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quinta-feira, 31 de março de 2011

AVERSÃO POR VERSÃO




Nada contra grupos de forró (!), afinal como diria Fagundes: “Gosto não se discute, lamenta-se”, mas convenhamos que esta onda – um tsunami de fezes – de versões de clássicos do rock para o forró é algo patético e acima de tudo inaceitável pelo ponto de vista estético e no mínimo do bom senso. Eu nunca fui muito fã de versões, mesmo as de grupos de rock nacional, de sertanejos(lado a lado com as de forró) e alguns astros da MPB. Primeiro porque creio que seja ejacular com o pênis alheio, o que seria gozar sem esforço algum e segundo porque na maioria dos casos chega-se a ser um sacrilégio, tal qual você pintar um bigode de Groucho Marx na Monalisa por achar que vai ficar melhor e de mais fácil entendimento popular. Oras bolas, quem disse que a arte nasceu para ser entendida? A arte nasceu para ser venerada, aceita e vivenciada na sua essência e a música é o tipo de arte das mais perfeitas, pois nunca revela o seu último segredo. Mas eis que nestas versões estapafúrdias, este segredo se torna fofoca e daquelas maldosas, de botequim onde nada é verdade. Me pergunto todo santo dia quem autoriza estas versões? Será que o artista ou compositor tem ciência do que estão fazendo com sua obra? Na maioria dos casos é como urinar num muro grafitado por Banksy ou defecar sobre uma tela de Polock para garantir o direito de expor a sua versão da arte, mas para isto existem latrinas ou estúdios de gravação para grupos de forró, o que isentaria boa parte do que ainda resta de bom gosto ou bom senso neste mundo tão esquisito quanto cantores deste gênero. A verdadeira arte diz o indizível; exprime o inexprimível e traduz o intraduzível, entenderam? Portanto não traduzam a arte, pelo amor de Deus. CRIEM, OUSEM, PENSEM. Não é difícil rimar amor com dor e muito menos mãozinha com bundinha, então deixem as obras em paz e criem seus próprios lixos, suas própria músicas, afinal vai ter público do mesmo jeito e pode até ser sucesso, afinal bilhões de moscas idolatram um pedaço de merda e elas não podem estar erradas não é? São tantas. Ou foi daí que Nelson Rodrigues proferiu que toda unanimidade é burra? Mas vamos esplanar estas versões: “Come As You Are” do Nirvana virou “Liga o Som” por um grupo com 23 pessoas no palco, um verdadeiro trem do horror desgovernado atropelando a poesia de Kurt com versos desta estirpe “Som, liga som e o garçon trás whisky bom pra mim e a mulherada chega assim...” vou parar por aqui antes que você siga os passos de Kurt e exploda suas cabeça. Aliás inocentem Courtney Love, pois a causa suicida está nestes versos. O clássico “Wish you Here” de Pink Floyd, com direito a riff de Gilmor em versão acelerada e claro uma versão foneticamente elaborada para a pobreza sonora, algo como: “Sou...sou louca por ti...blá bláblá...” e claro o ápice da canção quando a cantora (!!!) que lembra o Mike Tyson mais magro, acompanha num vocalize onomatopaico novamente os riffs de David Gilmour, o famoso tan tan tan tan tan...tan tan tan...tan...talvez homenageando os tantans que freqüentem este tipo de evento. Mas ainda não acabou, pois tem versão de Scorpions, Nazareth, Kiss e até Guns and Roses com “Sweet Child O Mine” que virou “ow, ow ow, te quero maiiiis...ow, ow, ow, ow, te quero mais” e que ainda trás na letra adaptada versos sutis como “de noite no meu quarto ainda me toco pensando em ti...” Mas a bronha não para por aí, pois o Apocalypso é devastador e não tem fim e até a pobre Billie Jean do menino Michael foi estuprada por estes “artistas”, mas o crème de la crème ou merde de La merde é a versão de “The Final Countdown” – clássico de formaturas e eventos esportivos - que virou “Eu Te Amo Pra Sempre” com um vocal tão desafinado que aciona a contagem final de uma bomba de cafonice e mal gosto a explodir em sua face. Deuses do autêntico forró por favor joguem um raio na cabeça deste povo. Ó São Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Trio Nordestino, Sivuca, Jackson do Pandeiro e tanta gente boa e representativa desta riqueza nordestina, virem este disco. Nosso maior roqueiro do forró, mr. Jerry Lee Genival Lacerda e seu parceiro heavy metal Alceu Valença nos salvem deste holocausto, pois vocês são os representantes absolutos desta arte genuinamente brasileira e não esta mistura capenga de gente cafona, desafinada gritando versões pavorosas e que por falta de criatividade até para batizarem o estilo, se tornaram uma versão fajuto do que de fato é o forró, pena que uma versão tão pavorosa como as que fazem de clássicos. Eu me pergunto a Deus do céu porque tamanha judiação com o rock.

terça-feira, 29 de março de 2011

O IMBÁTIVEL JOSÉ ALENCAR



José de Alencar, com seu senso de humor inabalável, dizia que os discursos deveriam ser como um vestido de mulher: nem tão curtos que possam escandalizar e nem tão longos que possam entristecer. Como manda quem pode e obedece quem tem juízo, sigo o sábio conselho deste senhor e em poucas palavras esboço aqui sua história de sucesso e de bravura indomita. Décimo primeiro filho de uma família de 15 irmãos, começou a trabalhar com sete anos de idade e aos 18 já tinha sua primeira empresa, inciando assim uma brilhante carreira como empresário, construindo após anos e anos de labuta, um verdadeiro império e consequentemente despontando como líder empresarial e articulador político. Presidiu a FIEMG , SESI, SENAI, IEL, CASFAM e foi vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria. Na vida pública perdeu uma eleição como governador de MG, mas elegeu-se senador pelo mesmo estado com quase três milhões de votos. Escolhido pelo próprio Lula para ser vice em sua chapa para presidência, gerou polêmica, pois muitos dirigentes do PT não o aceitavam, por ser empresário, porém com delicadeza e bom humor nos discursos, inteligência nas negociações e digamos um certo talento para enxadrista nas relações pessoais, transformou sua parceria com Lula, na mais promissora da história politica do país. Para Lula ambos eram como Pelé e Tostão, mas Alencar sempre ironizou sobre quem de fato era o Pelé nesta relação e mesmo sendo fiel escudeiro do presidente, se tornou publicamente uma voz discordante dentro do governo contra a política econômica defendida pelo ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, batendo sempre que em um país com o tamanho do Brasil era inadmissível juros absurdamente altos. Era o empresário vencedor mostrando total conhecimento de causa, mas sendo abafado, como muitos, pela ignorância egoísta da política. Mas deixando o lado político de lado, assim como fez Alencar, fato raro já que reza a lenda que quem entra para a política, jamais sai. O fato é que este homem foi um exemplo digno de fé e acima de tudo esperança emocionando e inspirando milhões de brasileiros. José Alencar possuia um delicado histórico médico, que acabou roubando até o foco de sua vida política, tarsnformando-o mais num martir na luta contra o câncer do que vice presidente de uma nação emergente. Passou por dezenas de cirurgias e saia de todas com um ar de quem havia acabdo de
chegar da Disney. Em sua longa batalha contra o câncer, aceitou ser cobaia nos EUA na busca pela cura fortalecendo assim a esperança daqueles que padecem do mesmo martírio. Homem de coragem e de opinião forte afirmava não ter medo da morte, mas sim da desonra, pois um homem sem honra morre em vida. Suas entrevistas pós cirurgicas e sua luta incesante emocionavam qualquer ser que tenha um musculo pulsante no peito ou até aqueles que nada tem no peito, a não ser um cifrão, como no discurso emocionado nque fez no Congresso onde dizia que Se Deus quisesse levá-lo não precisaria de um câncer para isto, mas se não quiser de fato levá-lo, nem um câncer seria capaz disto. Frase forte que calaria até o mais profundo ateu, até porque já não importam religiões, raças e nem bandeiras políticas aqui, pois o fato era que este homem esfregou sua fé dignamente em nossa cara e nos mostrou que a vida sempre vale mais do que qualquer coisa neste mundo. Por pior que seja a sua situação jamais se entregue, pois Alencar, mesmo sendo milionário e poderoso, viu que numa situação desta o único bem que temos é a nossa fé e ai sim vemos quem é rico e quem é pobre de fato. José não se entregou e lutou, ou melhor, ele dançou uma valsa longa com a morte e até o final da melodia e em momento algum deixou de sorrir para ela. Descanse em paz, guerreiro.

quinta-feira, 24 de março de 2011

O SONHO ACABOU, MAS SOBRARAM AS ROSQUINHAS...



Pode parecer saudosismo de minha parte, mas analisando a lista de atrações do Rock in Rio 4, impossível se abster frente ao destino que a música, em especial o rock tem tomado nos últimos anos. Para os mais jovens, basta lembra que guardadas as proporções históricas de cada manifestação musical desta espécie, o Rock in Rio (1985) foi o maior evento de rock do planeta e superou Woodstock e qualquer outro no quesito atrações. Para se ter uma idéia, o evento teve Queen, AC/DC, Scorpions, Ozzy, Iron Maiden, Whitesnake, entre outros, além das bandas e artistas nacionais como Barão, Paralamas e até um Pepeu Gomes que ao invés de ser vaiado, como temia, foi ovacionado pela platéia. O evento até hoje é citado por grandes astros do rock, inclusive eleito pelo finado Freddie Mercury como o palco onde “Love of my Life” teve a sua melhor execução em toda carreira do Queen. A banda alemã Scorpions também imortalizou a canção “Still Loving You” – eleita a
melhor balada de rock de todos os tempos – nos palcos desta grande cidade do rock. Ozzy foi proibido em contrato de morder qualquer animal vivo, após o acidente ocorrido com o morcego. Recebeu uma galinha (galináceo mesmo e não uma groupie) da platéia e a entregou aos roadies intacta. Angus Young incendiou a platéia com seus riffs imortais do mais autêntico e puro rock and roll e claro, mostrou sua bunda bem antes de Carla Perez sequer existir. O Brasil também teve manifestações inesquecíveis como a bronca que Herbert Viana deu na platéia que vaiou Kid Abelha e a homenagem que fez a Ultrage a Rigor, que não haviam sido convidados para o evento. Herbert no auge da carreira não se sentia rei, ao contrário de muito artista de hoje, e queria que o time aumentasse, diferente deste egoísmo predominante onde poucas bandas se dão as mãos. Era de fato rock nas atitudes e não apenas na musicalidade. Hoje quem faz isto? Vivemos no mundinho colorido do politicamente correto. Se você não é aceito pela diretoria da MTV que visa adolescentes de 12 a 16 anos ou cair na graça de um produtor mafioso que gerencia o cartel atual, você está morto. Hoje você tem de ser político, no pior sentido da palavra, para obter uma chance. Por falar em política, no dia do show do Barão Vermelho o Brasil elegia Tancredo Neves como presidente e Frejat e Cazuza brilharam no palco.Frejat usava uma calça verde e uma camisa amarela, que apesar da pieguice, para o momento foi tão perfeito quanto seus solos. Já Cazuza exalando rebeldia pelos poros gritava por um novo Brasil ao som de “Pro dia nascer Feliz”. Quem viveu está época sabe que foi emocionante e o rock ali mostrava para que veio, pois foi e sempre será a maior forma de revolução musical da história. O rock quebrou preconceitos, derrubou muros, criou polêmicas construtivas, cessou guerras, fez parte da história. Aí nos pegamos hoje onde bandas como Fresno são empurradas a força por questões estupidamente comerciais a abrir um show de rock no Morumbi e levam uma vaia de 90% do público (eu estava in loco) e me pergunto:porque isto? Quem decide isto? Será que o público merece isto? Ficou claro que não! Quem já teve a oportunidade de ver o rock teatral e visceral do AeroSilva no Jô ou em platéias de 20 mil pessoas sabe do que estou dizendo. Quem já viu Velhas Virgens tocar para milhares de pessoas e ouvi-las cantando juntas frase a frase das histórias de Paulão, sabe do que estou dizendo. Sem contar Pedra letícia com carisma e letras engraçadas, sem ser estúpidas, além das inúmeras bandas bacanas e verdadeiras, perdidas por aí, que criam, pensam, agem, reformulam e fazem de fato rock and roll. Hoje me aponte uma letra inteligente? Uma musiquinha sexy vai? Uma histórinha interessante? Uma postura que tenha valido um grito de euforia? Não tem nada, meus caros amigos. Desejo sucesso ao Rock in Rio e claro a todos participantes, mas que me perdoem a sinceridade, o público do rock merecia coisa melhor do que metade do casting escolhido. Talvez Neil Young estivesse com razão ao proferir que o rock and roll nunca morreria, num plano metafórico, pois no plano comercial creio que o tiro de Kurt levou bem mais do que sua pobre alma. A Variety de 1955 dizia que o rock não duraria mais dois meses. Bom, durou bastante, até meados da década de 90, mas de lá pra cá, como diria Lennon, o sonho acabou, e só nos restaram as rosquinhas.

quarta-feira, 23 de março de 2011

QUEM TEM MEDO DE ELIZABETH TAYLOR?



Hollywood amanheceu triste com a notícia da morte de uma de suas maiores divas, Elizabeth Taylor. O que falar sobre esta mulher de valor incalculável para a história do cinema? Uma atriz com seis décadas de carreira já é quase extra-terrestre nestes dias onde tudo é tão instantâneo e descartável. Liz começou sua carreira ainda criança, com apenas dez anos de idade e nunca mais parou. Conviveu com holofotes e imprensa assim como convivemos com vizinhos e aquela tia solteirona e chata que insiste em nos visitar, com o diferencial de que Liz Taylor sabia driblar a situação com categoria. Por suas atuações foi indicada cinco vezes ao Oscar e levou duas delas, uma por Disque Butterfield 8 e outra por Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, onde atuou ao lado de seu marido Richard Burton e que muitos diziam que o filme era praticamente a vida particular do casal, já que brigavam na mesma intensidade e proporção tal qual na trama adaptada da peça de Edward Albee. Liz e Burton foram praticamente as primeiras iscas do que viria a se tornar a indústria da fofoca. Era o casal mais famoso do mundo e mais vigiado por lentes e jornalistas do que Britney Spears, Lindsay Lohan e Amy Winehouse juntas fazendo uma orgia. Para se ter uma idéia, quando Burton fazia Hamlet na Broadway a Times Square ficava congestionada de pessoas, só para ver o casal, já que Taylor sempre o acompanhava da platéia. Burton foi o marido de número cinco e de número seis (pois casaram-se, divorciaram-se e se casaram de novo) dos oito casamentos da estrela e se conheceram durante as filmagens de Cleópatra. Como Burton era casado e Liz também, a atriz levou a fama de destruidora de lares, mas o fato é que a paixão entre ambos foi avassaladora e Liz até o fim de sua vida afirmava que Burton - escorpiano nascido no mesmo dia que eu
- foi o homem de sua vida. Casamentos e confusões à parte, a atriz sempre rebateu com muita inteligência suas críticas. Quando lhe perguntaram porque tantos casamentos ela respondia que só havia ido para a cama com homens com quem foi casada. Quantas mulheres poderiam dizer isso? Ou melhor quantas podem dizer isto hoje? Liz tinha uma força vital invejável, pois durante sua vida foi acometida por um número infinito de problemas de saúde e chegou a desafiar a morte em vários deles, e vencê-la. Sua vontade de viver sempre foi mais forte do que a força de qualquer um de seus personagens. Ela afirmava que não importavam as circunstâncias nas quais somos colocados, mas sim o espírito com o qual as enfrentavamos. Prova clara disto foi o apoio da atriz à causas humanitárias, em especial às vitimas do HIV, onde bem antes de efeitos e métodos de prevenção se tornarem públicos, ela já apoiava o amigo Rock Hudson – umas das primeiras vítimas famosas – sem sequer se preocupar com o contágio – pois ninguém tinha informação plena do assunto – , dando calor humano e segurança ao eterno amigo. Montou uma fundação em prol das vítimas e aceitou até participar de filmes, de gosto duvidoso, como por exemplo, Os Flinstones, apenas para ajudar a causa, já que a bilheteria da estréia iria pra fundação. Além de fazer fortuna com suas atuações, também se mostrou grande empresária ao criar uma linha de perfumes, sendo um deles um dos cinco mais vendidos no mundo e foi a primeira atriz a ganhar um cachê milionário – um milhão de dólares por Cleópatra - dando margem para o que hoje os atores usam e abusam, vide Charlie Sheen e seus ataques egocêntricos. Mas apesar de todo sucesso e toda riqueza, os problemas constantes de saúde e a morte de pessoas importantes como Burton, Hudson e de seus pais, fez com que a atriz se viciasse em analgésicos, levando a se internar-se numa rehab, onde conheceu um carpinteiro alcólatra que viria a ser o seu sétimo e último marido, provando que a bela não tinha de fato preconceito algum com nenhuma espécie de ser humano. Uma rara personalidade que tinha humildade e acima de tudo sabia usar sua gigantesca fama em prol da humanidade, sabendo jogar com a imprensa em favor de quem precisa, como quando negociou fotos de seu casamento doando toda renda para fundação no combate à aids. Melhor amiga do astro Michael Jackson a polêmica atriz se recusou a participar do velório-show do artista alegando não ter vocação para participar de um circo daqueles. Foi-se em paz aos 79 anos a dona do olhar mais emblemático da história do cinema. Choram as câmeras, suas eternas viúvas, pois nunca outra atriz teve tão forte relação com as lentes do que Liz Taylor, atriz que assim como seu amigo Michael, viveu e morreu com alma de criança.


quinta-feira, 17 de março de 2011

Não fumava, não bebia, não cheirava e mentia só um pouquinho. Saudade de Tim Maia, nosso síndico!



Penúltimo filho de uma família de 19 irmãos, Sebastião Rodrigues Maia, nosso saudoso Tim Maia, desde a infância já dava traços de que viria pra confundir e não para explicar. Ainda menino, saia para vender as marmitas feitas pela mãe para sustentar a gigantesca família, mas as comia no caminho e depois ainda ia jogar futebol, de onde talvez tenha saído a idéia de um de seus clássicos, a canção “Sossego”, que aliás foi executada pela
banda Guns and Roses em visita pelo Brasil, para homenageá-lo. Dono de uma voz grave e com um swing inconfundível fundou sua primeira banda com ninguém menos que o Rei Roberto Carlos, que na época ainda era plebeu. Amigo de infância também de Erasmo Carlos e de Jorge Ben Jor, arriscou-se indo pros EUA tentar a vida como músico, mas foi deportado por envolvimento com roubo e posse de drogas, iniciando assim a formação acadêmica do polêmico Tim Maia, que apesar de colecionar sucessos, tinha uma galeria enorme também de confusões, processos judiciais e desafetos. Tim bateu de frente com astros da MPB, se desentendeu com a maioria dos músicos que lhe acompanharam, comprou briga com a Rede Globo, acarretando sua proibição em qualquer programa da emissora, se envolveu com drogas novamente, propagou uma religião psicodélica absurda que depois se arrependeu, faltou a inúmeros compromissos, criando assim até um plus em seus shows, que era a surpresa de sua presença, já que nem ele e nem ninguém mais sabia quando ele apareceria no show. Enfim, nosso Tim tem uma biografia de fazer inveja a qualquer astro polêmico do rock, que aliás Nelson Mota registrou muito bem na divertida biografia do cantor, que em breve salta para as telonas. Tim lançou seu primeiro album na década de 70, e já trazia na bagagem "Azul da cor do mar" e "Primavera", duas pérolas. Daí por diante o rei do swing e do soul no Brasil colecionou sucessos e claro, como consequência, diversas regravações de suas músicas por estrelas da MPB. Foi também um dos primeiros artistas independentes no país, afinal como ele mesmo dizia, agora só teria que brigar com ele mesmo e mais ninguém. Difícil saber quem venceria esta disputa acirrada. Uma pena que de certa forma sua vida regada a som e fúria, criou uma cortina de fumaça sobre sua arte. Tim foi um dos maiores gênios da MPB. Produtor, compositor, excelente cantor, mas acima de tudo um contestador, uma figura polêmica e convenhamos divertida, que faz muita falta neste cenário atual tão pobre de música quanto de personalidade. Tudo é calmo e sereno e todos se amam nesta época chata e hipócrita do politicamente correto. Vivemos numa tela de descanso do Windows esperando apenas os Teletubbies descerem do morro ensolarado gritando de felicidade. Aliás, creio que estou vendo-os! Ah não, é apenas a banda Restart! Enfim, há 13 anos atrás, como que numa ironia do destino, o homem que faltava aos shows, por pouco não morre no palco, tal qual Cacilda Becker. Durante a gravação de um espetáculo para a TV no Teatro Municipal de Niterói, Tim compareceu, mesmo sabendo de sua má condição de saúde. Passou mal e teve de se retirar logo no início, sendo levado para o hospital numa ambulância, vindo a falecer dias depois aos 55 anos. A voz grave e rouca se calava. Suas frases polêmicas e divertidas se apagavam, mas sua essência permanece no coração de quem aprendeu a respeitar música e acima de tudo personalidade, qualidade (ou defeito) que anda em extinção neste triste país. Ah! Se o mundo inteiro lhe pudesse ouvir, Tim. Tudo o que nos contou e o que aprendeu, afinal na vida a gente só têm que entender que um nasceu pra sofrer enquanto o outro nasceu para rir, não é? Que falta faz um sindico para por ordem (ou desordem) na casa!

quarta-feira, 16 de março de 2011

99 NÃO É 100



O planeta vive um momento delicado em função da inversão térmica causada por um péssimo inquilino da Terra: nós, seres humanos. Por outro lado também sofremos em função de outra inversão tão grave quanto: a inversão de valores. Ruy Barbosa já dizia que de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o homem chega a rir-se da honra, desanimar-se de justiça e ter vergonha de ser honesto. E eu acho que o nosso Águia de Haia infelizmente estava com a razão, pois num mundo onde banqueiros destroem populações com uma ferocidade maior que a de um tsunami e são tratados como deuses, algo está errado. Num certo país então, bandidos corruptos, com sua “ficha limpa” comprada, se dizem mais limpos e íntegros que qualquer cidadão honesto e trabalhador; um deputado semi analfabeto preside a comissão de educação e o chefe nefasto da quadrilha do mensalão, preside a comissão de justiça. O que se esperar de uma terra assim? Até a cantora delicada, simpática e de índole casta, resolveu virar devassa só para não se sentir diferente e fazer parte do grupo de “elite”. Seria o “efeito Ruy” da vergonha de ser, digamos, normal? O cinema brasileiro que não podia ficar de fora desta inversão também levou milhões de pessoas a ver um filme (aliás péssimo) sobre uma prostituta consumista e viciada (na época do diário como a mesma descreve) enquanto de outro lado um filme que fala de valores morais e acima de tudo dignidade humana é desprezado. Detalhe: concorreu ao Oscar este ano e sequer 99% da população soube de sua existência. O filme a que me refiro é “Lixo Extraordinário”, um documentário fabuloso sobre um projeto do nosso artista plástico Vik Muniz (respeitado no mundo inteiro, mas aqui...quem é ele mesmo?) junto aos catadores de matérias recicláveis do Jardim Gramacho, um dos lugares mais miseráveis do Brasil. Neste lixão horroroso onde grande parte do lixo do RJ desemboca, estas pessoas fazem o trabalho (ecológico e econômico) de separar o lixo do material reciclável. Uma metáfora interessante esta, já que o próprio Vik escolheu trabalhar com gente reciclável, que só precisa de uma chance para se transformar, ao invés de investir em lixo, como muito tem se feito em nosso país ao retratarem vida de traficantes, políticos e outras peças que não se reciclam e só visam poder. Neste belo e emocionante filme o artista em conjunto com alguns catadores selecionados por ele elabora fotos que se transformam em arte feita de lixo numa proporção inversa à da nossa TV que costuma nos empurrar qualquer forma de lixo como se arte fosse. A vida destes moradores se transforma e o emocionante é você testemunhar nos depoimentos os reais valores ali gritantes onde por exemplo, uma das moças catadoras de lixo se orgulha de tal profissão digna ao invés de se prostituir, vender seu corpo a troco de vil metal. O líder do grupo, Tião, é outro exemplo, pois divaga Maquiavel, Nietzsche, e até a obra Marat Sade de Peter Weiss, conhecimento adquirido de livros que resgata do lixão, enquanto estudantes de classe média alta, mal sabem escrever uma carta e pensam que Rimbaud é um dos personagens criados por Stallone. As histórias destas pessoas demonstram afeto, amor, fraternidade entre si e tornam o filme em uma lição de amor e de altruísmo, palavra tão rara nos dias de hoje, onde o Ter prevalece sobre o Ser. Será que o verdadeiro lixo não está dentro das mansões fechadas com muros e portões altos? Será que o lixo que mais fede, mais contamina, não é o lixo oriundo da pobreza moral e cultural que assola nosso país? Ainda creio que ser um homem de valor ainda valha mais que ser um homem de sucesso, pois nem todos nos dias de hoje podem ter um curso superior e um bom emprego, mas podem ter respeito, alta escala de valores e um espírito justo que são a verdadeira riqueza de qualquer pessoa. Deus está se tornando imunidade diplomática. A pessoa mente, mas crê em Deus, trai, mas é temente a Deus, engana, mas lê a palavra de Deus, sem saber que Deus pouco se importa para o que você lê sobre Ele e sim para o que você OUVE Dele. O que você faz de bom deve ser um segredo entre Ele e você, então pare e pense se de fato vocês tem mantido bons segredos? Você tem dividido tanto quanto tem mutiplicado? Quantas vezes tem ajudado alguém? Se importado com alguém? Estendido sua mão para levantar alguém? Devíamos amar as pessoas e usar as coisas, mas estamos amando as coisas e usando as pessoas. Nesta inversão, nos tornamos lixo e nem um pouco extraordinário, não é mesmo?

quinta-feira, 10 de março de 2011

E NESTE CARNAVAL QUEM DIRIA, O AMOR VENCEU!




Não sou adepto da folia de carnaval e nem tão pouco alucinado pelos desfiles. Confesso que tiro estes dias para por minha leitura em dia ou para aumentar a cultura cinematográfica, alimentando meu vício por cinema, minha eterna igreja. Porém, como todo jornalista, não me alieno, e claro me informo e para minha surpresa creio ter perdido um dos maiores e melhores episódios desta festa já que RJ e SP provaram que diferente da Bahia (quem assiste aos trios sabe do que estou falando), a música finalmente venceu. A Beija Flor do RJ homenageou o Rei Roberto Carlos e em SP, a Vai-Vai do saudoso Itamar Assumpção, fez um desfile para ilustrar a bela biografia do maestro João Carlos Martins. Ambas levaram o título de campeãs provando que o povo (já que a festa insiste em se dizer popular) também aprova coisa boa e não se aliena atrás apenas de batuques repetidos regidos por letras feitas apenas com vogais vociferadas por acéfalos marombados em trajes ridículos que visam uma única coisa: seu dinheiro. Para nossa sorte, o país que promete mudanças, de fato começou bem demonstrando que o povo quer sim comida, diversão e porque não ballet? Os sambódromos transformaram a vida de dois ícones da nossa cultura em um espetáculo de poesia e arte. Roberto que dispensa apresentações, leva merecidamente o título de rei bem longe de ser substituído, já que nossa linha de produção está em alta com bobos da corte. Não há vestígio de compositor tão grandioso como o rei quando o assunto é amor. Em contrapartida, o maestro João Carlos Martins fez de sua vida uma verdadeira história de amor, pondo em prática as sábias palavras de Erasmo de Rotterdam que profetizava que o amor ensina música. O gênio surrealista Salvador Dali ao assistir uma apresentação do maestro nos anos 60 recomendou ao mesmo: “Diga a todos que você é o maior intérprete de Bach, algum dia vão acreditar. Faz muitos anos que digo ser o maior pintor do mundo e já há gente que acredita.” E ele o fez e hoje o mundo não só acredita como concorda que ele é o maior. Como se não bastasse, este homem-mito nos dá uma lição de vida com uma dedicação tão intensa e meritória sobre seu amor à música, atravessando desafios tão difíceis que fariam com que muitos jogassem a toalha no primeiro round, mas o maestro é feito
do material que são criados os heróis e sua força está acima da lógica e da razão, pois é um ato de fé, e esta nem mesmo os cientistas conseguiram desvendar o seu poder. Há tempos atrás, em uma partida de futebol, João teve um nervo rompido e perdeu o movimento da mão direita, adquirindo uma doença rara que causa o estressamento de nervos e em função disto ficara impossibilitado de tocar. Vendeu todos pianos que tinha em casa e foi ser treinador de boxe, mas com sua inigualável humildade aprendeu com os lutadores do ringue a lutar na vida e com coragem e uma devoção musical surreal criou um estilo único de tocar apenas com a mão esquerda e obteve extremo sucesso com tal atitude. Mas a vida não deu mole a João
e o golpeou novamente, desta vez num concerto na Bulgária, onde agredido, vítima de um assalto, perde parte do movimento de mãos novamente, em especial a esquerda. Qualquer um desistiria, mas como quem desiste não existe e João não só existe como brilha, depois de anos de tratamento conseguiu novamente criar uma técnica que com os poucos dedos que podia em cada mão, tocava peças de Bach com estilo e maestria, mesmo com toda dificuldade. Em um sonho, o finado maestro Eleazar de Carvalho ensinou-lhe a reger e a partir daí João decidiu se tornar maestro, e mesmo incapaz de segurar a batuta ou virar as páginas das partituras dos concertos, exímio lutador que sempre foi, faz um trabalho minucioso de memorizar nota por nota, demonstrando ainda mais seu perfeccionismo e dedicação ao mundo da música. Este patrimônio nacional e maior prova de força, coragem, talento e acima de tudo humildade (palavra tão escassa em nosso mundinho de artes) representa nosso país mundo afora em turnês lotadas onde sempre é ovacionado. Há tempos atrás conseguiu fazer Jô Soares chorar em seu programa, completamente emocionado ao ouvir o maestro tocar Eu Sei Que Vou Te Amar, como se declamasse nota por nota de seu piano as frases do poeta Vinicius à sua amante, a música. O maestro já mencionou publicamente o privilégio que sente em poder tocar com seu polegar, valorizando cada nota. João, privilégio tem cada nota, de ser tocada por você! Privilégio temos nós em saber que entre tantos canalhas na política, estrelas sem talento mas repletos de arrogância, o vazio
de mulheres frutas e a tristeza de gente escanadalosa e fútil berrando sua pobreza moral na TV, temos você para com o som puro de seu piano nos acalentar a alma e com a grandeza do seu coração nos fazer crer que o Brasil tem jeito, pois com amor e fé se vence todas dificuldades impostas pela vida. Maestro João Carlos Martins, parabéns. A música de fato, venceu, mas o senhor sempre será o maior vencedor!