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sexta-feira, 29 de agosto de 2008

ÔNIBUS MÁGICO


Antes de mais nada, meus sete leitores devo avisá-los que o título desta coluna não trás nenhuma solução para o caótico transporte da nossa cidade e muito menos a invenção de um meio de transporte coletivo que voe ou se tele-transporte, nada disto. Talvez apenas a idéia de um ônibus que mesmo em estado de inércia absoluta consiga levá-lo para o outro lado da vida, aquele onde somos obrigados a nos encarar. Um símbolo da vida urbana, como o ônibus, serviu de abrigo e igreja (templo) para Christopher McCandless, um jovem americano que abandonou a vida na sociedade para viver em meio à Natureza Selvagem (nome do filme) em sua vasta solidão. Com toques de Homem Urso de Herzog, o filme segue em tom quase documental e emociona pelo roteiro, bela fotografia, uma trilha sonora fantástica de Eddie Veder (Pearl Jam) e acima de tudo pelas atuações emocionantes, orquestradas por um mestre da atuação, o ator (aqui diretor) Sean Penn. Eu que já havia me prometido que só assistiria a filmes que meu saco suportasse ou meu coração agüentasse, confesso que tremi e amoleci as pernas com este, pois em inúmeros momentos me identifiquei com o protagonista desta história. Afinal quem aqui ao perder um bom emprego, ao ter um amor assassinado e ser obrigado a ver o morto vivo do parceiro (a) vagando pelas ruas e supermercados, ou então ao ser obrigado a seguir “os rumos” da família, quando te levam a um caminho oposto ao seu, enfim, quem aqui ao sofrer desilusões com este nosso “way of life” imposto pela sociedade atual, nunca imaginou fugir sem rumo, a procura da essência do ser humano, que já esta perdida há um bom tempo? No mundo em que vivemos hoje é díficil não ir pro inferno, afinal com tantas distrações, tentações e influências cotidianas, por mais que tente andar na linha sempre alguém ou algo vai tentar te arrastar pra fora dela, daí a eterna vocação de solidão daqueles que ainda apostam em sua sensibilidade e no amor ao invés do sucesso social, do “ser sociável”, do seguir o trem mesmo que não faça a menor idéia de pra onde ele vai, mas já que todos estão nele, deve ser um bom caminho. Eu como todo esteta e extremista, ainda guardo o grande desejo de ter um dia a estrada como meu lar, abandonando de uma vez por todas este código moral rigoroso que nossos padrões sociais ostentam, porém com uma sutil diferença do protagonista eu não sou o que digamos assim, possa se dizer um naturalista, aliás sou muito urbano pra viver na floresta, mas a solidão da estrada e o prazer de ter a cada dia um rosto novo à sua frente e uma cultura nova a ser absorvida, creio que me levam à mesma catarse. A eterna busca pela felicidade, esteja ela onde estiver, é inerente ao ser humano. Uns a encontram numa roda de pagode, outros entre as pernas de uma bela mulher, outros no lindo sorriso de uma criança, mas o fato é que a felicidade é uma isca pendurada a frente de nossos olhos e tentar alcança-la é o que nos faz seguir em frente. Chris foi buscá-la na solidão do Alasca entre animais selvagens e mesmo entre momentos de extrema felicidade e emoção beirando atingir o nirvana, ele descobre tardeamente que a tal felicidade não tem significado nenhum quando não pode ser compartilhada. Que o risco de se chegar ao nível máximo da tal felicidade que projetamos é se dar conta de que talvez o bom seja ruim e o ruim seja bom. Contrariando assim uma verdade imposta por ele, numa das cenas mais belas do cinema, onde um senhor que já havia abandonado a alegria de viver, ao encontrar o jovem se encanta e pede para adotá-lo e Chris não aceitando o irrecusável convite, fala que vai sentir saudade e diz que a alegria de viver não depende apenas das relações humanas, porém como mencionado no parágrafo acima, é traído por sua falsa convicção. No final tudo se resume a uma única palavra: o amor! Ninguém vive sem. Assim como ar que respiramos, ele é fundamental à nossa existência, portanto a menos que você seja o Serguei e se apaixone e até faça sexo com árvores, esquilos e taturanas, não se isole numa floresta, pois pode se dar mal, prefira o isolamento de um quarto de hotel ou de uma cabana ao luar, ao menos assim tu pode uma vez ou outra receber uma visita desejável. O amor é uma droga criada pela felicidade e você pode encontra-la na porta de um colégio, na tela de seu computador, no apartamento ao lado do seu, entre outros tantos locais. Sua vista fica ruim, pois o feio lhe parece belo, seu coração tem palpitações, você fica com o hábito de ouvir discos que jamais ouviria em sã consciência, mas ao menos alivia a fome. Não a fome que sentiria na floresta, mas a fome urbana. A FOME DE AMOR. O único erro de Chris e que lhe foi fatal, foi não saber separar as frutas lindas e vermelhas, assim como as mulheres...parecem todas iguais, porem umas causam-nos sensações piores do que os mais terríveis venenos. E assim morreu Alexander Supertramp, um homem “livre”!


PUBLICADA NO JORNAL GUARULHOS HOJE DIAS 29 E 30 DE AGOSTO DE 2008

2 comentários:

Vanilson disse...

Por sua causa agora terei que arrumar um tempo pra ver este filme ! abs

Raquel disse...

pra mim as frases do filme que mais marcaram: "LIBERDADE E BELEZA NATURAL SÃO BOAS DEMAIS PARA SE RECUSAR."
"A FELICIDADE SÓ É REAL QUANDO COMPARTILHADA."
"EM VEZ DE AMOR, DINHEIRO, FÉ, FAMA, EQUIDADE...ME DÊ A VERDADE."
"SE ADMITIRMOS QUE A VIDA HUMANA PODE SER REGIDA PELA RAZÃO, ESTÁ DESTRUIDA A POSSIBILIDADE DA VIDA."
;)
BEEEEJO