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segunda-feira, 7 de julho de 2008

O HULK NOSSO DE CADA DIA



Depois do fiasco do filme Hulk dirigido por Ang Lee, onde o monstrengo além de parecer o Shrek com anabolizantes ficava dando saltos inverossímeis na tela, feito um canguru viciado em anfetaminas, o francês Louis Leterrier, mesmo com um curriculo pequeno fez um trabalho bacana e bem mais plausível que do premiado Ang Lee e seu grande e verde equívoco, Hulk. Na versão nova inclusive com trechos gravados no Rio de Janeiro, na favela, claro, mesmo com os atores falando inglês e uma dublagem pior que a de novela mexicana por cima, dá pra se divertir. O filme é bacana, o elenco competente e os efeitos especiais um pouco mais convincentes desta vez. Edward Norton, Willian Hurt e meu favorito, Tim Roth revezam as cenas neste filme de ação e porque não reflexão. Pronto, lá vem a fofoqueira da Dona Yolanda, mãe da minha sexta leitora dizer que to fazendo média por causa da Liv Tyler. Não é não, Dona Yolanda, o filme e sua história tem sim uma reflexão, apesar de me levar a refletir muito no banheiro sobre a Liv Tyler. O que é a Liv Tyler? Que boca, que olhos, que pele e que sogro bacanérrimo....ops, to delirando aqui. Voltando ao Hulk! Antes de mais nada, vale ressaltar que Stan Lee, o mestre dos quadrinhos, criou o monstrengo verde baseando-se em dois clássicos da literatura universal: Frankenstein de Mary Shelley e O médico e o Monstro de Robert Louis Stevenson , o primeiro mostra as conseqüências da modificação genética e da vontade do homem em se tornar Deus e Criador e já o segundo libertando os monstros que estão dentro de nós mesmos, representando o que há de mais repugnante nas pessoas. O filme de Leterrier trabalha bem com este lado, afinal o personagem verde mais amado e odiado do mundo depois de Shrek e Geléinha dos Ghostbusters vive em eterno conflito com a besta fera em que se transforma e o monstro perverso que habita nos corações humanos, dos que se dizem normais, ou neste caso os nossos “salvadores” contra o pobre infeliz esverdeado. E aí que temos a certeza de que cada pessoa é um abismo e dá vertigem olhar para dentro delas. O Hulk pelo menos leva a vantagem de ser explícito e dar sinais de sua fúria, diferente dos “hulks” do dia a dia que nos aniquilam sem deixar vestígios. O desejo de toda besta fera, é uma bela, seja o Hulk, King Kong, a Fera da Bela, Frankenstein ou até mesmo Maurício Nunes, pois amar e ser amado é a única vontade destes seres. E quando isto não acontece extravasam sua fúria, seja ela destruindo prédios, atacando pessoas, queimando moinhos ou escrevendo colunas picantes e ácidas. Eu me sinto um pouco Hulk na maioria das vezes, talvez por isto tenha gostado e me identificado com o filme.Desde os tempos da série na TV (ainda imbatível perto dos filmes) quando ele sempre ia embora solitário. Diferente do Hulk quando fico nervoso, fico menor do que já sou....e quando fico triste diminuo mais ainda, a ponto de Remy de Ratatouille me dar uma surra. O Hulk, assim como eu, também não pode fazer sexo. Ele porque não sabe o que pode acontecer tamanha excitação ( o que suas namoradas sonham em descobrir) e eu porque sei o que acontece mas não consigo uma amante que sonhe em descobrir. Mas deixando a minha insignificante vida sexual pra lá, voltemos aos monstros, afinal o tema é mais interessante, posso garantir a vocês. O conceito de monstruosidade é complexo e no caso das artes desconexo, pois se analisarmos as histórias poderemos concluir de fato quem são os verdadeiros monstros e isto pode nos assustar um pouco. Drácula era um eterno apaixonado, que ao ser traído por “homens de bem” e perder tudo inclusive seu amor eterno, se tornou um monstro. Assim como a criatura do Dr. Frankenstein que grita em seu desespero, seu horror, sua raiva ao tomar consciência de si: “Maldito criador! Por que você me fez um monstro tão horroroso que até mesmo você foge de mim! Deus em sua piedade fez o homem belo e atraente, mas a minha forma é mais horrível ainda quando comparada à sua...”. E por aí afora com Hulks, Godzilas, Corcundas, King Kongs, Homens Elefantes, todos “monstros” criados pelas circunstâncias geradas por homens de corações frios e incompreensíveis e depois perseguidos e aniquilados por não estarem em conjunto a tudo aquilo que não esteja dentro do padrão pré-estabelecido por eles. Os monstros são o espelho do que somos ou temos medo de ser. Por isso não podemos viver, sonhar ou pensar sem a companhia dos monstros. São muito parecidos com a gente, mas não são gente. Alguma coisa, escondida no fundo do coração destes monstros, os trai. Eles lembram gente. Mas são diferentes, demasiadamente diferentes, em alguns aspectos. E os mais importantes são: sabem viver sozinhos, tem uma capacidade de amar acima da nossa e são intensos, explosivos, viscerais. A monstruosidade vai muito além da aparência física. Muita gente bela, em corpos esculturais, roupas de grife e perfumes caros tem um alma mais cruel que qualquer Freedy Kruegger. Vemos isto diariamente nas colunas sociais, onde o amor, o verdadeiro amor virou moeda de troca. Todos se transformando em projetos mal acabados de “Dorians Grays”. Monstros belos. Fiquemos atentos, porque o Hulk ao menos nos dá a pista ao ficar verde, diferente dos monstros atuais, que já nascem pretos, brancos, amarelos e não mudam de cor pra dar-nos pistas de sua crueldade. Como disse Sartre, ‘o inferno são os outros'” e eu assino embaixo!


PUBLICADA NO JORNAL GUARULHOS HOJE DIAS 28 E 29 DE JUNHO DE 2008

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