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sábado, 21 de março de 2009

VOCÊ ESTÁ RINDO DE QUÊ?



O humor é a quintessência da verdade e por trás de toda comédia há sempre um assunto sério a ser debatido ou pelo menos analisado. A missão da comédia sempre foi representar em geral todos os defeitos do homem, e, em particular, dos homens de nosso tempo, como já filosofava há séculos atrás o dramaturgo Moliére, pai da comédia nos teatros e maior prova de que os homens do seu tempo e os do nosso tempo não mudaram muita coisa quando o assunto é ter defeitos. O humor é ácido e ferino e sua maior missão é nos colocar para pensar, pois o bom comediante nos apresenta um modo inteligente de observação do mundo. Enquanto os atores se especializam em artes cênicas, o bom comediante deve especialista em artes cínicas e alguns tem até PhD e Doutorado nesta disciplina como é o caso de Groucho Marx, Woody Allen, Bob Hope e o homenageado de hoje da coluna: Sr. Mel “Its good to be the King” Brooks.
De origem judaica assim como 8 em cada 10 comediantes – assunto este que merecia um estudo científico profundo – Mel, começou sua carreira aos 21 anos de idade escrevendo textos de humor para TV, até criar o Agente 86, o que lhe ajudou a abrir as portas para o mundo do cinema e estrear nas telonas com o hilário “Primavera para Hitler” que já lhe rendeu de cara um Oscar de melhor roteiro original. De lá pra cá, Mel Brooks pintou e bordou no cinema, na TV e no teatro com pérolas do humor e da sátira, que esculacharam temas polêmicos, personalidades, ícones do cinema e por aí afora num festival de gargalhadas. Brooks zombou de nazismo, inquisição, revoluções, religião, sempre com inteligência e uma irreverência fora do comum, além de destilar todo seu veneno cômico e crítico em praticamente todas as vertentes do cinema, satirizando filmes de agente secreto com o impagável Agente 86 , filmes de Western (Banzé no Oeste), terror (O Jovem Frankstein e Drácula - morto mas feliz), aventura (A louca louca história de Robin Hood), espionagem e nazismo (Sou ou não Sou), suspense (Alta Ansiedade), musicais (Primavera para Hitler e depois seu remake Os Produtores), ficção científica (S.O.S. - Tem um louco solto no espaço), cinema mudo (A última loucura de Mel Brooks) e até filmes bíblicos ou épicos, como a História do Mundo - parte I (mais uma piada com Hollywood e sua onda de sequências, já que nunca Mel escreveu a Parte 2) que foi lançada esta semana em DVD para colecionadores. Brooks é um grande reciclador de material criativo e sua biografia e filmografia já prova isto. Diretor, dublador de desenhos, compositor, cantor, roteirista, dramaturgo, produtor, ator, Brooks é daqueles artistas criadores inquietos que não para de criar. Uma verdadeira fonte inesgotável de piadas geniais e gags absurdamente engraçadas. Reza a lenda que quando era Stand Up em hotéis de luxo, caso a platéia não se empenhava em rir de suas piadas, ele saia do palco, se atirava na piscina do hotel , voltava encharcado e continuava com as piadas ganhando assim a simpatia da público, no mínimo pelo seu esforço. Nos tempos de hoje há uma certa necessidade de sátiras com esta qualidade de humor, porque nunca houve tanta estrela pra tão pouca constelação, e estas parecem seguir sua trajetória imunes ao esculacho da comédia e seu caráter denunciador. A sátira é essencialmente paródica, pois ela se cria através do rebaixamento destas personalidades (reais ou fictícias), instituições ou temas que, segundo as convenções clássicas, deveriam ser tratados em estilo elevado e respeito doutrinador e Brooks nos prova o contrário, provando-nos que a comédia é a reprodução fiel da vida, é o espelho dos costumes e a imagem mais pura da verdade, nos ensinando a rir e derrubar esta gente de seus pedestais imaginários. Eu, como humorista e graças a Deus respirando bom humor, amo a comédia, pois o que mais caracteriza esta irreverência satírica é o seu caráter denunciador e moralizador. O objetivo desta arte é atacar os males da sociedade, o que inclusive deu origem à expressão latina: castigat ridendo moris, que significa "castigar os costumes pelo riso". Ou seja: a sátira ri de assuntos e pessoas "sérias", para denunciar o que há de podre por trás da fachada nobre que a todo custo tenta nos fazer crer naquilo que não é real. Portanto o riso satírico é oposto à esta idealização épica que nos foi imposta. Em cima destas teorias, Mel Brooks afirma que “Enquanto o mundo continuar girando, vamos ficar tontos e cometer erros” e aí nós concordamos e agradecemos, pois quanto mais os homens erram e quanto mais imperfeitos e tontos sejam, gênios como Mel Brooks tiram destas situações o elixir que nos faz rir e pensar, lembrando claro, que rir de tudo é coisa dos tontos, mas não rir de nada é coisa dos estúpidos. E você? Vai rir de que?



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