução do filme Down by law, que aqui se chamou: DAUNBAILÓ....olha isto??? Ahahahahahahahah...desculpem a gargalhada, mas só rindo, gente! Não merecia ser emoldurado um título destes? Pra piorar, quando não vem uma idéia genial pro título, botam o subtítulo. Os subtítulos são ótimos.
Monster's Ball - A Última Ceia (só se o prato da casa for a Halle Berry);
Space Balls - Tem um louco solto no espaço (era melhor um sucrilhos no espaço);
Hurricane-O furacão (pergunta pra mim se o tradutor viu o filme);
Taxi Driver - Motorista de Táxi (ápice da redundância?);
Pretty Woman – Uma linda mulher (Aulinha básica de inglês?);
Moulin Rouge - Amor Em Vermelho (Fafá de Belém traduziu?);
Forrest Gump - O Contador de Histórias (porque não, o corredor?)
Já que é pra ser redundante assim porque não:
Titanic-O navio que afunda
Sexto Sentido-O psicólogo fantasma.
Psicose-O filho que era a mãe!
A vida de David Gale-O cara que se mata pra provar que a pena de morte é falha;
Os suspeitos – O manquinho assassino
Pra ajudar o serviço destes caras de criar títulos e subtítulos extremamente comerciais visando grandes bilheterias, fica a dica de colocar subtítulos regionais, já que as novelas com sotaque nordestino sempre são sucesso. Olha ai nossas dicas: Uma Linda Mulher-A Cabrita Aprumada;
O Poderoso Chefão-O Coroné Arretado;
Os Sete Samurais -
Os Jagunço di Zóio Rasgado;
Godzila - O Calangão;
Os Brutos Também Amam - Os Vaquero Baitola;
Sansão e Dalila - O Cabiludo e a Quenga;
Perfume de Mulher- Cherim di Cabocla;
Guerra nas Estrelas - Arranca-rabo nu Céu;
Um Peixe Chamado Wanda - O Lambarí Cum Nomi di Muié;
Noviça Rebelde - Beata Increnquera;
O Corcunda de Notre Dame - O Monstrim da Igreja Grandi;
A Pantera Cor-de-rosa - A Onça Viada.

A propósito, caros tradutores: legend em Inglês não quer dizer legenda!

domingo, 17 de agosto de 2008

O PODEROSO PADRINHO



Cidadão Kane é um grande filme, mas que me perdoem os críticos, para mim o maior filme de todos os tempos chama-se Poderoso Chefão e claro, sua trilogia incontestável. Uma verdadeira obra prima que quase não aconteceu, se não fosse a coragem e ousadia de um diretor ainda jovem, porém genial: Francis Ford Copolla.
Como sempre em todas as esferas do showbusiness, os executivos com suas mentes embaçadas pela cor do dinheiro e seu QI semelhante ao de uma Sagüi excitado, botaram empecilhos no filme inteiro, fazendo que com Copolla vivesse o inferno na terra, a ponto de trabalhar vigiado por um segundo diretor, esperando para assumir seu cargo. Mas não foi só ele que sofreu nas mãos dos “executivos gênios”, afinal Marlon Brando foi negado pelos mesmos que achavam que ele só resmungava o filme todo e era canastrão, Al Pacino, além de ser um ator inexperiente, na opinião destes gênios, era sem graça e não tinha brilho algum na tela, a música de Nino Rota enfadonha e sem emoção, entre outras barbaridades que só podem sair mesmo da cabeça de executivos “das artes”, com toda sua genialidade para erguer e destruir coisas belas. Mas graças ao verdadeiro Padrinho (título original do filme, pois sempre achei nossa tradução PODEROSO CHEFÃO cafona demais) da obra, Sr. Copolla e seu fiel escudeiro nesta jornada, Sr. Mario Puzo (autor do romance), o mundo pôde ser presenteado com a maior obra prima do cinema, onde a fotografia de Gordon Willis (diretor de fotografia de inúmeros filmes, dentre eles a maioria de Woody Allen), a música perfeita de Nino Rota, a atuação visceral de Al Pacino, um elenco mais que perfeito, direção soberba de Copolla (que ainda escreveu com Puzo um roteiro espetacular) e como se não bastasse tudo isto, ainda trazer o brilho inigualável de outro gênio: Marlon Brando, no papel do eterno Padrinho Don Vito Corleone, que apesar de mafioso e cruel com inimigos, numa dicotomia, parecia não ter maldade no coração, pois era bom marido, excelente pai, um avô carinhoso, tratava como filhos os seus afilhados e ajudava muita gente sem condições. Ele apenas usou de sua inteligência e psicologia de manipulação (ou pq acham que o titulo godfather é retratado como uma marionete?) para ter poder e driblar todo um sistema cruel criado pelo mundo e do qual ele fora obrigado a sobreviver, após ter sua família inteira praticamente dizimada por homens gananciosos. Porém mesmo com uma vida regada a dor e sofrimento, Don Vito Corleone se transforma num grande homem, a ponto de arrancar lágrimas da platéia na cena de sua morte, mesmo sendo um criminoso. Isto é tocar na grandeza do ser humano! E Copolla conseguiu isto com esta brilhante trilogia sobre estrutura familiar e comportamento humano, numa metáfora ao capitalismo moderno com toques de poesia, transformando-se num verdadeiro I-Ching em celulóide, afinal basta escolher uma cena aleatória e lá terás uma frase que servirá de lição para o dia presente. A vida de um Rei (Brando) e seus três filhos contadas por Puzo, como que se fora contado por Shakespeare, remete o espectador a uma saga inesquecível sobre amor, família, poder e filosofia. Al Pacino, a grande estrela da trilogia cria um Michael Corleone que pulsa na tela a cada cena. Forte e extremamente frio e calculista consegue sempre tomar as melhores decisões e levar a família ao topo do poder, após a morte do pai, porém com uma diferença grande entre ambos “chefões”: seu pai ouvia o coração e Michael parece ter sido traído por este músculo, já que com todo seu poder e toda sua glória, é um homem amargurado, infeliz que tenta se redimir de seus pecados, mas parece ser atraído sempre para cometer novos em nome do poder. Quantos Michaels e quantos Padrinhos você conhece? O Brasil parece ser regido por um número ilimitado de Michaels que com sua fúria e seu talento para engrandecer, se tornam pessoas amargas, solitárias, tristes, que sacrificaram suas vidas em nome do dinheiro e do poder. Eu prefiro seguir a filosofia do Padrinho, claro, sem envolvimento no crime, mas sua forma de agir com o coração, pondo sempre sua família como base e como farol de seu caminho. Assumindo compromissos com pessoas e cumprindo-os sempre. GodFather (Padrinho) é o pai aos olhos de Deus, e creio ter assumido esta função, ao menos com meu amado afilhado. Já que eu nunca tive um padrinho na vida pessoal e muito menos na profissional, e sei a falta e a dor que isto me traz, pretendo cumprir meu papel de GodFather, para que meu (s) afilhado (s) nunca se sinta desprotegido. Aliás, adoraria conhecer um Vito Corleone e poder chamá-lo de Padrinho! Que está obra perdure por séculos e séculos e que sirva de exemplo ao mundo para que possamos ter cada vez menos Poderosos Chefões e mais e mais Padrinhos!



PUBLICADA NO JORNAL GUARULHOS HOJE DIAS 16 E 17 DE AGOSTO DE 2008

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

DESLIGA A TV E VAI LER UM LIVRO



Meus sete leitores, vou fazer uma confissão: eu detesto televisão! Aí, D. Iolanda e a Dona Carola que além de leitoras são minhas espectadoras vão dizer: mas então porque você tem programa na TV? E eu respondo: exatamente pra tentar mudar o quadro. Mostrar que há outras formas de se fazer TV além da que estamos habituados. Na TV a cabo, por exemplo, existem inúmeras opções de programas bacanas que não subestimam a inteligência do espectador, mas infelizmente, apenas uma parcela absolutamente insignificante em termos numéricos da população pode ter este “luxo” então, a maior parte depende da programação de redes abertas para passar o tempo, afinal televisão nada mais é do que um chiclete para os olhos. Na minha casa, o aparelho funciona mais como monitor pra DVD, afinal assim eu escolho o que quero ver e no horário desejado. Sou assim mesmo. Chato! Não curto imposições, ainda mais nos meus momentos de lazer. Um fato pouco conhecido sobre a TV é que há algum tempo atrás um pesquisador resolveu entrevistar pessoas aleatoriamente, sobre programas de TV e chegou-se à conclusão de que não há preferência por programas ou horários, pois basta ser TV que o pessoal assiste a qualquer baboseira. Isto põe em cheque, evidentemente a legitimidade do IBOPE, que até hoje é questionada, por impor de certa forma um certo tipo de programa ou horário, baseado em estatísticas das quais você e mais seu núcleo de amigos e mais os amigos deles, nunca participam. Alguns países do mundo reciclam seus lixos pelo bem do planeta, mas aqui no Brasil a gente transforma em programa de TV e o IBOPE endossa. Pra não dizerem que não falei de flores, claro que há coisas bacanas na TV aberta, com raras exceções, mas há. Basta você procurar, que você acha! Tem o programa do Jô, que é bacana, o do Serginho, que quando não leva ator da Globo e fica tentando transformar o cara em algo interessante ou da ex-big brother uma pessoa interessante, é bacana também, tem os realitys (bem mais interessantes) e o jornalismo da Record, que na minha opinião é o mais dinâmico, mas convenhamos que tem uma ou outra emissora que não dá uma dentro e parece que a palavra cultura e inteligência é abolida da grade. A MTV virou emissora pra mongolóide EMO (seria pleonasmo?) de 14 anos, então vamos falar das emissoras “adultas”, mas sem citar nomes para evitar constrangimentos, pois meus sete leitores, que são pessoas antenadas já sacaram o que estou insinuando. Está na hora do povo acordar e exigir algo melhor e parar de ser tratado como mentecapto. Ninguém agüenta mais aqueles programas da tarde, com apresentadoras que fazem cara de coitada, com a conta bancária estufada, posando de papas-defuntos ou caçadoras de barracos. Incrível! Algumas deveriam ser financiadas por uma funerária ou por uma delegacia, de tanta morte e barraco que mostram. Nunca vi gostar tanto de ver gente morta ou se gladiando. Aliás, se olhar bem pra cara de uma delas, lembra até mesmo um abutre. Repare! Depois tem os que clamam dignidade, mas falam da vida alheia. Não seria um grande paradoxo isto? Tem a mongol, também. Sabe qual é, né? Aquela que nunca sabe de nada. Do tipo: ele é gay? Nooossa. Isto é um lápis? Pra que serve? Aceita cartãoooo? Como funciona? É de comer? Aí vem as novelas, que sempre são a mesma história e o mesmo elenco fazendo sempre os mesmos papéis. E as pessoas ainda discutem nas ruas e discutem aquilo como se fosse verdade. Já almocei ao lado de duas moças bonitas, uma inclusive empresária na cidade, que estavam brigando, quase se debatendo, porque uma achava que o fulano deveria ficar com a mocinha e a outra não concordava. Gente, aquilo é mentirinha. Na vida real o fulano gosta é de homem e a tal fulana coitadinha, conhece mais travesseiro de motel do que chocolatinho de menta. Pra ver como estou certo, há tempos um cara bacana e barbudo nos ensinou a amar o próximo, mas a TV veio e nos ensinou a desprezar o próximo. Prova disto são os programas de competições ou até mesmo o BIG BROTHER, aliás, discordando dos especialistas, eu acho o programa mais culto da TV brasileira, porque cada vez que começa eu desligo o televisor e vou ler um livro. Tem emissora aberta que é retransmissora da Globo, pois seus programas só falam sobre os da Globo e quando não falam disto, é alguma entrevista com uma prostituta, algum homossexual ou algum fracassado no ostracismo. Nada contra, mas será que se tem tanto a aprender assim com estas pessoas? Eu voto na Surfistinha em qualquer cargo público. Já me decidi que agora voto em prostitutas, pois cansei de votar só nos filhos delas e levar a pior sempre.
Mas em matéria de qualidade, verdade seja dita, o Sistema Bozo de Televisão é tão estável e tão coerente quanto sua grade de programação onde Viva a Noite passa às quatro da tarde, Quarta espetacular passa na sexta, Domingo legal passa aos sábados, Sessão das dez entra ao meio dia, e a jogatina corre solta no meio da tarde. Exemplo disto é o programa Fantasia, cujo segredo do sucesso do programa, na mente de seus criadores, foi juntar dois vícios: sexo mais jogo. Mas não seria mais instrutivo e divertido, assistir um filme pornô da Vivi Fernandez jogando Banco imobiliário? Falando em sexo, tem aquela emissora dos esportes, dos programas nervosos e claro, da cobertura
do carnaval da Bahia, onde sons guturais e ininteligíveis como a-lê-lê, iê-rê-rê e uô-uô-uô, conseguem um efeito semelhante ao que o flautista de Hamelin conseguia com os ratos, fazendo com que os animais da espécie “axéptococus” sigam seu trio elétrico, fazendo movimentos estranhos com os quadris e a pélvis.
Resumindo tudo isto, o grande Wandy Warhol profetizou a célebre frase de que “...no futuro todos seriam famosos por quinze minutos”, mas a velocidade da TV conseguiu fazer com que pessoas fiquem famosas por dez minutos, em especial as que não tem nada a dizer. Ai vem aqueles que dizem que quem critica esta com inveja e jornalistas e críticos não sabem de sabem de nada, porque quase 50 milhões de brasileiros não podem estar errados. Concordo! Afinal, merda deve ser uma delícia, porque 100 milhões de moscas também não podem estar equivocadas. Portanto, liguem suas TVs e apreciem este nobre paladar!

A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM



Se tem uma figura do cinema brasileiro que eu admiro e que até tive até a honra de dirigi-lo e também entrevistá-lo, esta figura chama-se Zé do Caixão. Um grande gênio, porém desmerecido, como a maioria dos que nasceram em nosso país. José Mojica Marins é hoje sem dúvida o cineasta brasileiro mais visto e cultuado no mundo. Recebeu inúmeros prêmios em vários países como Espanha, França e Estados Unidos, onde é conhecido como Coffin Joe, onde inclusive recebeu um prêmio pelo conjunto de sua obra no Sundance Festival, o maior do cinema independente mundial. Quando tive a honra de entrevistá-lo me mostrou o anel que pertencia à Boris Karloff (ícone máximo do terror) e a filha do mesmo fez questão de presentea-lo com o adereço. Inúmeros diretores americanos admiram o trabalho de Coffin Joe, como por exemplo Robie Zombie, que ao tocar no Brasil com sua banda White Zombie fez questão de chamar Zé ao palco e homenageá-lo. Tudo isto pra ver como nosso país é engraçado e cruel em termos de valorização. Nelson Rodrigues, o mestre, dizia que o brasileiro é um Narciso às avessas porque cospe na própria imagem. Vejam o caso do Rodrigo Santoro: o rapaz é bonito, talentoso, simpático e vem crescendo horrores fora do Brasil, mas a crítica tem de falar mal. Faz o filme das Panteras, metem o pau, trabalha no Lost, metem o pau, é o antagonista de um blockbuster como 300 e falam mal. Acho que descobri a “grande falha” do Santoro e do Zé: a humildade. Se Rodrigo fosse um starlet nojento, dariam valor, assim como Zé que se cantasse de galo e fizesse pose de diretor “meia boca” que é o que mais tem neste país, os “falsos intelectuais”, que discursam seus filmes como um Godart mas o dirigem como um John Waters, talvez assim nosso Coffin Joe seria mais valorizado. Mas como tudo nesta vida tem seu tempo certo pra acontecer, não é que depois de um hiato de 40 anos, a trilogia Zé do Caixão se encerra (???) com o filme “ A encaranação do demônio” e nosso amigo José Mojica desfila pelas páginas de jornais e revistas. É a verdadeira volta daquele que nunca foi: nosso mestre do terror. Àqueles que denominam os filmes de Zé como TRASH, deveriam ficar mais atentos, pois é inegável que com o passar dos anos, ele até degringolou para este lado, porém como um Ed Wood, foi mais por falta de opção e por tiração de sarro mesmo, porque os filmes antigos de Zé nada tem de trash, pois contam uma história reta e você não vê falhas técnicas grosseiras, mesmo com um orçamento mais apertado que a garganta do machão que ao ver 3000 baratas desfilarem por uma mulher, engole o grito de terror. Zé do Caixão é nossa Múmia, nosso Drácula, nosso Lobisomen, só que real. Faz parte da nossa cultura popular e hoje, da mundial, tendo seus filmes vendidos no mundo todo, sendo que os canais a cabo franceses já exibiram quase toda sua obra e nos EUA seus filmes saem LEGENDADOS (americano odeia legenda e 99% dos filmes estrangeiros são dublados), pois os fãs apreciam a interpretação do Zé e sua voz sinistra. O Coffin Joe não acredita em Deus, nem no Diabo. Ele não acredita em espírito desencarnado, não acredita em nada, a não ser na força da mente. Força da mente esta que fez o menino de seis anos, filho de funcionários de cinema, se tornar anos depois um ícone da sétima arte. Me contou que ao mostrar seu primeiro filme (ainda criança) ao padre da cidade, o religioso chamou os pais do garoto e disse: este menino tem sérios problemas mentais. Ainda bem que o louco, mal falado, marginal, que teve suas fitas destruídas pela ditadura por acharem (como sempre acharam tudo) que ele era satanista, não desistiu nunca. Acreditou sempre no poder da mente e hoje com 72 anos de idade, vem com um filme orçado em 1,4 milhões, numa superprodução com elementos de terror como nenhum outro filme nacional fez até hoje. Com a fotografia de José Roberto Eliezer, um figurino desenhado pelo estilista Alexandre Herchcovitch, além das participações de Zé Celso Martinez Correa e Jece Valadão em seu último filme, finalmente chega ao público este coquetel de terror de Zé do Caixão, menos trash e muito mais realista. Admito não ser um fã ardoroso do gênero de terror, mas admiro José Mojica e como vi os dois anteriores não deixaria de ver como se fecha esta trilogia. A coluna de hoje é inteiramente em homenagem a este amigo e cineasta de respeito: José Mojica Marins, nosso eterno Zé do Caixão e o Coffin Joe do mundo.







PUBLICADA NO JORNAL GUARULHOS HOJE DIAS 09 E 11 DE AGOSTO DE 2008

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

A MENTIRA


Recentemente dei uma entrevista na TV para um programa do grupo Band de Televisão e fui questionado de sopetão sobre qual o maior mentiroso que o cinema produziu. Bom, respondi ali na lata, que dois filmes me remetem à “arte da mentira”, sendo verdade! O primeiro é Mera Coincidência, onde Robert De Niro e Dustin Hoffman, para abafarem um escândalo (pré-Lewinski) forjam “uma verdadeira guerra de mentira” para desviar a atenção do mundo. O segundo seria Fahrenheit 11/09, do brilhante Michael Moore, sobre outra farsa de um grande mentiroso real, de acordo com o filme: o senhor G. W. Bush! Porém refletindo 43 segundos depois percebei que na realidade o maior mentiroso do cinema é o próprio cinema, já que nele tudo não passa de uma grande mentira!

Eu acredito que a arte da mentira só deveria ser permitida aos médicos de pacientes terminais (é comprovado cientificamente que a ocultação da verdade prorroga a vida dos enfermos)e claro atores, escritores e artistas em geral, pois dentre todas as mentiras, a arte é a que menos mente, como então já dizia um grande mentiroso, o bom e velho Pessoa: O poeta é um fingidor que finge tão completamente que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.
Meu maior defeito e minha melhor qualidade atendem pela alcunha de sinceridade. Quem me conhece sabe que sou completamente incapaz de mentir e isto já me meteu em sérias enrrascadas, comprovando até que mentir faz bem à saúde, ser sincero nem sempre. Principalmente se não quer expor seu lindo rosto a um soco. Eu sou como o personagem interpretado por Jim Carrey no filme O mentiroso: absolutamente incapaz de mentir. Vou numa peça terrível e ao final o diretor pergunta: o que achou! Eu finjo que me deu um desarranjo intestinal, e saiu correndo antes dele ouvir a resposta. Aquela sua amiga que tinha um par de seios lindos e delicados, indo na onda da maioria implanta seus 350 ml de silicone e pergunta: o que achou, Má? Pra não perder a amiga e claro, o privilégio de ver mais que a sua nova aquisição, pergunto como foi o dia dela e se ouviu o último disco do Foo Fighters, e saio correndo. Aquele cara, que você sabe que não é honesto, e você já o flagrou roubando um cliente de alguém ou difamando algum pobre inocente e aí vem com aquele ar de político em campanha e diz: E ai, Mauriciãoooooo...beleza? Claro que só não respondo com um murro, porque nunca bati nem num esquilo, mas evidente que respondo na lata com meu desprezo por tal pessoa. E aí, mais um pra me difamar, porque o mentiroso tem disto, né? Tá no sangue. Ele mente, te engana, mas quer teu bem, quer ser seu “amigo” e se você não aceita ele faz questão de inventar mais umas lorotas a seu respeito e divulgá-las, já que o ouvido humano é a segunda porta da verdade, e a primeira da mentira, infelizmente. Como diria Churchill(curiosamente um grande mentiroso): A mentira roda meio mundo antes da verdade ter tido tempo de colocar as calças. Portanto uma confissão aqui e sem mentira: EU NÃO SEI MENTIR! Sou incapaz de dizer EU TE AMO sem olhar nos olhos e nada sentir. Incapaz de dizer obrigado, amigo, se você não me faz bem. Então praqueles que perguntaram porque eu não me candidatei a vereador, já que virou festa e TODO mundo nesta cidade (uma vergonha) resolveu ser vereador (mesmo sem NENHUM projeto), a resposta está aí: EU NÃO SEI MENTIR E SOU APOLÍTICO. Sou daqueles que não dão a mão quando encontra aqueles candidatos malas (seria pleonasmo, editor) com um sorriso maquiado e dando a mão pra todo mundo e te cumprimentando como se fossem amigos de infância! Oras, vá lamber sabão, como diria meu finado avô de quem herdei a incapacidade de mentir e daí o nosso “gênio” forte escorpiano, como dizem.

A quem as pessoas enganam na verdade sendo assim? Esta falsa simpatia? Este falso moralismo e principalmente a eterna necessidade de agradar a todos, custe o que custar. Tudo soa fake. Falso! Inútil! E tudo que é falso, é ruim, até mesmo uma roupa emprestada. Se seu espírito não combina com a sua roupa, você está sujeito à infelicidade, porque é desta maneira que as pessoas se tornam hipócritas, perdendo o medo de agir mal e de dizer mentiras o tempo inteiro, apenas para agradar ou para se dar bem. Mas as conseqüências podem ser fatais com o tempo, já que o ser humano se adapta a tudo: doenças, dores, frios, desilusões amorosas, perda de entes queridos para à morte, mas nunca nos adaptamos à mentira, pois ela sempre nos surpreende. Alguém lembra quando descobriu que Papai Noel não existia? Putz, aquilo foi um choque. È o primeiro soco pra você ver que o mundo não é tão legal assim como você achava. Ainda mais para os imbecis como eu que ainda acreditam na boa alma das pessoas. Incrível como o ser humano é capaz de tanta coisa ruim a troco de nada. Rui Barbosa havia profetizado há tempos atrás que de
tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver crescer as injustiças, de tanto ver agigantar-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chegaria a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto. E é como me sinto. Vergonha de ter talento. Vergonha de ser honesto. E acreditem: vergonha de ser bom! Já elaborei meu radar e vivo gritando ET PHONE HOME, na esperança de que venham me buscar, porque às vezes creio ter sido abandonado num mundo que não é o meu. Ou seria eu um mentiroso que finge escrever? Pode se jurar a mentira e mentir a verdade? Tantas perguntas para uma única resposta: Esta civilização não nos serve...fica-nos curta na manga!




PUBLICADA NO JORNAL GUARULHOS HOJE DIAS 02 E 03 DE AGOSTO DE 2008